REVISÃO DE LIERATURA
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2.6 Acidente Vascular Cerebral (AVC)
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é segunda causa de morte no mundo, perdendo apenas para as doenças cardíacas isquêmicas (DONNAN et al., 2008; LOZANO et al., 2012) e a terceira causa mais comum de anos de vida perdidos decorrente da incapacidade (MURRAY et al., 2015). O AVC é uma condição de saúde crônica, com início súbito, decorrente de um processo patológico nos vasos sanguíneos cerebrais, com mais de 24 horas de duração, gerando uma alteração da circulação cerebral. Seguida da ocorrência súbita ou rápida de sinais e sintomas que ocasionam um déficit transitório ou definitivo no funcionamento de uma ou mais partes do cérebro. É caracterizado como um déficit neurológico, que pode afetar o funcionamento cognitivo, físico, e comportamental de um indivíduo (OVBIAGELE et al., 2015; DÍEZ- TEJEDOR et al., 2001; RAFII et al., 2006). É importante diferenciar o AVC do Acidente Isquêmico Transitório (AIT), que se refere a uma interrupção temporária da circulação no cérebro, de aparecimento súbito com a presença de sintomas e déficits neurológicos
focais e passageiros com menos de 24 horas de duração e com a recuperação completa (MERRIT, 2002).
De acordo com os distúrbios da circulação sanguínea cerebral, o AVC pode ser considerado de duas formas: isquêmico e hemorrágico. O AVC isquêmico é o mais comum, acomete 80% dos indivíduos, ocorre devido à obstrução, em decorrência de uma trombose ou embolia em uma das artérias cerebrais importantes, sendo mais frequente na artéria média, impedindo a passagem sanguínea. O AVC hemorrágico ocorre devido a uma hemorragia nas partes mais profundas do cérebro, ou seja, ruptura dos vasos sanguíneos cerebrais acometendo entre 10% e 20% dos indivíduos. O AVC hemorrágico pode ocorrer através de uma hemorragia intracerebral ou subaracnóide. A hemorragia intracerebral se dá através do extravasamento do sangue para o interior do cérebro e a hemorragia subaracnóide é quando o extravasamento de sangue penetra num espaço entre o cérebro e a membrana aracnoide (DURWARD; BAER; WADE, 2000; ARAÚJO et al., 2008). O AVC isquêmico é mais frequente que o hemorrágico. No entanto, a taxa de incapacidade e mortalidade é maior no hemorrágico (DE CARVALHO et al., 2011; CABRAL et al., 2016).
Ambos os tipos de AVC podem ocorrer em decorrência de vários fatores, dentre eles estão à idade, sexo, raça, etnia, hereditariedade, doenças cardíacas, infecção, trauma, neoplasia, má formação vascular, desordens imunológicas, hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, níveis altos de colesterol, obesidade, alto consumo de álcool, uso de drogas, sedentarismo e tabagismo (DURWARD; BAER; WADE, 2000; ARAÚJO et al., 2008; GUZIK; BUSHNELL, 2017). As principais causas de morte nos sobreviventes de AVC são as complicações cardiovasculares, pneumonia e embolia vascular (ZHANG et al., 2014). Por esta razão, é importante conhecer quais são os possíveis fatores de risco e a partir daí, consegue realizar ações preventivas desta condição de saúde, diminuindo assim, sua incidência (KULLER, 2001). Haja vista que, quanto maior o número de fatores de risco presentes, maior será o risco da ocorrência de um AVC (GUZIK; BUSHNELL, 2017).
A incidência do AVC vem crescendo devido ao aumento da expectativa de vida, causando mudanças no estilo de vida da população (ANDRADE et al., 2009). Pode acometer indivíduos de qualquer idade, predominantemente no sexo masculino entre adultos e idosos, sendo que, sua incidência dobra a cada década após os 65 anos de idade, período no qual pode ocorrer, naturalmente, a diminuição da acurácia das condições
funcionais pelo processo de envelhecimento (LOZANO et al., 2012; MURRAY et al., 2015).
De acordo com a OMS, a cada ano 15 milhões de indivíduos apresentam AVC, sendo que 5 milhões destes vão a óbito (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2014). Estima-se que em 2030 o mundo terá 70 milhões de sobreviventes do AVC e, aproximadamente, 6,2 milhões de mortes (FEIGIN et al., 2014; LOZANO et al., 2012). Na União Europeia, Noruega, Suíça e Islândia é verificado que surgem cerca de 1,1 milhões de novos casos de AVC anualmente, e que, em torno de 6 milhões de indivíduos já tenham sofrido pelo menos um AVC (TRUELSEN et al., 2005). No Brasil, foram registrados 180.606 internações por doenças cerebrovasculares em 2015, sendo que, em 14,4/1000 dos indivíduos acometidos apresentavam a idade entre 65 e 74 anos e 27/1000 dos indivíduos tinham mais de 85 anos (POLESE et al., 2008). Atualmente, o Brasil é referência no tratamento do AVC para os demais países da América Latina e já dispõe de Linha de Cuidados em AVC estabelecida como política. Todavia, dados mais recentes do Ministério da Saúde de 2016, mostram que houve 188,2 mil internações para o tratamento de AVC, sendo 40 mil óbitos pela doença, correspondendo a 10% da população adulta.
O AVC é uma doença comum e de grande impacto na saúde pública mundial. Além da alta mortalidade, muitos dos sobreviventes a esta condição de saúde exibem sequelas e limitações, sendo considerada como a principal causa de incapacidades neurológicas e de disfunções cognitivas e motoras (ANDRADE et al., 2009). Tendo como consequência um impacto significante no nível da independência funcional e na funcionalidade nos indivíduos que sobrevivem à fase aguda desta condição de saúde (MEIJERING; NANNINGA; LETTINGA, 2016; DE CARVALHO et al., 2011). As sequelas apresentadas pelos indivíduos após o AVC são diversas e dependem não somente de suas condições de saúde e de vida, como também da localização e extensão da lesão cerebrovascular (LLOYD-JONES et al., 2010; WALLACE, 2010). A principal incapacidade residual apresentada pelos indivíduos com esta condição de saúde é a hemiplegia e hemiparesia, que são a paralisia parcial ou total dos músculos do hemicorpo contralateral ao hemisfério cerebral que ocorreu a lesão, acometendo tanto os MMSS quanto os MMII (STOKES, 2000; JORGE et al., 2014). Sendo acompanhada da rigidez, perda da mobilidade das articulações, alteração do tônus, espasticidade, sensibilidade, dores difusas, problemas de memória, emocionais, comportamentais, comunicação e desordens da linguagem - disfasia (ANDRADE et al., 2009; CARR; SHEPHERD, 2002), tais como alteração no controle esfincteriano, vestir-se, tomar banho, alimentar-se, andar,
realizar a atividade profissional, comunicação, atividades de lazer (MATHERS; LONCAR, 2006; EILERTSEN; KIRKEVOLD; BJORK, 2010).
Os principais desafios apresentados pelos indivíduos com AVC estão relacionados às incapacidades, devido à mudança inesperada e de grande magnitude. No qual o indivíduo vivencia novos desafios, como o conflito de identidade, mudanças comportamentais, dependência funcional parcial ou total, adaptações ou elaborações de novas estratégias para realizar as AVD‟s, AIVD‟s e o modo como isto afeta sua autoimagem e suas relações sociais (ARAUJO et al., 2008; CARR; SHEPHERD, 2002; EILERTSEN; KIRKEVOLD; BJORK, 2010; MEIJERING; NANNINGA; LETTINGA, 2016).
Além das alterações cognitivas e motoras, o AVC acomete os domínios psicossociais e os indivíduos podem apresentar ansiedade, depressão e isolamento social, alterando a qualidade de vida e consequentemente a sua funcionalidade (CRAMER et al, 2017). Assim sendo, o indivíduo que apresenta esta condição de saúde deve lidar não somente, com as mudanças em suas Funções e Estruturas do Corpo como também com suas Atividades e Participação associadas aos fatores de contexto (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2015b). Para isso, será necessário o acompanhamento de uma equipe de reabilitação multidisciplinar, utilização de instrumentos de avaliação para verificar os níveis de funcionalidade e incapacidade e assim realizar o planejamento, verificar a evolução e ver quais modificações podem ser realizadas nos programas de tratamento (TELES et al., 2012; CARR et al., 2002).
O AVC é uma doença que gera mais incapacidade que mortalidade e a grande maioria dos indivíduos com esta condição de saúde apresentam sequelas neurológicas. Cerca de 70% não retornam ao trabalho e 30% precisam de auxílio para caminhar (GUSMÃO, 2013). Por esta razão a reabilitação deve ser iniciada o mais precocemente possível, a fim de minimizar as limitações, favorecendo a capacidade de realizar outras tarefas, melhorando a autoestima e a recuperação motora e cognitiva (O‟SULLIVAN, 2010). A associação entre a reabilitação adequada e o tratamento médico, podem evitar sequelas e proporcionar ao indivíduo o retorno às suas atividades e participação na comunidade o mais breve possível. No entanto, na grande maioria das vezes, a reabilitação para esta condição de saúde é desafiadora e, a recuperação é diferente para cada indivíduo, pois depende muito da área afetada e de sua extensão (BRASIL, 2013b). Os principais objetivos da reabilitação de um indivíduo com AVC é melhorar a mobilidade funcional, recuperar os déficits sensoriomotores e cognitivos, força muscular,
equilíbrio, marcha, reaprendizado motor, mudança e reformulação na esfera social, comportamental, familiar, estudantil e profissional, trazer autonomia e reintegração à comunidade, retorno às suas atividades domésticas, de trabalho e lazer, além da melhora na qualidade de vida para os indivíduos e seus familiares (CECATTO et al., 2010; POLESE, 2008; TELES et al., 2012).