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5 – NENHUMA DAS ENUMERADAS

7. Viver com deficiência

7.4. Acessibilidade e deficiência

A questão da acessibilidade é a mais discutida pelos movimentos de pessoas com deficiência. Construir a acessibilidade é uma forma de desconstruir a deficiência, diz Wendell (1996), através de mudanças na arquitetura, expansão dos meios adequados de comunicação, flexibilidade no trabalho (permitindo, por exemplo, o trabalho parcial), trabalho assistido, dentre outros.

O direito de ir e vir esbarra em muitos obstáculos no correr da vida das pessoas com deficiência. Ademar, que estudou numa das maiores e tradicionais escolas públicas de Salvador, lembra que a falta de acessibilidade pode definir quem pode ou não estudar: “eu estudei no Central e, na época, não sei hoje, um cara que estudasse numa cadeira de rodas tinha dificuldade até pra entrar na escola”.

As escadas e os pisos escorregadios são verdadeiros equipamentos de exclusão, diz Cíntia, que completa:

Para quem anda de bengala, os pisos escorregadios são horríveis, no meu caso específico é o meu maior inimigo, eu chego nos lugares e já tomei várias quedas por que nessa história de custo e benefício de limpeza, então os pisos são hoje um problema. por que é cera demais ou então são aqueles pisos que não são antiderrapantes [...].

Cíntia chama também atenção para o fato de que o grande lazer do povo de Salvador é ir à praia, a cidade tem uma orla marítima grande e apenas no bairro de Ondina tem equipamentos que facilitam que o deficiente físico freqüente a praia: “eu mesma não vou, tenho toda a dificuldade de ir, porque não tem rampa para descer de aparelhos”.

As cidades são socialmente construídas, seguindo um determinado padrão de cidadania, no que não se inclui a deficiência. Aspectos geográficos tornam o desenho ainda mais difícil numa cidade de relevo tão acidentado como Salvador, o que se agrava nas áreas mais pobres, bem como para todos os que não dispõem de automóvel.

Transitar nas ruas é a maior dificuldade relatada, mesmo em bairros de classe média da orla de Salvador – Eraldo fala que mesmo depois da reforma de uma das principais avenidas da Pituba, continua difícil transitar de cadeira de rodas: “colocaram umas rampas que o deficiente não pode subir as rampas, senão vira de costas, (pois) é muito em pé”. E tem o “chamado “te peguei” que é quando a gente vai descendo todo alegre e no final da rampa, nós encontramos um rego, então a cadeira fica e nós, o deficiente vai”, ironiza Sérgio.

“Mas uma rampinha já quebra um galho, mesmo que não tenha a adequação ideal, mas já quebra um galho, o limite maior é a escada, pra quem usa cadeira”, fala Paulo, que, agora já possui seu carro, mas há um tempo atrás, quando não existiam ônibus adaptados, então tinha que “pegar táxi”, “pegar carona”: “o transporte ainda é uma barreira, acho que essas as duas principais (barreiras) são o transporte e as arquitetônicas, pra cadeirante41, são muito mal feitos, ainda mais em Salvador que as

edificações são muito antigas”.

Sérgio lembra da dificuldade de transitar de cadeira de rodas em áreas do Pelourinho: “se tiver chovendo é pior ainda, vira totalmente uma escorregadeira, você tá lá em cima

e vai parar cá embaixo no Taboão, eu conheci um daqueles estabelecimentos assim, perdi o freio, fui parar dentro de venda, só não machuquei porque caí em cima da mulher com cadeira com tudo”, conta sorrindo.

Como outros serviços, o acesso a ônibus adaptado varia a depender do bairro, lembra Oscar: “hoje em dia, tem um número razoável de ônibus circulando pela cidade, mas se você morar num bairro isolado, tipo o meu, (onde) o único ônibus que entra é o ônibus que vai pra lá mesmo”. Salvador tem, historicamente, um dos sistema de transporte mais ineficientes das grandes capitais do país, o que ressalta ainda mais as dificuldades mencionadas.

Nelma também ressalta a desigualdade no acesso ao transporte e trata da falta de preparo dos motoristas:”aqui eu moro num lugar de difícil acesso, até hoje pegar um transporte, pra mim, é um transtorno. Muitas vezes o motorista não tem paciência, não são educados ainda pra esse tipo de coisa. Mas os ônibus são horríveis, o caminho todo tem passeios muito altos, de difícil acesso. Eu mesma tenho que andar no meio da rua, na lama. Quando chove é horrível”.

“O transporte para deficiente é muito deficiente e é a primeira dificuldade pra gente trabalhar”, ironiza Sérgio, que questiona:

Imagine, você está numa cadeira de rodas, leva três horas de relógio no ponto de ônibus esperando o ônibus adaptado e quando vê não vem o ônibus adaptado, vem o ônibus reserva e o reserva não é adaptado. Aí você pergunta, liga pra a garagem, “Ah, tá em manutenção, se vire”. Entendeu? Então a dificuldade para nos locomovermos até o trabalho é essa. Já chegou dias de eu ficar sem vir pra o trabalho.

Daniela e Eraldo contam o atropelo de um rapaz que tem uma cadeira motorizada e, devido à calçada irregular, desceu para um trecho da rua: “e a mulher ainda com desaforo, por que você não está na calçada? ele ficou nervoso e, quando fica nervoso tem espasticidade 42, tremeu todo e as pernas saíram e ai ficou querendo cair da

cadeira. Foi uma ‘encostadazinha’, mas podia ter sido pior. Porque ele vinha no meio da rua, dividindo com os carros”.

Além de reclamar que o ônibus é muito cheio e “quem é deficiente tem dificuldade de subir em ônibus, enfrentar ônibus cheio”, Eliana diz que “as pessoas não respeitam o lugar que deveria ser reservado pro deficiente – “nem sempre as pessoas têm consciência de levantar”.

Ademar lembra que as principais barreiras não são as físicas, mas sociais: “o físico você derruba uma parede ali e pronto, derruba uma escada e coloca uma rampa. Essa é a coisa mais fácil de modificar. Agora, você mudar a mentalidade das pessoas é que é o complicado”.

Na sua essência, a questão da acessibilidade é a forma como o movimento de pessoas com deficiência aborda o direito à igualdade, não apenas querendo redesenhar a cidade e os prédios, mas a própria sociedade. O postulado da acessibilidade de busca de um “desenho universal” implica na incorporação de novos direitos, ou melhor, de novas pessoas no campo do direito.

42A espasticidade é um fenômeno involuntário caracterizado pelo aumento de tônus muscular e, em resposta, rigidez