2. ENTENDIMENTOS E CONCEÇÕES
2.2. Acerca do estágio: entendimentos, expectativas e realidade
Em Portugal, a PES encontra-se legalmente enquadrada no Decreto-Lei nº 79/2014 de 14 de maio e no Decreto-Lei nº 74/2006 de 24 de março que habilita profissionais para a docência na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário. Na FADEUP, o estágio surge no segundo ano do ciclo, dividido entre a prática pedagógica em contexto e o respetivo relatório (defesa).
Considero esta prática indispensável para quem quer iniciar a carreira como professor, uma vez que é neste espaço formativo que o conhecimento é efetivamente interiorizado (Gomes, 2018). Desta forma, somos confrontados com a realidade escolar e só assim podemos, verdadeiramente, aprender.
O estágio é um momento de extrema importância no percurso académico do estudante estagiário. Uma vez que já conhecia a instituição, pensei que a integração seria mais fácil. No entanto, deparei-me com determinados sentimentos, como por exemplo, a responsabilidade que iria assumir, o nervosismo proveniente de efetivamente dar aulas a uma turma que estaria sob minha responsabilidade e o entusiasmo por, finalmente, poder colocar em prática os conhecimentos obtidos
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até à data. Tudo isto com o intuito de conseguir um bom desempenho e atingir o sucesso, enquanto professora.
Como já referido, o meu primeiro contacto, com a escola cooperante, deu- se no ensino secundário. Lembro-me de ficar impressionada com os diversos espaços destinados ao desporto e lazer, mas também com toda a organização da instituição. No decorrer do ano, apercebi-me da heterogeneidade de alunos, professores e funcionários existentes. No entanto, entrar na escola como futura professora, e não como aluna, foi totalmente diferente. Sem dúvida que o momento por que mais ansiava era o de conhecer os meus botões de rosa (os meus alunos). Apercebi-me que esse primeiro contacto com as turmas seria essencial para definir a imagem que os alunos iriam reter. Infelizmente, a turma não era fácil, isto é, o seu comportamento exigia bastante atenção, dado que os alunos eram bastante distraídos e não mostravam grande interesse. O meu objetivo era ganhar a sua confiança, através de uma maior proximidade com eles.
Outro aspeto a abordar neste tema são as emoções. Também é importante referir que, muitas vezes, as emoções dos alunos definem as suas relações com o EE durante as aulas de EF, marcando as experiências mais e menos positivas dos estudantes, enquanto momentos reguladores do desenvolvimento (Gomes, 2018). Um professor pode, através das suas ações, da sua forma de lecionar e até mesmo da escolha de exercícios, desencadear diferentes reações emocionais nos seus alunos, positivas ou negativas. Reações que podem influenciar as atitudes e comportamentos dos mesmos. Cabe aos professores a gestão deste tipo de emoções nas aulas. Quando estas são de alegria, prazer, satisfação, realização e felicidade é fácil de lidar. O mais provável é que existam momentos de muita euforia, sendo que aí o professor deve chamar a atenção dos alunos. Contudo, por vezes, podemos gerar emoções negativas, como o aborrecimento, o medo, a tristeza e a vergonha. Devemos, sem dúvida, evitar gerar estas emoções nos nossos alunos, mas, infelizmente, nem sempre o conseguimos. É importante estudar formas de solucionar esta instabilidade, a fim de repor a tranquilidade e o bem-estar na aula. Para isso, acredito na importância, não apenas de reconhecermos as caraterísticas individuais dos alunos, mas também da valorização da motivação nas aulas de EF. Isto é, se um aluno se sentir sempre motivado para a prática, tendo em conta todas as suas particularidades, raras serão as vezes que este sentirá alguma emoção menos positiva.
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Um dos meus principais receios, para este ano de estágio, era a eventualidade de acontecerem conflitos de caráter negativo, com algum aluno. Um conflito não tem de ser necessariamente negativo. A forma como lidamos com o mesmo é que dita o seu fim. Na nossa sociedade, nem sempre as pessoas conseguem aceitar e/ou respeitar opiniões e/ou interpretações divergentes das suas, o que gera conflitos, muitas vezes com maus resultados. Por outro lado, o modo como atualmente muitos pais protegem os filhos, faz com que muitos deles apresentem comportamentos negativos em contexto escolar, sem que a própria família tenha conhecimento. Nós, professores, temos um papel fundamental na educação das nossas rosas (dos nossos alunos), e temos obrigatoriamente de estar a par de estratégias de resolução de conflitos, como por exemplo, ouvi-los e mostrar-lhes o que correu bem ou mal numa aula. Isto será benéfico para o seu desenvolvimento e, de certa forma, irá fortalecer a relação de confiança entre professor-aluno. Esta capacidade é, para mim, uma das mais importantes num docente, sendo certo que a adotarei durante o meu caminho como professora.
A construção da identidade está diretamente relacionada com estes processos emocionais que regulam o modo como o EE atribui significado às experiências vividas durante este último ano de mestrado (Alves, 2018). A identidade profissional pode influenciar a nossa motivação e o sentimento de compromisso, por isso, é fundamental que, durante o estágio e através da orientação quer do PC, quer do Professor Orientador (PO), o EE compreenda o tipo de professor em que se quer tornar.
Creio que a identidade profissional é algo que evolui com o decorrer do tempo e com a experiência vivida, dependendo igualmente de aspetos internos e externos. Internos, por depender das nossas caraterísticas individuais, e externos, devido à construção social dentro de equipas de trabalho, grupos de amigos e até mesmo da própria família.
Assim sendo, pode dizer-se que a construção da identidade está diretamente relacionada com o modo como integramos, de forma refletida, todas as experiências e vivências. Na minha perspetiva, devemos parar para pensar: quem sou eu de verdade? Qual a minha essência? Quais os meus sonhos? Quais as minhas qualidades e pontos a melhorar? Este é um tipo de reflexão que devemos fazer de vez em quando. É algo que nos ajudará a compreender o nosso propósito, os nossos valores e as nossas motivações. Nestes últimos dois anos, devido a alguns acontecimentos inesperados, fui “obrigada” a questionar-me sobre
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todos estes elementos, o que me ajudou a conhecer-me mais profundamente. Na verdade, conhecermo-nos interiormente é fundamental para que possamos assumir o controlo da nossa vida e fazer escolhas de acordo com a nossa real essência.
Quando nos conhecemos e sabemos as nossas limitações e capacidades estamos mais recetivos a aprender e a desenvolver as habilidades e competências necessárias à nossa profissão, por conseguinte, mais aptos para mudar. Como afirmam Brasford, Darling-Hammond e LePage (2005, citados por Rocha, 2015, p. 463), “(…) ter professores competentes significa ter pessoas capazes de ensinar bem e preparadas para uma aprendizagem eficiente ao longo da vida, porque as mudanças sociais exigirão sempre combinar competência com inovação”. Ademais,
“(…) é importante chamar a atenção de que a elaboração curricular não pode prender-se essencialmente aos aspetos técnicos do saber- fazer da profissão, tornando-se necessário considerar também a formação filosófica, política, emocional e o saber-ser tão importante, quanto as componentes mais técnicas” (Feitosa & Nascimento, 2006, p. 96).
É neste contexto que Nóvoa (2009) considera que a experiência, o diálogo com os docentes e a observação de várias aulas suas contribuem para o nosso aperfeiçoamento, enquanto professores e para exercitar o nosso desempenho e intervenção pedagógica. É, pois, indubitável que o trabalho do professor é fruto de um processo em construção ao longo da carreira profissional e da sua própria identidade (vida).
Segundo Nóvoa (2009, p. 49), “a situação atual da escola, em Portugal e no mundo, exige de nós um pensamento crítico, uma atitude de interrogação que não se limite a repetir o que já sabemos, mas que procure antecipar os caminhos do futuro presente”. Como continua o mesmo autor, a escola tem um papel fulcral na formação académica, profissional e pessoal dos educandos, tendo em conta que “(…) a escola deve instruir e educar, alargando a sua influência à totalidade do ser em formação” (p. 52).
O estágio é um processo de transformação e adaptação dos conhecimentos adquiridos. Por conseguinte, um lugar onde sempre esperei aplicar os conteúdos teóricos abordados durante a licenciatura e, mais especificamente, durante o mestrado. Este era, para mim, o ano mais importante da minha formação, pois seria
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o ano em que todos os conhecimentos adquiridos ao longo da licenciatura e mestrado iriam ser testados na prática.
É importante considerar que o trabalho do professor é fruto de um processo em construção ao longo de uma carreira profissional e da sua própria vida. Nós, futuros professores, quando chegamos à docência na universidade (estágio), trazemos connosco inúmeras e variadas experiências do que é ser professor. Experiências que adquirimos como alunos de diferentes professores ao longo do percurso escolar, que nos possibilitam dizer quem eram os bons professores, quais os que dominavam os conteúdos, etc. Com isto, fomos formando modelos “positivos” e “negativos”, os quais acabamos por reproduzir ou evitar.
Ao longo da nossa vida, várias são as dificuldades que se cruzam no nosso caminho; sabia que no estágio não seria diferente. Com efeito, sabia que encontraria diversos obstáculos, não apenas em termos de organização e controlo da aula durante a implementação de abordagens menos tradicionais, como também na resolução de problemas inesperados durante as aulas. O pouco conhecimento que detinha relativamente às diferentes modalidades, tornava a tarefa de lecionar mais complicada para mim, nomeadamente na transmissão de conhecimentos e feedbacks. Esta falta de conhecimento iria não só limitar-me na explicação dos conteúdos, fazendo com que os alunos não compreendessem a finalidade dos exercícios, mas também na deteção dos erros durante a prática. Sem dúvida que a minha emissão dos feedbacks à turma não seria melhor, o que acabaria por afetar todo o processo de aprendizagem dos meus alunos.
Devido à minha falta de confiança, tinha algum receio que isso acabasse por influenciar, de alguma maneira, este novo percurso. Sou uma pessoa que não gosta de falhar, sou exigente comigo mesma e fico preocupada caso não corresponda às expectativas dos outros.
Algo que também me preocupava era não conseguir motivar as minhas rosas (os alunos) na prática e não ser capaz de avaliar a sua aprendizagem da forma mais correta. Tendo em conta todo o meu caminho como aluna no ensino básico e secundário, fui-me apercebendo que a maioria de nós, alunos, olhávamos para a EF como um espaço que permitia descomprimir do stress acumulado e da inatividade dentro das salas de aula. Como podemos ver, a resposta de um dos alunos à questão realizada no questionário: “De modo geral, o que mais te motiva nas aulas de Educação Física?” – “O que mais me motiva nas aulas de Educação Física é o facto de podermos descontrair um bocado após o stress acumulado da
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semana e também serve para termos melhor qualidade de vida, relaxando o corpo e a mente” (aluno x).Pelo tanto, um dos meus objetivos era, não só ensinar, mas também fazer com que os meus alunos apreciassem e valorizassem as aulas de EF. Sendo a motivação fundamental para o processo formativo dos alunos, estava consciente da pesquisa necessária, de forma a encontrar estratégias para que as minhas aulas não se tornassem monótonas e repetitivas.
Relativamente à avaliação dos alunos, a minha preocupação era saber como avaliar os alunos mediante tanta diversidade e ser capaz de transformar os dados da avaliação numa classificação para cada aluno. Ao longo do meu primeiro ano de mestrado, fui percebendo que avaliar alunos nem sempre é fácil e que, ao longo de todo este processo, devemos ser cautelosos e reflexivos.
Quando iniciei o estágio, tinha consciência de que iria ter diversas dificuldades. Por isso, o que mais desejava era conseguir ultrapassá-las, pois só assim conseguiria aprender, melhorar e construir a minha identidade profissional.