5. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.2. O processo de implementação da Equipe Saúde Bucal do Programa Médico de
5.2.1. Acesso de primeiro contato
Segundo Starfield (2002), a definição de acesso de primeiro contato pressupõe a acessibilidade e a utilização do serviço de saúde como fonte de cuidado para cada necessidade, e aponta para a distinção entre acesso e acessibilidade. Para que o usuário tenha acessibilidade é necessário que unidade de saúde seja “facilmente acessível e disponível”, ou seja, refere-se às características estruturais da unidade ou sistema. Já o acesso é a forma como a pessoa vivencia a acessibilidade de seu serviço de saúde.
Mascarenhas (2003) pormenorizou a diferença de acesso e acessibilidade:
No campo da saúde, acesso pode ser definido por aquelas dimensões que descrevem a entrada potencial ou real de um dado grupo populacional em um sistema de prestação de cuidados de saúde. A acessibilidade é entendida como o conjunto de circunstâncias, de diversa natureza, que viabiliza a entrada de cada usuário ou paciente na rede de serviços, em seus diferentes níveis de complexidade e modalidade de atendimento. Representa as dificuldades ou facilidades em obter tratamento desejado, estando, portanto, intrinsecamente ligada às características da oferta e disponibilidade de recursos (MASCARENHAS, 2003, p.44).
Em Niterói, pode-se dizer que, após a inclusão das ESB nos módulos do PMF, houve melhora do acesso de primeiro contato da população adscrita.
“Foi muito bom para que as comunidades tenham dentro da sua comunidade [um] dentista, para que ele [o morador] não precise sair da sua comunidade para tratar do seu dente.” (ator CS1).
“Lógico que com a implantação do dentista de família esse acesso se amplia.” (ator IA1).
“O que a gente observa é que o acesso é um bom acesso, a gente tem uma facilidade muito grande. Os dentistas fazem de tudo realmente para não deixar de atender, mesmo que tenha que fazer o usuário passar por grupos primeiro. Mas ele [o paciente] sempre vai ter o atendimento vai ter o acolhimento primeiro e depois acaba entrando na agenda e sendo atendido.” (ator IE2).
65 O usuário antes de entrar na agenda para dar início ao tratamento continuado passa por grupos de prevenção e promoção e ainda que dentista e auxiliar trabalhem com mais de um setor, o fato de terem uma população definida para atendimento possibilita o agendamento de consultas e a administração dos casos de urgência e emergência. Pinheiro (2009, p.96), atenta que a “delimitação das fronteiras” para oferta do cuidado “pode não atender ou mesmo satisfazer” essa população adscrita, pois o acesso concerne à disponibilidade do serviço e a localização geográfica “dos equipamentos sociais” o que em áreas com deficiências “acaba por se conciliar com as diretrizes do programa”.
Após a inserção do dentista e auxiliar de saúde bucal no PMF, o ator CS2 exemplifica sua percepção de melhora do acesso ao cuidado em saúde bucal dos moradores da sua comunidade.
“Mais, muito mais, muito mais [acesso ao tratamento odontológico] [...]. Era assim: ele [dentista] vinha três vezes na semana e era muita gente. A comunidade tinha doze mil ou treze mil habitantes há seis anos. Deve ter aumentado [para] uns catorze mil. É uma área muito grande: Ititioca, Atalaia e Capim Melado e adjacências [...]. Então o pessoal [usuários] reclamava muito. O dentista é bom, mas não dá conta. Um dentista para a população toda não tinha condição. Aí quando ele veio para cá [Ititioca], botou outro lá [Atalaia].” (ator CS2). A aproximação do profissional de saúde bucal com a metodologia do PMF tem a potencialidade de propiciar melhoria de acesso na medida em que conhecendo melhor o território, é possível planejar com maior eficiência e eficácia ações de proteção e recuperação da saúde da população adscrita. No entanto, até 2011, apenas famílias adscritas aos seis módulos com ESB estavam cobertas, sendo a maioria da população orientada para as unidades tradicionais.
O PMF procura enfatizar atividades que promovam a resolutividade da maioria dos problemas de saúde da população de risco (MASCARENHAS; ALMEIDA, 2002), mas no que tange a saúde bucal, considerando a demanda reprimida por anos, e a relação ESB/população muito superior à do médico é comum incorrer em desassistência pelo estrangulamento do acesso da população adscrita.
“Mesmo ele [dentista] tendo três setores, a gente observa que essa demanda dele [dentista] é quase que igual a um [dentista]
66 que tem só dois setores. Quer dizer, na verdade não há uma mudança muito grande, até por conta da capacidade dele [dentista] atender. Então ele [dentista] não tem como atender um público muito grande, e esse público ele acaba sendo filtrado e sendo atendido até dentro da sua necessidade.” (ator IE2).
“Eu comecei fazendo assim: ‘olha só, quem está interessado vai ter grupo dia tal’. Só que começou a vir muita gente. Teve uma vez que a gente marcou cento e cinquenta pessoas aqui, foi um absurdo tinha muita gente aqui, e a gente começou a restringir [...]. Então de dois em dois meses tem umas quinze famílias entrando para fazer o tratamento.” (ator IE1).
Para o ator IA2, o PMF promoveu uma expansão da cobertura muito importante, entretanto a saúde bucal não acompanhou esse aumento o que torna explícita a necessidade de investimentos nesse setor. A cobertura populacional estimada das equipes de saúde bucal da estratégia de saúde da família do município foi de 5,0% em 2011 (BRASIL/DAB, 2011).
“Tem essa defasagem de tempo, de amadurecimento do processo [...]. Para isso avançar e chegar próximo ao que tem hoje a qualidade da atenção médica [no PMF] precisa investir significativamente, inclusive na modalidade de contratação.” (ator IA2).
“Faltaria uma ampliação desses módulos com saúde bucal para toda a população do município, porque existe dentista, mas da rede, não no [Programa] Médico de Família e são filosofias totalmente diferentes.” (ator IE2).
“Tá faltando mais profissional para dentro das comunidades, porque têm certos módulos que não tem [ESB].” (ator CS2).