2.2 LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL
2.2.1 Accountability
A Accountability10, com o apoio da contabilidade, auxilia o gestor no processo de prestação de contas e reduz a assimetria informacional entre o gestor público e os cidadãos. Portanto, é função do gestor público prestar informações daquilo que se administra. Fernandes (2012, p. 23) comenta que o termo Accountability não possui uma tradução exata para o português do Brasil, mas o termo remete à prestação de contas por parte de quem administra alguma coisa, seja em órgão público ou privado. Logo, um indivíduo que ocupa a função de gestor deve prestar contas das ações sob sua responsabilidade.
O tema Accountability vem sendo muito discutido na administração pública, e os dois aspectos complementares são: a disponibilidade das informações e o controle social. Dessa forma, tem-se o aumento da transparência das informações e ações do estado gerando uma necessidade de avaliar a eficácia, eficiência e efetividade das estruturas governamentais (LUCENA, 2011).
Bovens (2007 apud FERNANDES, 2012, p. 112) comenta que o termo Accountability, na contabilidade, é originalmente um fenômeno anglo-americano, tendo em vista que em outras línguas – como o francês, o português, o espanhol, o alemão, o holandês ou o japonês – não tem um equivalente exato e não distinguem semanticamente entre responsability (responsabilidade) e accountability (responsabilização). Portanto, é possível observar que o termo Accountability (responsabilização) traz a responsabilização pessoal pelos atos praticados.
Para Matias-Pereira (2012, p. 78), o termo Accountability pode ser entendido como o conjunto de mecanismos e procedimentos que levam os gestores públicos a prestarem contas dos resultados de suas ações, garantindo-se maior transparência e exposição das políticas públicas. Um governo é mais accountable11 quanto maior a possibilidade de os cidadãos poderem discernir se os seus governantes estão agindo em função do interesse da coletividade e sancioná-los apropriadamente.
Outra questão é que a divulgação das informações contábeis permite que se procure identificar padrões adotados pelos gestores, bem como a mensuração, acompanhamento de
10 O termo Accountability remete à qualidade dos serviços prestados, ou seja, à eficiência. 11
O termo accountable faz parte do universo político-administrativo anglo-saxão, de origem anglo-normanda (FERNANDES, 2012, p. 111).
atividades desenvolvidas, tendências futuras e auxílio à tomada de decisão. Portanto, a contabilidade é um dos principais instrumentos de prestação de contas.
A Accountability está fortemente ligada à postura ética e moral dos gestores, seja na esfera pública ou privada, como comenta Fernandes (2012, p. 113):
[...] é um conceito estritamente ligado à ética, à moral, à responsabilidade social e à prestação de contas. Quem desempenha funções relevantes em uma instituição deve explicar os procedimentos adotados e as decisões tomadas, prestar contas daquilo que se administra evidenciando suas ações, o que foi realizado e as falhas que, por ventura, tenham-se cometido. Seja qual for o ramo de atividade que a empresa desenvolve, é obrigação do gestor prestar contas da sua gestão. Isso serve tanto para a gestão de órgãos públicos quanto privados(FERNANDES, 2012, p. 113).
Dessa maneira, a Accountability, com seus atributos de clareza, tempestividade e transparência, aproxima o principal do agente por meio de uma prestação de contas eficiente. Quando há a ausência da Accountability ou, até mesmo, a sua ineficiência, verifica-se a assimetria informacional gerada (FERNANDES, 2012, p. 117). Segundo Fernandes (2012, p. 109), Accountability, em seu conceito contemporâneo “[...] abrange conceitualmente várias apreciações distintas, como transparência, equidade, democracia, eficiência, receptividade, responsabilidade e integridade.”
Bovens (2007 apud FERNANDES, 2012, p. 112) acrescenta que:
[...] desde o final do século XX, o mundo anglo-saxônico testemunhou uma transformação da função da contabilidade tradicional na administração pública, de forma muito mais ampla de Accountability pública. Esta mudança de contabilidade Financeira para Accountability pública decorreu paralelamente à introdução da Nova Gestão pública do Governo Thatcher, no Reino Unido, e à reforma Reinventing Government iniciadas pelo governo Clinton na administração dos Estados Unidos.
Quanto ao dever de prestar contas, Quintana et al. (2011, p. 177) ressalta que se apresenta fortemente acentuado na gestão contábil, financeira e patrimonial, conforme os artigos 70 a 75 da Constituição Federal (CF) de 1988. O parágrafo único do artigo 70 da CF define: “Prestará contas qualquer pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que utilize, arrecade, guarde, gerencie ou administre dinheiros, bens e valores públicos ou pelos quais a União responda, ou que, em nome desta, assuma obrigações de natureza pecuniária.”
A partir da aprovação do Plano Diretor da Reforma do Estado ocorrida na década de 1990, em 1995 foram feitos vários esforços para oferecer à sociedade um conjunto de informações dos mais diversos teores, tais como: orçamentários, financeiros, de pessoal, previdenciário, compras, entre outros (MATIAS-PEREIRA, 2010a). Portanto, vários
dispositivos legais foram introduzidos com o intuito de possibilitar maior eficiência, transparência e controle dos gastos públicos, por conseguinte, um aperfeiçoamento dos mecanismos de Accountability.
Nesse cenário de estruturação de mecanismos de controle e informações gerenciais, destacam-se os seguintes sistemas, conforme Matias-Pereira (2010a, p. 181):
[...] Sistema Integrado de Administração Financeira (SIAFI) que registra os gastos efetuados pelo Tesouro Nacional; Sistema Integrado de Dados Orçamentários (SIDOR); a folha de pagamentos e dados cadastrais dos servidores civis federais (SIAPE); Sistema de Gerenciamento da Receita e Despesa da Previdência Social; o planejamento de ações do governo; a movimentação do cadastro de fornecedores, de preços e do catálogo de materiais e serviços; e, o fornecimento de informações sobre a organização governamental e suas macroatribuições.
A Lei de Orçamento (Lei nº 4.320/1964) é a responsável por disciplinar a estrutura do controle da execução orçamentária, estatui Normas Gerais de Direito para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos estados, dos municípios e do Distrito Federal (BRASIL, 1964). Para Quintana et al. (2011, p. 144), o controle das contas públicas vai além da simples verificação de obediência às normas vigentes, pois inclui ainda o aspecto relacionado à eficiência, eficácia e economicidade dos atos públicos.