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CAPÍTULO 3 A INCLUSÃO DE PESSOAS SURDAS USUÁRIAS DE LIBRAS NA

3.4 ACESSIBILIDADE NO AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZAGEM

No tópico anterior apresentamos como a modalidade EaD tem ganhado espaço em relação a educação presencial no Brasil. Ao mesmo tempo ela tem sido uma opção buscada por pessoas com deficiência. O foco dessa pesquisa está em como os estudantes surdos usuários de Libras utilizam das ferramentas disponibilizadas para eles nos AVA que o tornem acessíveis. Faz-se necessário apresentarmos aqui o conceito de acessibilidade. Segundo Malheiro e Schlünzen Junior (2018, p.25).

acessibilidade na educação a distância engloba a equiparação de sujeitos envolvidos (docentes e estudantes) no processo comunicacional e educacional, de forma que ele seja assegurado a eles realizar com autonomia a comunicação e as atividades organizadas pedagogicamente seguindo os princípios do desenho universal e que estão disponíveis no ambiente virtual de aprendizagem, sendo este compatível com o uso de tecnologia assistiva e permitindo maior acesso aos conteúdos dos materiais didáticos, com recursos de acessibilidade (close caption, janela Libras, audiodescrição, web acessível etc.).

Ressalta-se que nessa definição a autonomia, tanto do estudante como do docente, é algo que deve ser garantido em todas as atividades pedagógicas. Os autores acrescentam nessa definição o princípio de desenho universal. Que para eles, deve ser empregado em produtos e ambientes que podem ser utilizados com segurança e autonomia por todos, independentemente de suas capacidades físicas, cognitivas e sensoriais. Adotam-se sete princípios, organizados no Quadro 1, para que algo seja determinantemente considerado com acessibilidade plena.

pessoas surdas, se contemplar os princípios 1, 2, 3, 4, 5,7. No entanto para que a instituição disponibilize um AVA com essas características, é indispensável que se compreenda os aspectos culturais e linguísticos, considerando a interação do estudante surdo nas plataformas de educação à distância a fim de favorecer seu processo educacional assegurando sua proximidade com a instituição e com o professor.

QUADRO 1: PRINCÍPIOS PARA A ACESSIBILIDADE PRINCÍPIO DEFINIÇÃO

01 Igualitário

Uso equiparável: espaços, objetos e produtos que podem ser utilizados

por pessoas com diferentes capacidades, tornando os ambientes iguais para todos;

02 Adaptável

Uso flexível: design de produtos ou espaços que atendem pessoas com

diferentes habilidades e diversas preferências, adaptáveis para qualquer uso;

03 Óbvio

Uso simples e intuitivo: de fácil entendimento para que uma pessoa

possa compreender, independentemente de sua experiência, conhecimento, habilidades de linguagem, ou nível de concentração; 04 Conhecido

Informação de fácil percepção: quando a informação necessária é

transmitida de forma que atenda às necessidades do receptor, seja ele uma pessoa estrangeira, com dificuldade de visão ou audição;

05 Seguro Tolerante ao erro: previsto para minimizar os riscos e as possíveis consequências de ações acidentais ou não intencionais;

06 Sem esforço Baixo esforço físico: para ser usado eficientemente, com conforto e com o mínimo de fadiga; e

07 Abrangente

Dimensão e espaço para aproximação e uso: estabelece dimensões e

espaços apropriados para o acesso, o alcance, a manipulação e o uso, independentemente do tamanho do corpo, da postura ou mobilidade do usuário.

Fonte: Elaborado pelo autor com base em Malheiro e Schlünzen Junior (2018, p.26).

É fato que a educação a distância carrega consigo seus desafios e peculiaridades. A simples dimensão territorial do Brasil e as realidades distantes de cada região aumentam os desafios da instituição que se propõe em ofertar cursos. Ainda que determinada instituição oferte cursos numa área territorial menor, ela apresentará seus próprios desafios. Isso é ainda mais recorrente no caso das pessoas surdas usuárias de Libras. Há que se pontuar que existe uma variação linguística regional, o que é comum a qualquer língua humana. Essa variação linguística está inserida em cada lugar, sendo que cada estado tem suas próprias variações (OLIVEIRA; MARQUES, 2014). Por exemplo, a comunidade surda no Rio Grande do Sul utiliza um léxico para dizer “mamãe” que na Bahia significava “biscoito”. Esse é apenas um dos inúmeros exemplos que podem gerar ruídos de comunicação numa aula na educação à distância. Essas variações linguísticas ocorrem também dentro do próprio estado da Bahia.

Incluir uma legenda em português nos vídeos não resolveria o problema. Isso porque o português na modalidade escrita é a segunda língua para os surdos. E muitos desses surdos

adolescentes ou na fase adulta foram escolarizados num processo anterior a filosofia educacional bilíngue, conforme já apresentado essa filosofia foi regulamentada com o Decreto nº 5.626/2005, e, segundo dados do sistema de tradução automática denominado Rybená, cerca de 30% dos surdos brasileiros não sabem ler Português e os outros 70% sabem ler, mas não têm entendimento claro desta língua. Nesse sentido, os ruídos de comunicação podem interferir no processo de aproximação ou distanciamento do estudante surdo com o professor (AMORIM; SOUZA; GOMES, 2016).

Vygotsky (2008, p. 62) propõe que “o desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem, isto é, pelos instrumentos linguísticos do pensamento e pela experiência sociocultural da criança. [...] o crescimento intelectual da criança depende de seu domínio dos meios sociais do pensamento, isto é, da linguagem".

A linguagem é um meio de transmitir conceitos e sentimentos, além de propiciar elementos para ampliar conhecimentos. Nesse sentido, é importante retomarmos Vygotsky (2018, p.63) que afirma ainda que “o pensamento verbal é determinado por um processo histórico-cultural e tem propriedades e leis específicas que não podem ser encontradas nas formas naturais de pensamento e fala”. Os surdos tiveram o desenvolvimento da língua portuguesa prejudicado por falta de metodologias adequadas de ensino, o que esbarra nos espaços em que a língua portuguesa é o meio para interação. Nessa relação próxima entre intérprete e estudantes surdos usuários de Libras, a de zona de desenvolvimento proximal, também defendida por Vygotsky é explorada, já que nessa relação há desenvolvimento linguístico importante para o estudante surdo, portanto, na relação com o outro o seu desenvolvimento pode ser potencializado.

O conceito de apropriação abordado por Leontiev nos auxilia nessas discussões. Para ele a apropriação é o “processo que tem por resultado a reprodução pelo indivíduo de caracteres, faculdades e modos de comportamentos formados historicamente” (LEONTIEV , 2004 p.180). Portanto, não há como separar as propriedades naturais resultantes do desenvolvimento biológico atrelado ao desenvolvimento sócio histórico. Dessa forma, duas condições são necessárias para que haja a apropriação: as propriedades biológicas herdadas e a comunicação, por meio da linguagem.

Para Gontijo (2001) a linguagem não é apenas um meio de comunicação entre os homens. Ao longo do desenvolvimento histórico, ela passa a refletir a realidade na forma de significações, pois sintetiza e ou cristaliza as práticas sociais, sendo, portanto, simultaneamente, objeto de conhecimento mediadora do processo de apropriação das produções humanas. Neste contexto, para que o estudante surdo usuário de Libras tenha todas

as suas especificidades atendidas é imprescindível que se sinta inserido e que tenha condições de se apropriar das discussões ao mesmo tempo em que contribui com elas. A Libras é o meio para tornar isso possível.