De acordo com o art. 947, §1º, do CPC/2015, havendo eventual instauração de IAC, o relator proporá de ofício16 ou a requerimento da parte, do Ministério Público ou da Defensoria Pública que o recurso, o processo de competência originária ou a remessa necessária seja julgado por órgão fracionário superior indicado pelo regimento interno do tribunal.
Na prática, o órgão fracionário competente para conhecer do recurso, da re-messa ou do processo realizará “juízo de verificação”, momento em que serão analisadas as condições legalmente exigidas, e já pormenorizadas em tópico anterior, para sua admissibilidade.
Rejeitado o IAC nenhum outro magistrado poderá renová-lo, pois ou se confi-gura a relevante questão de direito de grande repercussão social, sendo o IAC acolhido, ou inexistem os pressupostos exigidos para a sua admissão, incum-bindo ao julgador, nesse caso, abster-se de instaurá-lo. De outro lado, acolhido o IAC, suspende-se o julgamento transferindo-se os autos ao órgão fracionário superior que o regimento interno do tribunal indicar.
16 Segundo Araken de Assis, todos os integrantes do órgão fracionário podem propor o redirecionamento da competência, na medida que eventual interpretação literal do art. ASSIS, Araken de. op.cit., p. 420.
Cumpre pontuar que o art. 947, §2º, do CPC/2015 estabelece a possibilidade de o órgão indicado pelo regimento reexaminar o cabimento do IAC, por essa razão não há falar em qualquer recurso contra a decisão que admite o referido instru-mento. O órgão colegiado superior julgará o recurso, a remessa ou o processo caso reconheça o efetivo interesse público na assunção de competência.
Destarte, admitido o IAC, o órgão colegiado superior fixará a interpretação con-sentânea à questão jurídica submetida a escrutínio e aplicará o direito a es-pécie. Do julgamento do feito caberá embargos de declaração bem como os recursos extraordinário e especial, respeitados os respectivos pressupostos, visto que julgado recurso, causa de competência originária e/ou remessa necessária.
Ademais, a tese jurídica fixada em IAC vinculará a todos os juízes e órgãos fra-cionários do Tribunal Estadual ou Regional Federal em que tramitou o incidente ou, se instaurado em Tribunal Superior, deverá ser observada em todo o território nacional17 , sendo que a inobservância do precedente ensejará a correção pela via da reclamação (art. 988, IV, CPC), a ser julgada pelo Tribunal que fixou a tese em IAC.
3.1. O IAC NO ÂMBITO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA
Conforme anteriormente delimitado, o IAC trata-se de um dos mecanismos possíveis a dar validade e eficácia real ao disposto no art. 926 do CPC/2015, pa-cificando as grandes questões de direito, compondo ou prevenindo divergência.
Não obstante a previsão do instituto, todavia, o diploma não se preocupou em detalhar a procedimentalidade do incidente, o que importou em deixar em aber-to ao próprio Tribunal o meio pelo qual deve considerar o trâmite procedimental.
O Superior Tribunal de Justiça, em setembro de 2016, por meio da Emenda Regi-mental n. 24 do RISTJ, alterou o regimento interno da Corte, de modo a comtem-plar as mudanças trazidas pelo CPC/2015 e regulamentar o procedimento de IAC. Com efeito, o Capítulo I-B do RISTJ dispõe sobre a “Afetação de Processos à Sistemática dos Recursos Repetitivos e da Admissão de Incidente de Assunção de Competência em Meio Eletrônico.”
Em relação ao procedimento, cumpre registrar que o §1º do art. 257-A do RISTJ trouxe a seguinte previsão:
Para a afetação ou admissão eletrônica, os Ministros deverão obser-var, entre outros requisitos, se o processo veicula matéria de com-petência do STJ, se preenche os pressupostos recursais genéricos 17 Enunciado 472 do FPPC:“(art. 985, I) Aplica-se o inciso I do art. 985 ao julgamento de recursos repetitivos e ao incidente de assunção de competência. (Grupo: Precedentes, IRDR, Recursos Repetitivos e Assunção de competência)”.
e específicos, se não possui vício grave que impeça o seu conheci-mento e, no caso da afetação do recurso à sistemática dos repetiti-vos, se possui multiplicidade de processos com idêntica questão de direito ou potencial de multiplicidade.
O art. 257-D, outrossim, dispõe que “afetado o recurso ou admitido o incidente, os dados serão incluídos no sistema informatizado do Tribunal, sendo-lhe atribuído número sequencial referente ao enunciado de tema”.
Ressalte-se que, por se tratar de incidente preventivo – cujo objetivo cinge-se a definir entendimento que precederá o julgamento do recurso, da remessa ne-cessária ou da competência originária – o instrumento perde o objeto com a realização do julgamento, excluindo a possibilidade de sua instauração perante o STJ.
Por outro lado, restando admitido o IAC, há a efetiva instauração do inciden-te com a transferência da competência definitiva para o órgão de maior com-posição responsável por formar o precedente. Nesse diapasão, o relator ou o Presidente ouvirá as partes e os demais interessados, que, no prazo comum de quinze dias, poderão requerer a juntada de documentos e diligências necessá-rias para a elucidação da questão controvertida. Em seguida, manifestar-se-á o Ministério Público Federal no mesmo prazo (art. 271-D do RISTJ).
Em relação ao julgamento, o regimento prevê que a Corte Especial e as Seções se reunirão com o quorum mínimo de dois terços de seus membros (Art. 271-E), sendo que o acórdão proferido, em assunção de competência, pela Corte Espe-cial, vinculará todos os órgãos do Tribunal e, pela Seção, vinculará as Turmas e Ministros que a compõem, exceto se houver revisão de tese (art. 271-G do RISTJ).
Ademais, consoante o disposto no art. 927, III, do CPC, e a fim de dar-lhe a publi-cidade devida, o art. 271-G, parágrafo único, do RISTJ determina a disponibiliza-ção dos IACs de competência do STJ no sítio eletrônico do Tribunal. O STJ dispo-nibiliza, assim, a relação dos incidentes de assunção de competência pendentes de julgamento bem como de julgados com a indicação da respectiva descrição da questão de direito e com o número sequencial do incidente18.
Embora consubstancie importante instrumento de pacificação jurisprudencial, verifica-se que o instituto é pouco utilizado pelo Tribunal. Desde a entrada em vigor do CPC/2015 até a edição do presente estudo, apenas 13 (treze) incidentes foram instaurados perante a Corte 19.
A partir da leitura dos temas fixados, acredita-se que uma das razões a justificar
18 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Repetitivos e IACs Anotados. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/
SCON/recrep/toc.jsp. Acesso em: 13 ago 2022.
19 Confira-se Anexo 1
a baixa utilização do instituto pelo Tribunal está relacionada à existência do IRDR, que é mais comum e mais fácil de se admitir - em razão da questão relativa à multiplicidade de ações existentes.
Considerando-se, por outra perspectiva, o disposto no art.947, § 1º, do CPC, o qual aduz que a iniciativa de instauração do IAC não cumpre apenas ao Relator, mas também às partes, ao Ministério Público e à Defensoria Pública, depreende-se que a tímida utilização do instituto pode estar relacionada à baixa provocação pelos demais legitimados previstos pelo CPC/2015.
3.1.1 ANÁLISE DO PRIMEIRO RECURSO ADMITIDO E JULGADO SOB O RITO DO IAC PELO STJ
Em fevereiro de 2017, o STJ admitiu o primeiro IAC, cuja competência restou de-signada para a Segunda Seção, que julgou um recurso especial (Resp 1604412/
SC) – inicialmente distribuído à Terceira Turma – sobre os seguintes temas: (i) cabimento da prescrição intercorrente e a (ii) eventual imprescindibilidade de intimação prévia do credor; necessidade de oportunidade para o autor dar an-damento ao processo paralisado por prazo superior àquele previsto para a pres-crição da pretensão veiculada na demanda. 20
À época, o relator do recurso, Ministro Marco Aurélio Bellizze, propôs a assunção de competência para que o caso fosse julgado na Segunda Seção, consideran-do a relevância das questões jurídicas e a divergência de entendimentos entre a Terceira e a Quarta Turma do tribunal, especializadas em direito privado. Ao propor o IAC, o Ministro argumentou que:
Com efeito, o novel incidente, nascido de disposição expressa do Código de Processo Civil, destina-se, entre outros fins, à prevenção e composição de divergência jurisprudencial, cujos efeitos são inega-velmente perversos para a segurança jurídica e previsibilidade do sistema processual.
O Ministro destacou que havia decisões da Terceira Turma no sentido da ocor-rência de prescrição intercorrente quando o exequente de dívida permanece inerte por prazo superior ao de prescrição do direito material vindicado, e, de outro lado, ressaltou decisões da Quarta Turma que defendiam que para o re-conhecimento da prescrição intercorrente seria imprescindível a comprovação da inércia do exequente mediante intimação pessoal do autor para diligenciar nos autos.
20 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Tribunal admite primeiro incidente de assunção de competência em recurso especial. Superior Tribunal de Justiça, Brasília, 22 fev. 2017. Seção Notícias. https://www.stj.jus.br/sites/
portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias-antigas/2017/2017-02-22_08-05_Tribunal-admite-primeiro-inci-dente-de-assuncao-de-competencia-em-recurso-especial.aspx. Acesso em: 13 ago 2022.
Destaca-se que a decisão de afetação não mencionou o requisito da não re-petitividade em múltiplos processos. Contudo, em pesquisa simples de jurispru-dência no sítio eletrônico do Tribunal, verifica-se que o Tema 1 repete-se em quantidade um tanto quanto significativa de demandas, ensejando a reflexão de que a questão analisada talvez se enquadraria melhor como recurso repeti-tivo.
O julgamento do IAC ocorreu em 27 de junho de 201821 , operando o trânsito em julgado apenas em 24 de maio de 2022. Isso porque, após o julgamento do IAC, houve oposição de Embargos de Divergência, Embargos de Declaração e Recur-so Extraordinário.
4. O IAC E O SISTEMA DE PRECEDENTES VINCULANTES DOS PAÍSES DE COMMON