CAPÍTULO III - A METAENUNCIAÇÃO COMO FORMA DE
3.2 O METADISCURSO
3.2.1 Acepções e classificações do metadiscurso
De acordo com o exposto, Maingueneau (1997, p.94) faz uma síntese da noção geral de metadiscurso, considerando que este não é ―apenas um conjunto de acréscimos contingentes destinados a retificar a trajetória da enunciação, colocá-la em conformidade com as intenções do locutor, mas a ―derrapagem‖ verbal que produz sentido‖. Ainda, segundo
Maingueneau, o metadiscurso pode ser analisado à luz da Pragmática16, bem como pela
Análise do discurso, sendo que,
de um ponto de vista ingênuo, o metadiscurso é apenas um conjunto de acréscimos contingentes destinados a retificar a trajetória da enunciação, colocá-la em conformidade com as intenções do locutor. A AD17, em geral, lida com textos cuja produção é relativamente bem controlada, de forma que, com freqüência, o metadiscurso mostra-se como tal, a derrapagem verbal produz sentido. Longe de ser um procedimento para corrigir falhas na comunicação, ele constitui um sintoma e deve ser apreendido através deste estatuto (MAINGUENEAU, 1987, p.94 apud POSSENTI, 2000, p.99).
Mesmo visto sob diferentes pontos de vista, por diferentes teóricos da linguagem, é possível observar que o metadiscurso é uma manifestação de heterogeneidade mostrada no discurso, explícita. No entanto sua forma não é marcada, representada por formas fixas ou
se adote, neste trabalho, a perspectiva das autoras alemãs, as características do metadiscurso estão relacionadas ao contexto de qualificação discursiva proposto por elas.
16 Pragmática é a ciência do uso linguístico e ―estuda as condições que governam a utilização da linguagem, a prática lingüística‖ (FIORIN, 2004, p.161). Um dos domínios da Linguística que exige uma compreensão da pragmática é a enunciação, a qual, que segundo o autor, consiste no ―ato de produzir enunciados, que são realizações lingüísticas concretas‖.
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cristalizadas. Alguns autores propõem diferentes formas de classificar o metadiscurso, em especial por suas funções no texto em relação à interação. Vejamos algumas delas.
Maingueneau (1997, p.93), retomando Borillo, destaca que ―é difícil definir o metadiscurso‖ no que se refere às diferentes formas de atividades metadiscursivas, apontando para a existência de duas definições: uma ―definição estreita‖, com sentido muito próximo à ―metalinguagem dos lógicos‖; outra, como uma ―definição ampla‖, que considera o metadiscurso diluído no próprio discurso, partindo do princípio de que o próprio ato de falar já é uma fala sobre a fala.
Por isso, de acordo com uma ordem funcional, o autor propõe uma classificação que dê conta das manifestações explícitas de metadiscursividade, com escopos claramente identificáveis no discurso. Mesmo admitindo que seja difícil apresentar uma
classificação18que abranja todas as ocorrências possíveis, uma vez que a função
metadiscursiva pode se realizar por meio de estruturas linguísticas muito variadas, o autor propõe alguns tipos de metadiscurso, com base nas funções mais comuns:
a) o metadiscurso para construir uma imagem de locutor, contemplando expressões
como ―para parecer formal‖, ―para falar como os eruditos‖, etc.;
b) marcar uma inadequação dos termos, em expressões como ―se é possível
afirmar‖, ―se é que se pode dizer assim‖, entre outras;
c) autocorrigir-se, como na expressão ―deveria ter dito‖;
d) confirmar, com formulações como ―é exatamente isto que estou dizendo‖;
e) solicitar permissão para empregar certos termos, como em ―se você me permite a
expressão‖;
f) fazer uma preterição, em ―eu ia dizer que‖;
g) corrigir antecipadamente um possível erro de interpretação, ―no sentido X da
palavra‖ (MAINGUENEAU, 1997, p.93-94).
Borillo (apud RISSO; JUBRAN, 1998, p.229), apresenta uma classificação pautada
em critérios mais gerais, segmentando o metadiscurso em três modalidades:
a) A que se reporta ao discurso, destacando aspectos do código em uso na construção
textual: expressões como ―isto é‖, ―Ou seja‖, ―vamos dizer‖, ―digamos‖, entre outras são frequentemente utilizadas pelo enunciador com a função de explicar a expressão utilizada,
18 Maingueneau (1997, p.93) afirma que a classificação proposta são ―algumas rubricas‖, visto que sua intenção é propor uma classificação operatória e de ordem funcional do fenômeno enunciativo, sem rigor nem exaustividade, visto que é muito grande a diversidade de estruturas linguísticas que contribuem para o metadiscurso.
demonstrando sua permanente preocupação com o monitoramento da construção do discurso, a fim de se fazer compreender e atingir os propósitos da comunicação.
b) A que se reporta ao discurso como evento argumentativo, focalizando
especialmente aspectos relativos à construção do tópico ou do texto enquanto macrotópico: nesta classificação expressões como ―retomando o que eu falava anteriormente‖, ―recapitulando‖, ―voltando ao tema principal‖, entre outras, apontam para elementos metadiscursivos de cunho argumentativo, manifestações muitas vezes utilizadas com a finalidade de manter a coerência e a coesão na progressão do texto.
c) A que se reporta ao discurso como evento enunciativo - interlocutivo, a fim de
esclarecer circunstâncias de sua condução e envolvendo procedimentos de negociação de sentidos: expressões como ―como assim?‖, ―o que você quis dizer com isso?‖ e outras semelhantes, as quais são utilizadas para negociar sentidos entre os interlocutores para a evolução da interação.
Finalizando as considerações sobre o metadiscurso, entende-se que ele é utilizado por meio de variados tipos de estratégias discursivas, que segundo Koch (2004, p.121), constituem-se em estratégias textual-interativas, que têm em comum o fato de tornarem visível ―um trabalho do locutor sobre a língua, sobre seus efeitos e suas circunstâncias pragmáticas‖. Ou seja, o metadiscurso, entre outras funções, faz com que os interlocutores envolvidos se voltem sobre ―o modo como aquilo que se diz é dito‖ (op.cit.), ou ainda, conforme abordado pela autora:
1. enquanto as estratégias metaformulativas têm como escopo o texto (e, portanto, o dito‖), as ―lógico‖-pragmáticas têm como objeto a relação intersubjetiva (o ―modus‖) e as metaenunciativas dobram-se mais sobre o ―dizer-enquanto-se-diz‖; 2. apenas as metaenunciativas são claramente autonímicas, isto é, nelas há maior explicitação da representação que o enunciador (sujeito da enunciação) faz de seu dizer;
3. o escopo das estratégias metaformulativas é nitidamente textual, o das ―lógico‖-pragmáticas são as atitudes, os juízos a respeito do mundo, a própria interação, ao passo que as metaenunciativas são tipicamente enunciativo-discursivas;
4. os três tipos de estratégias diferenciam-se pelo grau de reflexividade, que atinge o grau máximo nas metaenunciativas (KOCH, 2004, p.121).
Tal consideração da autora reforça a relação existente entre metadiscurso e metaenunciado, evidenciando que ambos possuem como característica a reflexividade, mas
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que nas operações metaenunciativas há uma maior explicitação da representação que o enunciador faz do seu dizer, conforme se aborda na seção a seguir.