3. Regulamentações Internacionais de Poluição por Óleo e a Convenção Internacional
3.1. O Acidente do Navio Torrey Canyon e suas conseqüências
Em 1967 houve o acidente do navio Torrey Canyon junto à costa da Inglaterra. O navio apresentava cerca de 120.000 toneladas métricas de petróleo a bordo e após o seu encalhe, houve como conseqüência a perda total da embarcação e o inevitável vazamento de sua carga de petróleo para o meio ambiente. O proprietário da embarcação ao verificar a gravidade e extensão dos danos causados simplesmente a abandonou, uma vez que na época não havia nenhum instrumento internacional que o responsabilizasse pelas conseqüências advindas daquele desastre.
O acidente do navio Torrey Canyon, a poluição por óleo resultante e seus danos ambientais, foram decisivos para o debate da comunidade marítima internacional e os Estados costeiros, visando ao estabelecimento de uma legislação internacional que contemplasse a responsabilidade de proprietários de embarcações em decorrência de poluição por óleo de navios. Podemos afirmar que esse acidente representou um marco no avanço da legislação marítima internacional.
À época do acidente o navio era considerado, por sua capacidade de transporte de carga, um superpetroleiro e efetivamente em sua derradeira viagem transportava cerca de 120.000 toneladas métricas de petróleo. A empresa Barracuda Tanker Corporation, situada em Bermuda era a proprietária da embarcação, sendo uma empresa subsidiária de sua empresa matriz, a Union Oil Company da Califórnia, sediada nos Estados Unidos. O navio no momento do acidente estava afretado a British Petroleum e possuía tripulação italiana, WIKIPEDIA (2009).
O navio que havia carregado 120.000 toneladas métricas de óleo cru no porto de Mina Al-Ahmadi no Kuwait, destinados ao porto de Milford Haven no Reino Unido, encalhou em 18.03.1967 no recife “seven stones”.
Figura 4. Foto do Navio Torrey Canyon encalhado. Fonte : livro “ Mutuality, The Story of the UK P&I Club
Houve tentativas de salvamento da embarcação para minimizar os possíveis danos que seriam causados em função do vazamento de óleo. A empresa Wijsmuller especializada em salvamento de embarcações participou dessas tentativas, mas infelizmente não obteve êxito. Em determinado momento da operação de salvamento, houve uma explosão na praça de máquinas da embarcação e o Salvage Master25 da empresa Wijsmuller faleceu no local. A empresa Wijsmuller decidiu abandonar a operação de salvamento e a força aérea britânica (RAF)26 em uma tentativa desesperada de transformar a poluição marítima em uma poluição atmosférica, já que cerca de 60% da carga já havia se espalhado pelo mar, bombardeou o navio com bombas de napalm. Após algumas tentativas e com a baixa temperatura da água do mar, não houve sucesso na operação e os 40% restantes das 120.000 toneladas métricas de óleo que ainda estavam a bordo da embarcação vazaram para o mar. LOUGHBOROUGH UNIVERSITY –LONDON (2009).
O acidente do navio Torrey Canyon, seu custo de limpeza de 3 milhões de libras esterlinas, PETER Y. (1995), p. 67, e suas conseqüências estimularam a opinião pública a refletir sobre a extensão dos danos causados pela poluição que poderia advir em razão do transporte de petróleo pelo mar. Somente no Reino Unido, as reclamações por
25Salvage Master – Comandante da operação de Salvamento. Deve apresentar conhecimento em arquitetura naval, gerenciamento de projetos e larga experiência no mar. A experiência no comando de navios é essencial.
indenização alcançaram a cifra de seis milhões de libras esterlinas e na França chegaram a quarenta milhões de francos franceses. EDGAR G, (2006), p. 119. Outra contribuição importante desse acidente foi a de ressaltar aos legisladores a importância do tema e que os mesmos tivessem ciência da lacuna e disparidades existentes nas diversas legislações nacionais, principalmente da falta de uma legislação a nível internacional, que direcionasse e estabelecesse claramente a responsabilidade em eventos dessa natureza.
Esse acidente desnudou uma situação que necessitava de inclusão e atenção na legislação internacional: a compensação por danos causados por poluição por óleo transportado como carga em navios. As dificuldades inerentes a qualquer reclamação de poluição por óleo naquele período estavam presentes neste acidente, uma vez que os contratos da embarcação refletiam como a indústria de transporte marítimo estava estruturada. O navio era registrado na bandeira liberiana e tinha como proprietário de registro uma corporação de Bermuda, que era subsidiária de uma empresa americana. O navio foi afretado a casco nu27 para a Union Oil, que por sua vez o afretou por viagem28 a Bristish Petroleum, a então estatal de petróleo do Reino Unido. Nessas circunstâncias, havia incerteza em relação a qual jurisdição ou que legislação iria governar as reclamações. Outra questão importante envolvida em dúvidas foi a quem seriam endereçadas essas reclamações. A empresa proprietária da embarcação possuía somente o navio como o único ativo de sua corporação e um seguro bem limitado em relação à sua responsabilidade civil. Esse seguro seria insuficiente para cobrir os valores de reclamações apresentados na França e no Reino Unido, em função da poluição por óleo. Em relação à empresa americana Union Oil, verificou-se que era uma corporação cuja personalidade jurídica era completamente distinta da sua subsidiaria, inviabilizando assim qualquer ação de reclamação. Não havia também na época qualquer exigência para seguro compulsório TAN, A.K. J. (2006), p. 288.
Imediatamente após o acidente, tanto o governo Britânico quanto o governo Francês levantaram a questão das lacunas existentes na legislação internacional para a
27Afretamento a casco nu – contrato em virtude do qual o afretador tem a posse, o uso e o controle da embarcação por tempo determinado, incluindo o direito de designar o comandante e a tripulação. Lei nº 9432/97.
28Afretamento por viagem – contrato em virtude do qual o fretador se obriga a colocar o todo ou parte de uma embarcação, com tripulação, à disposição do afretador para efetuar o transporte em uma ou mais viagens. Lei nº 9432/97.
responsabilização em acidentes como o do navio Torrey Canyon, junto a então Organização Marítima Consultiva Intergovernamental (IMCO)29 posteriormente conhecida como Organização Marítima Internacional (OMI (IMO))30, que após análise de seu comitê legal, criou o atual sistema internacional de responsabilização e compensação de poluição por óleo, WU, C. (1996), p. 37.
29IMCO- Inter-Governamental Maritime Consultative Organization nome inicial da atual International Maritime Organization (IMO).