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1 DAS MEMÓRIAS DA INFÂNCIA AOS DIAS ATUAIS: o surgimento da pesquisa

2.3 O trabalho de acompanhamento educacional na vertente psicopedagógica

2.3.1 O acompanhamento no contexto escolar

Como já abordado anteriormente, a aprendizagem na escola é efetivada mediante o combinatório de variados fatores. É preciso ter um ambiente educacional favorável, no qual os educadores compreendam as dificuldades escolares encontradas e criem meios de saná-las. Uma abordagem psicopedagógica da aprendizagem pode ser o princípio, uma semente a ser enraizada na maneira de pensar e agir dos sujeitos que compartilham desse contexto. Em outras palavras, uma base a ser considerada com vistas à resolução de problemáticas existentes, em se tratando do fracasso nas aprendizagens.

Atualmente, a atividade de acompanhamento educacional nas escolas precisa ser abrangente, entendida como um trabalho realizado com todos os envolvidos quando se fala em aprendizagem e dificuldades no aprender. Todos os educadores, como professores e pedagogos podem executar essa função, no sentido de prestar atendimentos aos alunos, aos pais e fazer os devidos encaminhamentos. Claro que o serviço de orientação e acompanhamento educacional se aprofunda muito mais nos setores pedagógicos, nos quais o pedagogo é um dos profissionais da equipe que fomenta ações nas escolas, no que tange a atendimentos aos alunos, aos pais e a outros que têm relações com o sujeito aprendente. Mas a responsabilidade de mover ações para atendimentos de forma a implementar um acompanhamento estudantil eficiente é de todos os trabalhadores da escola.

A orientação e o acompanhamento educacional requerem conhecimentos mais aprofundados sobre a aprendizagem, e os profissionais da escola precisam estar atualizados quanto aos saberes inerentes a essa prática. A Educação escolar está condicionada pela tipologia da instituição e pelas respostas organizacionais construídas. O acompanhamento dos alunos deve considerar o clima escolar, as culturas arraigadas, as relações entre as equipes, o uso dos espaços e do tempo, itens determinantes da dinâmica existente. Visualizar todas as variáveis dependentes entre si, peculiares do processo didático, é indispensável para realização de atendimentos em uma perspectiva psicopedagógica.

É bom dizer que não há um modelo acabado e definido de acompanhamento educacional para ser usado em todos os contextos de atendimentos. Há pressupostos sobre Educação/escola e suas finalidades pedagógicas que agregam ideias diversas para que concepções psicopedagógicas possam configurar-se e levantar recursos promissores para atuar em cada instituição. À escola cabe assegurar um ensino de qualidade e responder aos desafios cotidianos, o que requer uma análise e revisão de suas práticas institucionais, principalmente em contextos que apresentam problemas como o fracasso escolar.

Nesse âmbito, os conhecimentos em Psicopedagogia objetivam favorecer uma coerente e contínua ação educativa concernente ao projeto pedagógico da escola, um trabalho compartilhado para atingir os fins educativos. Os referenciais psicopedagógicos, ao lado dos pressupostos organizacionais e curriculares, compõem-se de mecanismos eficazes para os educadores aperfeiçoarem os processos de ensino e descobrirem quais os motivos que levam os alunos a não conseguirem o sucesso nos estudos. Os obstáculos podem recair em práticas escolares não sensíveis aos fatores que levam ao insucesso escolar. Nesse sentido, o educador, a par dos conhecimentos da Psicopedagogia, pode impulsionar o trabalho em equipe, por meio do cooperativismo, para análise de situações e de casos especiais.

Fini (1996) relata que a Psicopedagogia proporciona aos profissionais a possibilidade de analisar os processos de ensino e aprendizagem a partir do sujeito que aprende e da instituição que ensina e oferece suporte para a compreensão do processo de construção do conhecimento pelo aluno.

Weiss (1987) assinala a necessidade de contrapor a ineficiência das instituições escolares e a partir daí poder corrigir as dificuldades na criação de vínculos adequados para com a leitura, a escrita e o cálculo, itens básicos para o sucesso escolar, pessoal e profissional. A autora argumenta sobre o papel patogênico exercido pelas escolas; a passividade e as exigências rígidas da equipe; e a falta de atenção em relação ao aluno com dificuldades. “Saber o que o aluno pode ou não pode aprender em cada momento de seu desenvolvimento é essencial em sua vida escolar” (WEISS, 1987, p. 79).

Embasados nos princípios psicopedagógicos, os educadores, juntamente com o adolescente, precisam trabalhar de forma interativa e participativa, fornecendo feedbacks sobre as condições de aprendizagem. Nesse sentido, desenvolve-se o prazer de aprender de forma lúdica, de maneira que o adolescente vivencie experiências gratificantes ao lidar com o processo de conhecer.

Se os alunos vivenciam situações de dificuldades e de insucessos escolares por inúmeros fatores, não se pode deixar de lado a responsabilidade da escola, suas variáveis e limitações, as relações que permeiam esse espaço, como professor-aluno, aluno-aluno, a metodologia de ensino, os fatores sócio-históricos. É necessário, então, considerar o potencial intelectual do aluno, para promover seu progresso, por meio de métodos de estudo apropriados, com calendário de atividades delineadas, planos de estudos sistematizados, oferecendo-lhe o apoio de que necessita.

O assessoramento pedagógico com base psicopedagógica traz contribuições à prática escolar; o pedagogo, ao executar essa tarefa, realiza uma escuta e auxílio aos professores

dentro das instituições de ensino na identificação das queixas presentes, quando há dificuldades para aprender. A especificidade pedagógica no momento de escuta ao aluno nos acompanhamentos educacionais é muito importante para o esclarecimento dos motivos das dificuldades de aprendizagem ou de escolarização. Muitas escolas, até os dias de hoje, não contam com o apoio de profissionais especializados para o acompanhamento dos alunos que passam por problemas em suas aprendizagens (o psicopedagogo, por exemplo). Além disso, até mesmo os encaminhamentos ficam prejudicados, quando a escola é composta por alunos que não têm condições de serem assistidos por profissionais externos e a região não conta com esse apoio em locais públicos. Solé (2001) adverte que há um campo profissional de orientação e de intervenção a ser ocupado por profissionais especializados, seja o psicólogo, o pedagogo ou o psicopedagogo, no sentido de desempenhar o assessoramento psicopedagógico nas escolas. A autora ainda admite que esses serviços, configurados ou não em equipe, intervêm para que todos os alunos recebam o acompanhamento escolar necessário, de modo a avaliar e a utilizar procedimentos para prevenir, corrigir, aperfeiçoar e intervir nos contextos diretamente, considerando todos os fatores e variáveis envolvidos no desenvolvimento dos processos de ensino e aprendizagem.

Ao reconhecer a realidade em várias escolas, principalmente as públicas, em que não existe a figura do profissional psicopedagogo na função, ao professor ou ao pedagogo cabe fazer o estudo dos motivos que levam ao fracasso escolar dos discentes. Isso pode ser efetivado por meio de entrevistas, autoavaliação discente, jogos individuais e coletivos, observação cotidiana do contexto escolar e diálogos com os alunos objetivando apontamentos dos fatores causadores dos baixos desempenhos existentes. A orientação provinda do docente ou do pedagogo esquematiza atividades, no sentido de colaborar para o progresso de cada aluno, com vistas a atender à sua especificidade, devido à diversidade de necessidades educativas de cada escola. É objetivo da orientação e do acompanhamento escolar assegurar as condições propícias para o melhoramento efetivo das relações de aprendizagem que acontecem na escola. A intervenção deve oferecer reflexões no âmbito de alternativas e de soluções viáveis para o aprendizado que resultem em propostas cada vez mais pertinentes ao enfrentamento do fracasso escolar.

Marcos (2000) se refere à escola/instituição e declara seis elementos que devem ser fonte de análise e observação: os objetivos, aqueles propósitos orientadores das atividades organizacionais; os recursos, pessoais, materiais, funcionais; a estrutura escolar; a tecnologia, apresentada não como artefatos tecnológicos, mas os processos operativos da instituição; a cultura, aqueles significados, princípios, valores ou crença manifestados pelos

membros da organização escolar; o ambiente, representado pelas variáveis externas a escola, como Leis, localização e comunidade. O autor expressa que deverá ser referência para avaliação, o trabalho de colaboração, a divisão de serviços, os objetivos comuns, a resolução de conflitos, os acordos efetivados, a racionalização dos recursos, pois é fundamental inferir estes componentes organizacionais nas análises a serem feitas, já que os fatos não ocorrem de forma isolada. Examinar esses componentes ajudará a vislumbrar as causas dos efeitos indesejáveis e acarretados por eles (grifos nossos).

Não se podem esquecer os processos de adaptação curricular, principalmente quando o aluno passa de uma etapa para outra, ou seja, quando termina as séries iniciais (primeiro ao quinto ano) e passa para as séries finais do Ensino Fundamental (sexto ao nono ano), ou quando termina o Ensino Fundamental e passa para o Ensino Médio. Essas mudanças provocam rupturas e o estudante, quase sempre, não está preparado para as mudanças curriculares pelas quais irá passar (aumento de disciplinas e disciplinas novas) o que provoca, em muitos casos, o fracasso escolar. O professor, ao fazer o acompanhamento educacional, pode executar uma intervenção no sentido de percorrer o caminho juntamente com o discente e ensiná-lo a lidar com as dificuldades iniciais de adaptação; citam-se como exemplos, as orientações periódicas concernentes às dificuldades individuais apresentadas. Solé (2001) destaca a função orientadora como inerente também à docência, proporcionadora dos meios necessários para a formação integral do aluno em suas capacidades.

Tendo em vista a enorme diversidade de alunos, o educador precisa adequar sua ação aos condicionantes das escolas, e essa orientação das aprendizagens deve estar baseada em um planejamento, observação e atuação diversificada para realmente concretizar a intervenção. É necessário haver uma preocupação em assessorar, não somente ensinar; o elemento mais significante para realizar este assessoramento é a análise e a interpretação da situação inicial de aprendizagem, na busca de diversidade de estratégias (FINI, 1996). O professor ou o pedagogo — os profissionais que trabalham diretamente com os alunos — precisam conhecer bem a realidade, entender as relações que permeiam o espaço, para tomarem melhores decisões, no que concerne a saberes, a afetos ou a emoções, indo ao encontro das necessidades discentes, em uma descoberta das facetas impactantes no aprender.

Atribui-se ao sistema de acompanhamento escolar um caráter integrado das ações, que favorece o desenvolvimento dos alunos e lhes permite tomar decisões sobre o andamento de suas incumbências escolares; nesse sentido, esse acompanhamento deve ser realizado também junto à família dos discentes.