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DA ACADEMIA DAS ESQUINAS À ACADEMIA DOS SIMPLES: (IN)FORMALIDADE E VIDA NOTURNA

11 GONTIJO, Rebeca História, cultura, política e sociabilidade intelectual In: BICALHO, Maria

1.3. OS CÍRCULOS INTELECTUAIS CAMPINENSES: ENTRE AGRUPAMENTOS FORMAIS E INFORMAIS

1.3.4. DA ACADEMIA DAS ESQUINAS À ACADEMIA DOS SIMPLES: (IN)FORMALIDADE E VIDA NOTURNA

“Uma fotografia Histórica da Literatura Campinense”, é o título da reportagem publicada na Revista Manaíra, de Campina Grande, em junho de 1951, escrita pelo

198 VELLOSO, Mônica Pimenta. Os intelectuais e a política cultural do Estado Novo. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia. O Brasil republicano: o tempo do nacional estatismo, do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo. Volume 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p.148.

86 poeta e jornalista Egídio de Oliveira Lima200

. Devido a esta matéria conseguimos obter informações relevantes sobre alguns capítulos da história intelectual de Campina Grande na primeira metade do século XX, em especial sobre a “Academia das Esquinas” e a “Academia dos Simples”, dois atuantes círculos intelectuais campinenses entre as décadas de 1930 e 1940 que possuíram trajetórias entrelaçadas pelos mesmos personagens e lugares.

A Academia das Esquinas iniciou sua trajetória no ano de 1937, na Rua Santo Antonio, nº 37, através de Egídio de Oliveira Lima e Antonio Mangabeira, na época ambos com 31 e 32 anos respectivamente e envolvidos em atividades literárias e comerciais na cidade de Campina Grande. Residentes próximos à Ponte de Santo Antônio, companheiros de “ida e volta” ao trabalho, os dois idealizaram nestas caminhadas diárias a fundação de uma academia de letras em Campina Grande. Apesar de estarem envolvidos com o comércio e a indústria da cidade, exercendo funções de vendedores e/ou contabilistas, eles possuíam certas aptidões literárias, em especial com a poesia. Desta forma, com a proposta, ambos acabaram convidando outros jovens com os mesmos interesses, a exemplo de Inácio Rocha e Lira Flores, que deram início ao círculo informal, como poderemos perceber.201

Segundo Egídio de Oliveira Lima, na Academia das Esquinas (assim como demonstra o próprio nome do círculo), a informalidade foi um traço bastante forte, visto que os encontros entre os intelectuais que faziam parte do grupo ocorriam quase sempre ao ar livre, à noite, nas esquinas das principais ruas do centro de Campina Grande, a exemplo do Café Irapurú, do Correio Velho e da Confeitaria Petrópolis (principalmente no primeiro estabelecimento, pertencente ao comerciante Manoel Dias de Lima). 202

Assim como outros centros do país e do mundo, os cafés funcionavam como microssociedades, espaços para relações de sociabilidades entre as elites campinenses; alguns, devido a circunstâncias específicas, tornaram-se espaços privilegiados dos intelectuais, erigindo-se em centros de circulação de ideias, de preocupações sociais, culturais, artísticas e políticas da época, como foi nos cafés Irapurú e Petrópolis, que em determinados períodos, sobremaneira nas décadas de 1930 e 1940.

200 Egidio de Oliveira Lima (1904-1965) – Jornalista, Cordelista e Funcionário Público. Foi editor das revistas Manaíra e Aríus, em Campina Grande, nos anos 1940 e 1950. Colaborou em diversos órgãos de imprensa e associações literárias. È autor do livro: Folhetos de Cordel (Editora da UFPB, 1978) e de vários cordéis.

201 LIMA, Egidio de Oliveira. Uma fotografia Histórica da Literatura Campinense. Revista Manaíra, Campina Grande, Ano XII, nº 66, Junho de 1951, p.16.

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Os cafés, na verdade, funcionavam como espaço de afetividade, onde os amigos confraternizavam, trabalhavam e trocavam ideias sobre o cotidiano e a cidade. Ao investigar a funcionalidade e o papel dos cafés no Rio de Janeiro, no início do século XX, Mônica Pimenta Velloso afirma que “os cafés se apresentam como o local onde os intelectuais conseguem exercer a criatividade, dando vazão à sua sensibilidade artística, tão sacrificada no horário de trabalho”. 203

A informalidade, portanto, foi um traço característico da Academia das Esquinas. Ao observamos a afirmação de Egídio de Oliveira Lima, este aspecto da naturalidade e da informalidade fica ainda mais claro: “Teria de ser uma sociedade nômade, sem sede nem estatutos, porém com um limitado número de sócios. Uma espécie de rede de comunicação literária e nada mais” 204

. Ou seja, por estas características é possível percebermos o grau de naturalidade da Academia das Esquinas, cuja amizade e necessidade do debate intelectual eram os centros aglutinadores. Porém, ao mesmo tempo, seus membros eram restritos, no que se refere à quantidade e implicitamente ao grau de afetividade entre os participantes do círculo intelectual.

Apesar da informalidade, está presente em diversos aspectos do círculo intelectual, além da ideia de sócio (que quebra um pouco com a forma não-associativa do círculo intelectual), chama atenção o fato de que a Academia das Esquinas, dias depois de sua criação, já revelaria uma liderança, visto que Egídio de Oliveira Lima e Antonio Mangabeira entregaram ao poeta Murilo Buarque a presidência do grupo. O ato, de acordo com a reportagem, “foi presenciado pelo cantor popular Lira Flores que passou a ser, também, um dos associados daquela entidade” 205

. Portanto, mesmo com evidências que a colocam como um círculo intelectual informal, algumas de suas práticas demarcam experiências ligadas ao modo formal de organização.

Conhecido como o “burilador de caveiras”, Murilo Buarque nasceu na cidade de Palmares, interior de Pernambuco, em 21 de agosto de 1903. Veio a residir em Campina Grande, cidade conhecida pelos “bons ares” da serra, em 1924, a conselho médico, pois possuía problemas respiratórios graves. Poeta conhecido na maioria dos círculos intelectuais campinenses da época, não é de estranhar que sua liderança tenha sido colocada como justificativa para organizar as sessões da Academia dos Simples, graças

203 VELLOSO, Mônica Pimenta. Op. Cit. 1996, p.47. 204

LIMA, Egidio de Oliveira, Op. Cit. Junho de 1951, p.16. 205 Idem.

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à sua importância para os agentes do campo literário local. Entre as décadas de 1930 e 1950, seu nome era recorrentemente citado nos círculos intelectuais e na imprensa paraibana. Autor de uma pequena plaquete de poemas, filosofia de Judas, lançado pela Livraria Campinense em 1940, este foi telegrafista em Campina Grande e João Pessoa. Em matéria publicada no mesmo número da Revista Manaíra, assinada por Egídio de Oliveira Lima, é possível visualizarmos a empolgação do jornalista ao descrever a importância do “burilador de caveiras”:

Murilo Buarque da Mata nome estimado e grande, é um exímio sonetista, perfeito improvisador de trovas, orador espontâneo, bom cronista e ótimo jornalista. Conhecido em toda a América Latina pela manifestação de seus sentimentos poéticos. Murilo Buarque, tem tido em revistas de países vizinhos, a versão de seus belíssimos poemas. 206

Demonstrando o lado fragmentado e momentâneo dos círculos intelectuais campinenses neste início do século XX, a Academia das Esquinas deixa de existir nos anos finais da década de 1930 para, em seu lugar, ser criado, segundo Egídio de Oliveira Lima, a Academia dos Simples no ano de 1940 com a mesma base dos frequentadores do primeiro círculo intelectual.

Fundada no Café Azul, de propriedade de Lau do Ó, localizada na Rua Cardoso Vieira, centro de Campina Grande, no ano de 1940, a “Academia dos Simples” tem entre suas características a formalidade, passado pelo fato do grupo ser constituído com estatutos e membros filiados ao círculo intelectual. De acordo com Egídio de Oliveira Lima, estiveram presentes na criação da Academia dos Simples, os intelectuais “Epitácio Soares, Anésio Leão, Mauro Luna e outras pessoas que bem poderiam dar à reunião um cunho mais duradouro e feliz” 207

. Ainda segundo a reportagem a primeira ata da Academia dos Simples foi elaborada por: Félix de Sousa Araújo, Epitácio Soares, Antonio Mangabeira, Egídio de Oliveira Lima, Inácio Menezes Rocha e José de Nóbrega Simões, na residência deste, no bairro de Bodocongó, em Campina Grande, numa segunda reunião.

Todavia, um fato paradigmático ocorreu logo após a primeira reunião no Café Azul. Seguimos a narração de Egídio Lima: “Quando esse pessoal debandou, os sócios Mangabeira, Epitácio, Inácio e Egídio dirigiram-se ao Foto de Euclides Vilar onde

206 LIMA, Egidio de Oliveira. Murilo Buarque, o Pincelador de “caveiras. Revista Manaíra, Campina Grande, s/n, Junho de 1950, p.5.

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tiraram uma fotografia em conjunto para significar a eternização da primeira fotografia histórica da literatura campinense” 208

ILUSTRAÇÃO 4:

Grupo de intelectuais campinenses fundadores da Academia dos Simples em 1940. Antonio Mangabeira, Epitácio Soares, Inácio Rocha e Egídio de Lima.

Fonte: Revista Manaíra, Campina Grande, Ano XII, nº 66, Junho de 1951, p.16.

A fotografia acabou sendo utilizada como ilustração para a reportagem intitulada “Uma fotografia Histórica da Literatura Campinense”, da autoria de Egídio de Oliveira Lima e significou, de acordo com o jornalista, uma imagem-símbolo da história da literatura de Campina Grande.

A fotografia, como vemos, traz quatro homens. São eles: Antonio Mangabeira, Epitácio Soares, Inácio Rocha e Egídio Lima de Oliveira. Dois deles sentados em cadeiras, num primeiro plano, vestidos de branco (Inácio Rocha e Egídio Lima) e outros dois, em pé, em segundo plano, olhando fixamente para a câmara, vestidos de preto (Antonio Mangabeira e Epitácio Soares). Os quatro têm em suas mãos materiais

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impressos, como jornais e revistas e chama ainda atenção a elegância dos personagens na cena.

Captada no estúdio pertencente ao fotógrafo Euclides Vilar, a imagem pode ser considerada como um “emblema da produção literária campinense”, trazendo, no seu âmago, os anseios e os desejos de jovens escritores na necessidade de se firmarem enquanto intelectuais na cidade de Campina Grande, nas décadas de 1940 e 1950. Segundo a nossa leitura, a fotografia representa também a “imagem” que os intelectuais campinenses gostariam de passar para a posteridade, da seriedade, da elegância, do hábito da leitura constante, bem como de informar que o seu gesto naquele momento representaria um acontecimento importante não só para os envolvidos, mas para todo o município de Campina Grande.

O uso do recurso moderno, como a fotografia, traduziria também os anseios de modernidade, bem como traduziriam a sofisticação daquele momento. Posada, os elementos como a elegância das vestimentas, o hábito da leitura “cristalizado”, enfatizam as intencionalidades dos quatros homens diante do quadro intelectual do período no município.

Outro aspecto que devemos observar é que o texto publicado na Revista Manaíra parece atestar a curta vida que teria a Academia dos Simples, pois Egidio Lima afirma categoricamente que muitas das reuniões ocorriam de “maneiras rápidas e pouco felizes”. E mais, a leitura que fazemos da fotografia afirma o caráter breve e isolado destas seções, que em muitas vezes os círculos intelectuais campinenses se caracterizaram, visto que apenas quatro dos membros da Academia dos Simples estiveram presentes na captação da fotografia. Por que motivo os outros fundadores não participaram do ritual?

O uso da imagem fotográfica, neste sentido, significou não apenas para estes quatro intelectuais a necessidade da registrar o momento como um acontecimento paradigmático, único, referencial, como pretendeu passar também o título da reportagem, mais exemplifica o caráter breve e fragmentado destas realizações literárias.

Outro dado retratado na trajetória da Academia dos Simples foi uma denúncia que a entidade sofreu no início da década de 1940. Segundo Aílton Elisário, em relato publicado na internet, utilizando-se de uma referência do cronista Severino Machado,

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Vigorava no país a ditadura getulista e por uma denúncia infundada chegou à cidade um escalão da polícia de censura, com a missão de investigar as origens e a finalidade da academia que pelo nome cheirava a povo, a massa. Pedro d‟Aragão, comerciante, homem íntegro, maçom, fez a defesa dos acadêmicos “suspeitos”, alegando que eram simples jovens, inteligentes e pacíficos, ao que retrucando, a autoridade policial disse que eles estavam sendo investigados “justamente porque são pessoas simples, mas cabeças pensantes, inteligentes”. Não deu em nada a investigação. 209

Até os dias de hoje não se soube quem foi o delator. Pouco tempo depois a Academia dos Simples deixou de funcionar. Brevidade esta que podemos evidenciar com outros pequenos relatos, como o do autor de Datas Campinenses, Epaminondas Câmara, que segundo em suas notas, em 1941 teria surgido a Academia dos Simples sendo “organizada por diversos intelectuais conterrâneos e presidida pelo poeta Murilo Buarque” 210

, que realizou durante dois anos diversas sessões literárias. Portanto, segundo as poucas fontes que conseguimos sistematizar, a instituição teria deixado de funcionar em 1943. Para Egídio Lima, tal ato só foi possível graças às desavenças entre os membros deste círculo intelectual.

1.3.5. CLUBE LITERÁRIO DE CAMPINA GRANDE: LEGITIMAÇÕES E