CAPÍTULO I DEFICIÊNCIA MOTORA E PARALISIA CEREBRAL
2. Acessibilidade e Tecnologia
Quando se fala de tecnologia, fala-se de máquinas (computadores da mais variada forma, ou periféricos) com capacidade de manipular, alterar, transformar, armazenar informação, bem como interpretar dados e extrair informação contida nesses mesmos dados.
A tecnologia pode ajudar o homem em tarefas inexequíveis ou dificilmente exequíveis. Daí a razão da grande proliferação das tecnologias digitais na maior parte dos campos profissionais. Mesmo na educação (fora e dentro da sala de aula) cada vez mais pessoas conhecem e usam, vantajosamente, estas máquinas.
Em 1985 foi lançada a primeira iniciativa financiada pelo Ministério da Educação que teve uma expressão nacional na introdução das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no ensino não superior em Portugal: o nProjeto MINERVAo (Meios Informáticos no Ensino: Racionalização, Valorização, Atualização). Este projeto foi um marco em projetos educacionais em Portugal e prolongou-se até 1994.
Em continuidade, mas em resposta a novas exigências e desafios, foi lançado, em finais de 1996, *#nPrograma Nónio - Século XXIo, com uma especial incidência no domínio das tecnologias multimédia e das redes de comunicação. Este programa expirou em 2002 (ME, 2002; https://repositorium.sdum.uminho.pt).
A experiência da utilização das TIC nas escolas já é vasta e há relatos em diversas publicações dos pólos MINERVA e do Ministério da Educação (APTE, 2003, http://www.educom.pt/telematica.htm).
Embora no documento da APTE (2003) se afirme que
!<%(A6(23B4)3&%&)0.0+&,&%*23J34*0%&-&45*'%=0&+31&13-*'%3.6*21&41('D%4*.(&,&.(41(%)*.% o aparecimento de publicações de divulgação dos projetos experimentais, com as comunicações apresentadas em encontros, seminários e congressos e ainda com a &,&61&5>*%(%)23&5>*%,(%'*E1M&2(%(,0)&13-*7#%
Não são desprezados os obstáculos, dos quais se destaca dois:
" A integração da utilização de computadores nas atividades educativas não
foi tarefa fácil: ao investimento na aquisição de equipamentos e software (Ministério da Educação) foi necessário juntar a formação de professores (Projeto Minerva e outros...);
" Na maior parte dos projetos, os trabalhos produzidos pelos alunos não
ultrapassaram os muros da escola, e mesmo na própria escola a sua divulgação foi geralmente restrita.
Em 1999, é publicada a Iniciativa Nacional para os Cidadãos com
Necessidades Especiais (Resolução do Conselho de Ministros n.º 96/99, de 26 de agosto). Um dos artigos desta Resolução do Conselho de Ministros é dedicado à '"0"--.!$!"# !"# n$!"p4$&# *# -.-)"1$# "!40$).2*# h-# "-%"0./.0.!$!"-# !*-# 0.!$!U*-# 0*1# '"0"--.!$!"-#"-%"0.$.-#'$#-*0."!$!"#"#.'/*&1$TU*o#f%onto 4.5), propondo três medidas, das quais se cita as duas primeiras (www.acessibilidade.gov.pt):
!N2*.*-(2%&%013+3O&5>*%,(%)*.601&,*2('%6(+&'%)23&45&'%(%/*-(4'%)*.%4()(''3,&,('%('6()3&3'% integrados no ensino regular, criar áreas curriculares específicas para crianças e jovens portadores de deficiências de fraca incidência e aplicar o tele-ensino dirigido a crianças e jovens impossibilitados de frequentar o ensino regular (Medida 5.1);
Adaptar o ensino das novas tecnologias às crianças com necessidades especiais, apetrechando as escolas com os equipamentos necessários e promovendo a adaptação dos programas (')*+&2('%P'%4*-&'%E04)3*4&+3,&,('%,3'6*43?3+3O&,&'%6*2%('1('%(=036&.(41*'%"Q(,3,&%R#S$%7#
No contexto atual de Escola Inclusiva, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) assumem-se como uma das cinco áreas-chave da educação de alunos com Necessidades Educativas Especiais (Agência Europeia para o Desenvolvimento em Necessidades Especiais de Educação, 2003, p. 6, https://www.european-agency.org/.../special-needs-education-in-europe).
A Agência Europeia para o Desenvolvimento em Necessidades Especiais de Educação, fundada em 1996 pelos países membros da União Europeia, tem vindo a dar um contributo importante para a melhoria da informação e conhecimento do processo educativo de crianças e jovens com deficiência, nomeadamente através da realização de estudos.
No que concerne a experiências, iniciativas e investigações no âmbito das TIC em contexto escolar português, é de destacar o Projeto Micromundos AIA (Ambientes Integrados de Aprendizagem), co-financiado pelo programa Nónio Século XXI, no âmbito do I Concurso Nacional de Apoio à Revisão Curricular e Organização Escolar.
Este Projeto, com resultados publicados, destinou-se à Educação de Infância e ao 1º Ciclo do Ensino Básico, com a construção de três Micromundos. Os autores crêem p4"# n*-# $%&"'!.]"-b# !"# p4$+p4"&# .!$!"b# %*!"1# "# !"2"1# -"&# )&$)$!*-# 0*1*# 0."').-)$-# criativos que, quando conduzidos por uma profunda curiosidade, são capazes de utilizar &"04&-*-#0*7'.).2*-#%*!"&*-*-o#f=*&&".$#")#$+Db#Zjj^b#%D#S`kgD#
Outras interessantes iniciativas contemplam, também, os alunos com NEE. Pode considerar-se os Estados Unidos da América como o país pioneiro na utilização das novas tecnologias nos sujeitos incapacitados. Existem numerosas redes de intercâmbio, grupos de investigação e associações, cujo objetivo comum é favorecer e
impulsionar as experiências e investigações centradas nas novas tecnologias a as necessidades especiais. Existem, também, muitos projetos, a nível internacional (García de Viedma, 1993, pp. 381-382).
Os investigadores estão a desenvolver robots para ajudar, na sala de aula, alunos com incapacidades físicas graves (Heward, 1998, p. 387).
A construção de novos instrumentos de ajuda para pessoas com incapacidades físicas graves constitui um das áreas mais prometedoras da tecnologia aplicada à educação especial. Os novos instrumentos aumentam as capacidades humanas nas áreas da comunicação, da mobilidade e da manipulação (Howell, cit. por Heward, 1998, p. 388).
García de Viedma lembra que, para além das situações conhecidas e divulgadas, há muitas e valiosas experiências e muitas pessoas que, na sombra, trabalham dia a dia para tornar mais fácil a vida das pessoas com alguma incapacidade (1993, p. 381). Essas pessoas e o seu trabalho, desconhecidos, não reconhecidos e não elogiados, merecem o nosso respeito e a nossa infinita gratidão...
Em suma, hoje sabe-se que as TIC oferecem diferentes potencialidades, permitindo de forma continuada o enriquecimento e a integração de saberes, o que leva a que a educação e a formação, ao longo da vida, sejam reequacionadas à luz do desenvolvimento destas tecnologias (Correia et al., 2001, p. 1).
A tecnologia é essencial para as pe--*$-#0*1#.'0$%$0.!$!"-#"#!"/.0.Y'0.$-\#n-"# para um cidadão ´normal` a tecnologia facilita uma atividade, para uma pessoa com deficiência a tecnologia torna-$#%*--X2"+o#f=<:A>=b#Zjj`).
E "tornar possível" algo faz toda a diferença - estabelece a fronteira entre poder e não poder, fazer e não fazer, saber e não saber, conhecer e não conhecer. Se a isto acrescentarmos que a previsão de pessoas portadoras de deficiência no mundo é de 10%, com tendência para aumentar devido ao envelhecimento da população (CERTIC, 2005, http://www.engenhariadereabilitacao.net/estudos), é muito ser humano privado de acesso a conhecimento, informação, entretenimento, lazer e, acima de tudo, comunicação.
Um outro contributo importantíssimo das TIC é o facto de os computadores poderem favorecer o desenvolvimento de relações sociais positivas (Correia et al., 2001, p. 14):
!T% ,('(4-*+-3.(41*% ,(% 2(+&5C('% )**6(2&13-&'% U% 0.% ,*'% 2('0+1&,*'% .&3'% .&2)&41('% ,&'% investigações sobre os efeitos educacionais deste recurso. O computador pode ser um excelente elemento socializador, mediando relações, quer entre crianças, quer entre )23&45&'V&,0+1*7%%%
Este é um aspeto fundamental quando se trabalha com alunos com NEE. Muitos educadores, especialistas e autores salientam que a intervenção educativa com estas crianças deverá centrar-se, prioritariamente, nos aspetos afectivos e relacionais e na comunicação (Martín-Caro Sánchez 1993, p. 18).