2 O OBJETO DE ESTUDO: A BIBLIOTECA DO IFAP CÂMPUS DE MACAPÁ
2.4 O Acervo da Biblioteca do IFAP Câmpus de Macapá
De acordo com Vergueiro (1993, p. 14) a compreensão de que não era possível acompanhar o grande crescimento da produção de informações levou os bibliotecários a se preocuparem com o desenvolvimento de coleções das bibliotecas e com a necessidade de se discutir critérios para selecionar os materiais que comporiam o acervo. Estes critérios são importantes para que o profissional evite que as bibliotecas fiquem entulhadas de materiais com informações que nada acrescentam ao acervo, pelo fato de se constituírem em informações já comunicadas por outros autores.
Portanto torna-se imprescindível discutirmos o acervo da biblioteca do IFAP que é composto majoritariamente por livros voltados à formação técnica, sendo deficiente na cobertura dos tópicos vinculados ao núcleo comum que corresponde às disciplinas vinculadas ao ensino médio, que não possuí assinatura de periódicos e nem tem realizado compra de audiovisuais e outros materiais que não estejam no formato de livros. Entretanto possuí alguns periódicos, que foram doados por usuários da unidade de informação, e alguns audiovisuais oriundos de doação realizada pela Agência Nacional de Cinema / ANCINE e pela Secretaria de Estado de Educação do Governo do Estado do Amapá / SEED.
Este acervo no que pese cobrir de forma razoável diversas áreas do conhecimento produzido pela humanidade, se caracteriza como insuficiente para atender a formação propedêutica dos educandos dos cursos técnicos integrados ao ensino médio, pois embora contenha obras classificadas nas áreas de conhecimento que atenderiam a necessidade de formação geral e humanista dos discentes do ensino médio, estas possuem conteúdo, na sua maioria, vinculados à formação de professores e alunos de nível superior da instituição.
O fato é que ao realizar a descrição dos assuntos de biologia, história, geografia, sociologia, filosofia, química, matemática e física, só temos como classificá-los nestas áreas não tendo como classificar como ensino médio ou superior, pois o sistema de classificação não nos possibilita esta ação, embora seja possível realizar esta descrição nos assuntos tópicos do catálogo.
Por isso no gráfico 2 as áreas citadas aparecerão causando a falsa sensação de que o acervo da biblioteca cobre algumas áreas do conhecimento humano que são imprescindíveis para a formação propedêutica do educando dos cursos técnicos integrados ao ensino médio, como por exemplo, filosofia, sociologia, história e geografia o que não corresponde a nossa realidade pelo fato exposto anteriormente.
Figura 2: Títulos e exemplares no acervo da biblioteca do IFAP – Câmpus de Macapá.
Como podemos observar no gráfico 2 a existência de um grande número de exemplares por título causa distorção no equilíbrio do desenvolvimento de coleções de algumas das áreas técnicas que compõe o acervo o que contraria o princípio da racionalidade no desenvolvimento de coleções. Esta concentração é representada pelos dados do acervo nas áreas de Informática que é coberta com 78 títulos e 994 exemplares, de Engenharia que conta com 56 títulos e 565 exemplares.
Esta distorção fica mais evidente se visualizarmos a situação específica de alguns títulos como, por exemplo, Projetos elétricos prediais que tem 37 exemplares e está vinculado a área de engenharia civil, assim como a obra Lógica e linguagem de programação: introdução ao desenvolvimento de software que possui 35 exemplares e vincula-se a área de Informática. Por outro lado as áreas de Mineração e Alimentos possuem títulos com números menores de exemplares representados respectivamente pelos títulos
Teoria e prática de tratamento de minérios com 10 exemplares e Tecnologia de alimentos: Alimentos de origem animal com 3 exemplares.
O desequilíbrio no desenvolvimento de coleções da biblioteca se torna mais preocupante quando a visualizamos sob o prisma da formação de leitores, da promoção de acesso à cultura e da formação geral de nossos alunos pelo fato de constatarmos o pouco investimento realizado nas áreas de literatura, teatro e nas áreas do conhecimento relacionadas à reflexão e análise da realidade social.
No campo da literatura contamos com no máximo dois exemplares por título, sendo que muitos dos títulos e exemplares presentes na biblioteca são oriundos de doação realizada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e fazem parte do programa Nacional Biblioteca da Escola. Somado a isso temos a ausência de assinatura de periódicos o que inviabiliza o acesso às informações atualizadas presentes em jornais e revistas dificultando a construção de uma política de formação de leitores e principalmente o desenvolvimento de programas educativos que tenham como finalidade a discussão e a análise das questões do dia a dia da nossa sociedade.
As obras de geografia e história também são em quantidades insuficientes e oriundas de doações, realizadas por diversas organizações, que embora tornem presentes conteúdos relacionados a estes campos dos saberes, não são adequadas para atender de forma satisfatória as necessidades de formação geral dos nossos educandos dos cursos técnicos integrados.
O quadro discutido até aqui nos possibilita observar como a coleção da biblioteca está desenvolvida e como se distribui o total de títulos e obras do acervo. Reflete, principalmente, a centralidade da nossa coleção nos conteúdos voltados para a formação técnica e consequentemente a pouca atenção dispensada aos conteúdos voltados para a formação propedêutica dos educandos do ensino médio integrado.
Portanto este desenvolvimento de coleções não atende a necessidade de promover uma formação humanista e libertadora, que oportunize a existência de um conjunto de conhecimentos e habilidades para a instrução de cidadãos com consciência crítica, autônomos e que possuam a capacidade de refletir sobre a realidade social, política e econômica na qual estão inseridos tornando-os protagonistas políticos de sua própria história e atuação social.
2.5 A biblioteca escolar e a formação dos educandos na Educação profissional e tecnológica.
A deficiência que foi identificada no nosso acervo precisa ser sanada para que possamos ofertar formação geral e humanista no tão decantado ensino técnico integrado ao ensino médio que de acordo com o decreto n. 5.154 / 2004 deve ofertar formação inicial e geral estando articulada aos conteúdos curriculares do ensino médio. Este decreto é resultado de longos anos de luta das organizações e agentes sociais que atuam na educação e que
sempre fizeram criticas a formação aligeirada, desprovida de formação intelectual, e voltada para atender as necessidades mercadológicas do capital.
A história do ensino profissionalizante no Brasil é marcada majoritariamente pela recusa dos conteúdos de formação geral nos seus cursos que se limitavam a oferta do ensino técnico com formação específica para o desempenho de atividades braçais. Esta formação sempre submeteu a juventude brasileira aos interesses do mercado onde estariam reservadas, a mesma, as tarefas mecânicas e manuais associadas aos baixos salários a serem pagos pela sua força de trabalho, aos empregos em condições precárias e ao aumento da extração da mais- valia na relação capital e trabalho.
Por esse motivo Entendemos que não podemos ignorar todo o processo histórico e contexto social que envolve o tema da educação profissional brasileira para que não percamos a oportunidade de consolidar os avanços conquistados através da luta política e do esforço de elaboração intelectual dos que lutam para a construção de uma educação que tenha um caráter de libertação, das classes baixas, da opressão e dos dogmas do capital.
Um estudo realizado por Acácia Kuenzer (2009), em uma empresa no estado do Paraná, identificou a relação existente entre a qualificação do trabalhador e a remuneração da sua força de trabalho, sendo esta relação distribuída entre níveis que vão de um (1) a cinco (5) sendo o nível (1) o de menor nível de remuneração e o (5) o de maior nível salarial.
De acordo com Kuenzer (2009, p. 120) nesta empresa é considerado operário qualificado aquele que possuí “conhecimento compreensivo” de teorias e práticas de engenharia, que usa sua capacidade de julgamento, que tem iniciativa e habilidade para pensar, que cria métodos e procedimentos, que dá contribuições originais, que participa do processo decisório e do planejamento e da preparação do trabalho a ser executado por outros operários. Enquanto que o operário não qualificado se caracteriza pelos seus conhecimentos práticos, aqueles que não foram adquiridos pela educação formal, que não precisa possuir capacidade de julgamento, que se restringe as atividades de execução e não participa de processos decisórios, que utiliza pouco esforço mental, devido o caráter automático de sua atividade profissional.
2.6 A educação tecnológica brasileira e a relação da Rede Federal de Educação