2.3 Princípios básicos da boa governança
2.3.3 Accountability
O IBGC (2004, 10) traduz accountability como uma obrigação em que “os agentes da governança corporativa devem prestar contas de sua atuação a quem os elegeu e respondem integralmente por todos os atos que praticarem no exercício de seus mandatos”.
Para a Fundação Amics de la Universitat Politecnica de Catalunya - Espanha (2002, p. 24) a accountability do governo e da administração pública se define como “o instrumento que ajuda a melhorar as decisões políticas e financeiras do governo, tornando mais transparentes os benefícios que produz com os recursos públicos que administra”. Essa mesma instituição, afirma que as bases da accountability estão desenvolvidas nos três seguintes princípios básicos (Ibid, p. 14):
• A condução ética e sua tradução em um compartimento regulado por determinados códigos;
• Alguns sistemas de informações que forneçam dados entendíveis, acessíveis e transparentes, que permitam aos cidadãos identificar os benefícios sociais que produz a atuação política;
• Como condição básica, a vontade política de levar adiante o desenvolvimento desses princípios, que permitam liderar uma transformação na gestão pública e na elaboração das políticas públicas para favorecer as inovações.
Accountability dentro do contexto Agente-Principal significa que os gestores (agentes) precisam demonstrar que exercitaram corretamente os poderes que lhes foram conferidos, alcançando as metas e objetivos conforme o acordado e usando efetivamente e eficazmente os recursos arrecadados (VAKABUA, 2007).
Icerman e Sinason (1996) alertam que apesar do aceite popular e da importância da accountability governamental, ainda permanece uma discrepância entre o que os governos estão dispostos (capazes) de prover em termos de informação e o que de informação o público espera. Esses mesmos autores (1996, p. 67), citando o GASB - Governmental Accounting Standards Board, apresentam a seguinte definição para accountability:
... accountability exige que os governos respondam aos cidadãos - para justificar o aumento dos recursos públicos e os propósitos para os quais eles são usados. Accountability governamental está baseado na convicção de que os cidadãos têm um ‘direito em saber', um direito para receber fatos abertamente declarados que pode conduzir a um debate público entre os cidadãos e os representantes eleitos por eles. [GASB, Concepts Statement Nº1, Objectives of Financial Reporting, 1987, p. 56].
A importância do conceito de accountability relacionado aos recursos governamentais se deve ao desejo da sociedade em saber se (GAO, 2005, p. 31):
1. os recursos públicos são administrados adequadamente e utilizados segundo as leis e regulamentos oficiais;
2. os programas de governo estão alcançando seus objetivos e resultados previstos; 3. os programas de governo estão sendo administrados de forma eficiente,
econômica e efetiva.
Foi sugerido por J. D. Stewart (Apud FASAB, 2003) a existência de 5 graus de accountability para o setor público:
1. Accountability de probidade e legalidade – é o uso dos recursos em conformidade com o orçamento aprovado ou em obediência às leis (aderência); 2. Accountabiliy de processo – é o uso adequado dos processos, dos procedimentos
ou das medidas nas ações demandadas (planejamento, alocação e gerenciamento);
3. Accountability de desempenho – é a operação eficiente (eficiência e economia); 4. Accountability de programas – é o estabelecimento e a realização de metas
(resultados);
5. Accountability de políticas – é a aprovação ou rejeição de políticas (valor).
Seguindo interpretação dada por Pederiva (2004), entende-se que os graus de accountability estão assim relacionados: grau 1 – com a aderência às normas legais das ações empreendidas pelo gestor público; grau 2 - à eficácia dos processos de planejamento, alocação e gerenciamento; grau 3 - à eficiência das operações; grau 4 – à efetividade dos programas governamentais; e grau 5 – à aprovação ou rejeição das políticas de governo.
Esses graus de accountability devem ser vistos como uma escada hierárquica, em que o grau mais elementar deve dar suporte ao subseqüente. Os aspectos de aderência (grau 1) são fundamentais para o exame das demais modalidades de accountability (PEDERIVA, 2004). É justamente mediante a análise do atendimento desse grau básico de accountability que o estudo procurou verificar a aderência dos sites dos Poderes/Órgãos às exigências de
fornecimento de informações eletrônicas, estabelecidas no art. 48 da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Anthony e Govindarajan (2002) entendem que, em uma análise do desempenho de um centro de responsabilidade, a eficiência deve ser medida pela quantidade de saídas por unidade de entrada, enquanto que a eficácia avalia a relação dessas saídas com os objetivos alcançados. Dentro dessa visão, podem-se conceituar eficiência e eficácia para o setor público, conforme apresentado por Giacomoni (2005, p. 309-310):
EFICIÊNCIA – o teste da eficiência na avaliação das ações governamentais busca considerar os resultados obtidos em fase dos recursos disponíveis;
EFICÁCIA – a avaliação da eficácia procura considerar o grau em que os objetivos e as finalidades do governo (e de suas unidades) são alcançados. Trata-se, então, de medir o progresso alcançado dentro da programação de realizações governamentais.
Na análise da efetividade, Machado (2002, p. 74) explica que “a distinção entre efetividade e eficácia é feita separando-se a avaliação do grau de realização das metas de produtos previstos, em um dado programa, da avaliação dos resultados efetivamente alcançados com esse mesmo programa”.
O grau de accountability mais elevado (grau 5) pode ser entendido como a efetividade das estratégias formuladas pelos níveis mais elevados de governo, conforme abordado por Giacomoni (2005, p. 310-311), a qual “deve reportar-se, principalmente, aos valores políticos prevalecentes na sociedade (decisões que visam ao desenvolvimento econômico-social)”.
Accountability, portanto, é a responsabilidade de todo gestor público na prestação de contas à sociedade. Não se trata apenas de um mecanismo formal, alicerçado em demonstrativos puramente técnicos, longe da realidade da grande população. Deve ser encarado como o mecanismo que permita ao cidadão visualizar em todos os graus as responsabilidades individuais dos gestores públicos, eleitos pela maioria da sociedade, e poder, assim, julgar e cobrar pelos atos praticados por esses administradores governamentais.