CAPÍTULO 2 ABANDONO ACADÉMICO
5. Acções e programas de apoio
O facto de muitas das razões para o abandono académico estarem associadas à escolha errada do curso ou da instituição e à inadaptação social e académica, reforçam a necessidade de programas de aconselhamento, de orientação e de integração, dirigidos a todos os estudantes. A concretização destes programas podem desenvolver-se, quer antes daqueles entrarem na Universidade, quer ao longo do percurso académico, embora deva dar-se relevo especial aos estudantes que frequentam o 1º ano por ser consensual que são os mais vulneráveis ao abandono académico.
Entenda-se que os programas de integração e de acompanhamento, ao longo do percurso académico, podem desempenhar um papel importante na redução das taxas de abandono. Efectivamente, o facto da vulnerabilidade dos estudantes ser mais acentuada no 1º ano, não significa que os estudantes dos anos subsequentes não estejam, igualmente, sujeitos aos efeitos decorrentes das dificuldades de diferentes naturezas e não se lhes coloquem dilemas sérios à continuação ou abandono dos estudos superiores.
De modo a atenuar as implicações institucionais e sociais decorrentes das taxas elevadas de abandono académico, parece importante implementar programas de suporte antes da admissão dos estudantes no ensino superior. Por isso, numa lógica proactiva e de modo a inverter a falta de integração dos estudantes na Universidade, muitas instituições realizam actividades de divulgação e integração dos estudantes no meio académico durante a fase de frequência dos estudos secundários. Os programas dirigidos aos estudantes antes da entrada na Universidade podem ter efeitos positivos na clarificação da constituição e da exigência dos cursos, das possibilidades de carreira e de empregabilidade e, consequentemente, aumentar as possibilidades de escolha correctas, reduzindo, nestas circunstâncias, o número de escolhas erradas do curso e da instituição.
Existem, ainda, programas desenhados para facilitar a integração e superar lacunas de falta de preparação académica dirigidas aos estudantes que ingressam na Universidade. Estes
programas são desenhados a pensar em determinados aspectos chave, como os organizacionais, a burocracia, os serviços de apoio disponibilizados, a organização do estudo, a comunicação, a relação interpessoal, a elaboração de relatórios, a apresentação de trabalhos e a concretização de projectos.
Conjuntamente com estes programas, e de modo a ir ao encontro das necessidades dos estudantes, afigura-se determinante criar um tempo entre a escolha do curso e a concretização da matrícula. A existência deste tempo, permitiria que os estudantes aferissem as suas expectativas em termos de conteúdos, de métodos e de estilos de ensino que melhor se adequassem à sua personalidade, dos tipos de suporte disponibilizados pelo professores e pela instituição, do tipo de trabalhos exigidos e da avaliação, das condições físicas e materiais disponíveis nas salas, do ambiente académico e institucional, da burocracia e da flexibilidade entre os cursos, da cultura e dos desafios intelectuais, de entre outros problemas. Tal possibilidade, a ocorrer num período de 2-3 semanas, parece ser uma questão a estudar por, possivelmente, ser traduzível, a curto prazo, nos resultados, quer nos níveis de persistência, quer nas taxas de graduação dos estudantes. A implementação desta possibilidade visa, por um lado, dar resposta à necessidade de mais tempo para a adaptação e para a integração que caracteriza alguns estudantes para se envolverem com sucesso nos estudos superiores (Romainville, 2000). Por outro lado, procurar através de medidas de integração social e académica aumentar a persistência dos estudantes no sistema (Sauvé et al., 2006) e da graduação dos mesmos por via da satisfação, da motivação e do empenhamento dos estudantes.
A definição de acções e programas direccionadas para os estudantes em risco de abandono académico devem ser adequadas às necessidades do público-alvo, mas deve-se ter consciência que, apesar dessa preocupação, como a seguir se refere, nem todos os estudantes beneficiarão com estes programas (Bean, 2005), aspecto que coloca aos decisores dificuldades sérias na sua acção.
A dificuldade da acção dos programas não produzir os efeitos desejados em todos os estudantes pode decorrer de múltiplas razões. Perante tal facto, pode-se colocar como hipótese: i) a desadequação do desenho dos estudos prévios aplicados, pelos serviços, para a identificação das razões que conduzem os estudantes ao abandono; ii) a variação temporal das intenções dos estudantes; iii) os estudantes omitirem, não dizerem a verdade ou enviesarem as razões da sua decisão; iv) o nível e a qualidade da informação fornecida; v) os objectivos dos estudantes e o seu nível de familiaridade com o ensino superior; vi) o programa não ter sido desenhado em função de uma cultura para a aprendizagem, mas em função da cultura administrativa, da eficiência burocrática da instituição; vii) inadequação do programa ao
contexto institucional. Para além destas contingências limitarem o conhecimento e, consequentemente, influenciar o desenho dos programas de apoio, é preciso ter a percepção da dificuldade da sua implementação e, mais ainda, da sua continuidade (Tinto, 2006-7) ao longo do tempo.
A falta de dados empíricos demonstrativos do êxito de programas que atenuem o abandono dos estudos superiores (Costa & Lopes, 2008) constitui, por certo, uma limitação da sua aplicabilidade e da compreensão do fenómeno. Esta dificuldade reside no facto de ainda não haver investigação suficiente que documente os elementos comuns do sucesso da implementação de programas de apoio aos estudantes com dificuldades de integração, de preparação académica e de insucesso académico ou em risco de abandono académico. Não obstante esta lacuna e à semelhança dos estudos já referidos, sobre a influência positiva nas intenções empreendedoras dos estudantes quando sujeitos a programas de empreendedorismo, um estudo de Jamelske (2009) verificou que os estudantes do 1º ano quando expostos a programas de qualidade e desde que sejam cumpridos os objectivos, produzem efeitos positivos, quer na performance académica, quer na retenção.
Os resultados existentes decorrentes da implementação de programas para ajudar a apoiar e a integrar os estudantes do 1º ano da Universidade, não são consistentes. Esta evidência associada ao facto de nem sempre ser fácil determinar os efeitos decorrentes dos programas de apoio aos estudantes, não destrói as potencialidades deste tipo de programas no combate ao abandono académico apesar de não permitir, nem a generalização dos seus resultados, nem a implementação de igual tipo de programas em diferentes instituições.
Contudo, deve reconhecer-se que uma das questões é conhecer o problema e os instrumentos
adequados para a sua atenuação outra é promover, de forma continuada, acções conducentes à resolução do problema da integração e da persistência que possam conduzir à graduação dos estudantes, beneficiando deste modo os estudantes e as instituições (Lassibille & Goméz, 2008) e, consequentemente, a sociedade.
Muitas vezes os efeitos do abandono académico são tidos como um problema que não diz respeito à Universidade e aos seus professores, atribuindo-se, muitas vezes, as culpas para os ciclos de estudos anteriores, explicação demasiado simplista (Alarcão, 2000) para a complexidade e dimensão do problema. Tal facto pode decorrer da interpretação dos resultados de determinados estudos, por exemplo os que sugerem que os conhecimentos prévios e a performance no ensino secundário influenciam a performance no ensino superior. Numa perspectiva de conforto fatalista, como refere Romainville (2000), a interpretação destes estudos pode desresponsabilizar os professores dos insucessos dos estudantes e de outros factores associadas à falta de motivação para dar resposta às exigências do ensino
superior, já que nesta lógica todos as dificuldades eram reportadas aos níveis de escolaridade anteriores. Na verdade, a falta de competências ou de motivação dos estudantes é tida por algumas instituições como uma questão que se pode resolver na admissão (Tinto, 2006-7) ou na criação de mecanismos que assegurem que apenas os estudantes mais capacitados sejam admitidos na Universidade, como sugerem Di Pietro (2006) e Di Pietro & Cutillo (2008), possivelmente sugestionados pela ideia que as instituições mais selectivas são as que melhor garantia dão aos estudantes para estes finalizarem um curso (Astin & Oseguera, 2005).
A perspectiva dos autores anteriores parece, por um lado, muito redutora, já que a sociedade actual se quer democrática, mobilizadora de oportunidades para todos e inclusiva na sua diversidade social, cultural, de género e de raça, realidade irreversível em termos de uma sociedade moderna. Por outro lado, existem muitos factores que influenciam o abandono académico a que não escapam as instituições mais selectivas ou elitistas como se verifica nos estudos de Hermanowicz (2006-2007, 2003) onde mesmo os estudantes academicamente bem preparados abandonam os estudos (Herzog, 2005) por razões associadas à quebra de expectativas ou por serem mais críticos, exigentes e auto-confiantes nas suas capacidades académicas.
Barefoot (2003) é crítica em relação à falta de percepção da dimensão e implicações decorrentes do abandono académico por parte dos professores, aos seus diferentes níveis institucionais e sociais. Segundo a autora, muitos professores nos EUA têm a percepção que o problema da retenção é mais “uma areia na engrenagem” dos padrões académicos, criando nos professores um sentimento de pressão por parte dos estudantes, independentemente dos seus registos académicos. Todavia, os professores parecem não ser isentos de culpas, pelo que Alarcão (2000) apela para que estes reflictam sobre o seu ensino. Esta perspectiva é
corroborada por outros autores estudados157 que consideram ser necessário apelar a uma
mudança nas práticas pedagógicas. Ao reforçar as ideias de Barefoot (2003) estes autores valorizam a interacção pessoal dos estudantes com os professores, pois quando é fácil abordá- los, os estudantes ficam mais motivados para se envolverem nas actividades do curso (Suhre
et al., 2007).
A crítica mais velada a este tipo de programas será, possivelmente, a dificuldade de ir ao encontro das necessidades de todos os estudantes, parecendo que o essencial será fazer uma boa articulação entre os factores institucionais, pessoais e externos. Assim, as instituições têm de lidar com os estudantes que têm, adequando os processos de ensino e aprendizagem às necessidades e dificuldades ao longo do processo de formação dos
estudantes. Porém, para concretizar o tipo de intervenções referidas, é necessário que as instituições tenham em primeiro lugar esta cultura, pois as taxas de retenção só mudam quando a instituição muda, não quando disponibiliza mais um programa de apoio aos estudantes (Bean, 2005). Outro aspecto importante a realçar relaciona-se com a disponibilidade de recursos financeiros e meios humanos competentes. Os recursos financeiros podem, na conjuntura actual, ser um entrave de peso que limita fortemente as capacidades de intervenção das Universidades, criando desigualdades de oportunidades entre os estudantes e as próprias instituições. Todavia, a cultura da instituição associada às condições estruturais da organização podem promover a integração dos estudantes, através de interacção sistemática dos seus membros com os estudantes, de modo a alterar o processo de decisão dos estudantes (Hermanowicz, 2003). Esta interacção sistemática pode contribuir para diminuir o confronto dos técnicos dos gabinetes de apoio com o abandono já consumado, com a agravante de não se ficar a conhecer as causas porque o estudante já tomou a decisão de abandonar os estudos superiores.
A implementação dos programas acima referidos implica algumas dificuldades, embora o que se afigura mais complexo seja identificar precocemente os estudantes em risco de abandono académico, devido aos constrangimentos destes assumirem as suas dificuldades ou explicitarem de forma clara os seus problemas. Para além dos aspectos acima referidos deve dar-se uma atenção particular aos estudantes da primeira geração que frequentam os estudos superiores (Ishitani, 2006, 2003), já que estes estão mais desprovidos de suporte, encorajamento e conhecimento por parte da família. Assim sendo, as instituições têm de partir do pressuposto que todos os estudantes são potencialmente passíveis de abandonar os estudos superiores, pois o processo de abandono é silencioso e rápido (Hermanowicz, 2003), mantendo ao longo do percurso académico uma interacção continuada com vista ao envolvimento dos estudantes com a instituição e com as actividades académicas. Esta interacção produz efeitos positivos não só na integração social do estudante, mas também na motivação e, consequentemente, no empenhamento dos estudos aumentando a vontade para continuar os estudos.
A Declaração de Bolonha é tida para alguns como uma hipótese que pode reduzir as taxas de abandono académico a nível da União Europeia. Di Pietro & Cutillo (2008) parecem sugerir que a maior disponibilidade de recursos colocados à disposição dos professores e dos estudantes facilita o apoio às dificuldades académicas destes, produzindo alterações comportamentais favoráveis à redução do abandono académico. O abandono académico pode ocorrer em qualquer momento do processo de formação, contudo a redução do número de anos para obter uma licenciatura poderá ter um efeito dissuasor no abandono levando os
estudantes a ponderar as suas decisões. Efectivamente, este aspecto conjugado com a diminuição dos tempos presenciais obrigatórios dos estudantes na Universidade facilita o percurso académico e a conjugação dos estudos com o trabalho.
Como efeito contrário, a redução presencial dos estudantes na Universidade atenua substancialmente a interacção com os pares e com os professores, resumindo ao mínimo as possibilidades de envolvimento dos estudantes o que, como se sabe, é um factor determinante na integração social e académica e na continuação dos estudos superiores. Todavia, facilita a conciliação dos estudos com a actividade profissional, aumenta a população escolar e pode diminuir o abandono académico devido a dificuldades financeiras.
As alterações da frequência do ensino superior introduzidas pela Declaração de Bolonha podem produzir alterações, quer nos factores que determinam o abandono académico, quer nas suas inter-relações havendo a necessidade de estudar, a curto prazo, novos modelos explicativos do abandono académico adaptados a esta realidade nova. Outro aspecto que parece importante ressalvar é a leitura dos dados oficiais que venham a ser produzidos nesta matéria, sendo que a leitura menos atenta pode enviesar as razões do abandono académico e aligeirar os serviços e os programas de apoio e integração social e académica dos estudantes, produzindo nos anos seguintes efeitos devastadores.