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Acompanhamento Rítmico

No documento Apostila de Jazz (páginas 50-53)

Uma vez que tenha decidido que notas quer tocar, você precisa decidir quando tocá-las.  Não dá para tocar simplesmente semibreves ou mínimas; o seu acompanhamento precisa

em geral ser ritmicamente interessante, sem no entanto distrair o solista ou o ouvinte. Há poucas instruções que possam ser dadas para se tocar acompanhamento com ritmo. Como há muito pouca teoria em que se escorar, a primeira fração de conselho que eu posso dar é ouvir a outros músicos de acompanhamento. Com muita frequência, tendemos a ignorar todos, exceto o solista. Lembre-se de escolher álbuns que tenham músicos que, além de fazer o acompanhamento, façam solos instrumentais. Entre os pianistas a serem ouvidos devem estar Bud Powell, Thelonious Monk, Horace Silver, Bill Evans, Wynton Kelly, Herbie Hancock e McCoy Tyner. Os pianistas devem também ouvir guitarristas e músicos de vibrafone ou xilofone; geralmente os limites desses instrumentos podem levar a ideias que você não teria de outra maneira.

Guitarristas devem ouvir pianistas, mas também guitarristas de jazz como Herb Ellis, Joe Pass, e Wes Montgomery. Geralmente, os guitarristas trabalham paralelamente aos

 pianistas, e o estilo deles quando há um pianista no grupo pode variar em relação a como eles tocam quando são o único instrumento harmônico no acompanhamento. Por exemplo,

alguns guitarristas tocam somente acordes curtos em cada tempo se houver um pianista tocando a maior parte do material rítmico. Outros ficam de fora (param de tocar)

completamente. Por esse motivo, é especialmente importante ouvir guitarristas em diferentes tipos de contexto.

Também se deve ouvir gravações que não têm nenhum acompanhamento harmônico, como qualquer um dos vários álbuns de Gerry Mulligan, Chet Baker, ou até mesmo do quarteto Ornette Coleman. Tente tocar junto com eles. Isso vai muitas vezes ser difícil, já que a música foi gravada com o entendimento de que não haveria acompanhamento harmônico,  por isso os solistas e outros que estão fazendo o acompanhamento geralmente deixam  pouco espaço para um piano ou violão. Praticar o acompanhamento nesse tipo de situação  pode ajudar você a evitar exagerar no acompanhamento. A maioria dos músicos iniciantes de acompanhamento, como muitos solistas iniciantes, tende a tocar notas em excesso. Do mesmo modo que o espaço pode ser uma ferramenta eficiente durante um solo, pode ser  ainda mais eficiente quando se está acompanhando. Deixe o solista tocar com somente o  baixista e o baterista durante uns poucos compassos, ou mais, de vez em quando. Ficar de

fora e deixar o solista sem acompanhamento de instrumento harmônico é às vezes chamado de strolling (passear). McCoy Tyner, Herbie Hancock e Thelonious Monk frequentemente

ficavam de fora durante solos inteiros.

Imaginar a si próprio exercendo um papel secundário no arranjo de uma grande banda às vezes ajuda. Quando estiver confortável com uma progressão de acordes específica, e não mais tiver que se concentrar integralmente somente em tocar as notas "certas", você poderá dedicar-se ao conteúdo rítmico e até melódico de seu acompanhamento. Ouça os

acompanhamentos de sopros em algumas gravações de orquestras de jazz, como as de Count Basie, para ver como o acompanhamento pode ser melódico.

Certos estilos de música pedem padrões rítmicos específicos. Por exemplo, muitas formas de música antes da Era do Bebop usavam o padrão stride na mão esquerda, que consiste em

alternar a nota do baixo em 1 e 3 com uma abertura de acorde em 2 e 4. Muitos estilos  baseados no rock também dependem de padrões rítmicos, geralmente específicos de uma

música individual. Embora os estilos brasileiros como a bossa nova e o samba, na maneira como tocados pela maioria dos músicos de jazz, não tenham padrões de acompanhamento  bem definidos, outros estilos de jazz latino, especialmente as formas afro-cubanas que são

às vezes coletivamente conhecidas como salsa, usam um motivo repetido de dois

compassos, chamadomontuno. Um padrão rítmico típico é o "e-do-1, e-do-2, e-do-3, e-do-

4; 1, 2, e-do-2, e-do-3, e-do-4". Esses dois compassos podem ser invertidos se o padrão de  bateria utilizado (ver abaixo) também for invertido. Uma descrição integral do papel do  piano no jazz latino e outros estilos está fora do escopo desta Introdução. Uma boa

discussão pode ser encontrada no livroThe Jazz Piano Book , de Mark Levine.

O aspecto mais importante do acompanhamento na maioria dos estilos é como se comunicar com o solista. Há várias formas que essa comunicação pode assumir. Por 

exemplo, há a pergunta e resposta, em que você essencialmente tenta ecoar ou responder o que o solista tocou. Isso é especialmente eficiente se o solista estiver tocando frases curtas, simples, com pausas entre elas. Se o solista estiver trabalhando num motivo rítmico

repetido, geralmente dá para antecipar o eco e tocar na verdade junto com o solista. Às vezes você também pode conduzir o solista a direções que de outro modo ele poderia não ter tentado. Por exemplo, você pode iniciar um motivo rítmico repetido, o que pode

encorajar o solista a ecoar você. Alguns solistas gostam desse tipo de acompanhamento agressivo, outros não. Você terá que praticar com cada solista para ver até que ponto poderá conduzi-lo.

Baixo

A função do baixo numa seção rítmica tradicional é um tanto diferente daquela de um instrumento harmônico. Do mesmo modo que o pianista, um baixista precisa normalmente delinear as mudanças de acordes, mas o baixo geralmente enfatiza as fundamentais, terças e quintas, em vez das extensões ou alterações. Nas formas tradicionais do jazz, o baixista também tem um papel muito importante como o responsável pela marcação do tempo; tanto quando o baterista, e talvez até mais do que ele. É por isso que os baixistas com tanta

frequência tocam linhas de baixo que consistem quase que exclusivamente de semínimas ou ritmos que enfatizam fortemente a marcação do tempo.

 Nesse aspecto, aprender a tocar linhas de baixo é geralmente mais fácil do que aprender a solar ou a tocar aberturas de acordes. Você não precisa se preocupar tanto em relação a que ritmos tocar, e suas escolhas de notas também são mais limitadas. Quando você ouve

grandes baixistas, como Ray Brown ou Paul Chambers, observa que uma grande parte do que eles tocam são semínimas e linhas baseadas em escalas.

Quando um pianista toca num contexto de solo, ele frequentemente precisa criar seu  próprio acompanhamento de linha de baixo, por isso os pianistas também aprendem a

formar boas linhas de baixo.

Linhas de Baixo

Há algumas orientações simples que você pode usar para produzir linhas de baixo que soem  bem. Primeiro, você geralmente deve tocar a fundamental de um acorde no primeiro tempo

desse acorde. O tempo anterior deve estar a uma nota ou um semitom de distância. Por  exemplo, se o acorde F7 aparece no tempo "1" de um compasso, então você normalmente toca o Fá nesse tempo. Você geralmente tocaria Mi, Mi Bemol, Sol, ou Sol Bemol no

compasso anterior, dependendo do acorde. Se o acorde anterior for um C7, então você pode tocar ou Mi ou Sol, já que eles estão na escala mixolídia associada ao acorde. Ou você pode  pensar na escala diminuta semitom-tom ou na escala alterada para o acorde C7 e tocar Mi

Bemol ou Sol Bemol. O Sol Bemol também é a fundamental do acorde da dominante a um trítono de distância, que já foi descrito como uma boa substituição, por isso o Sol Bemol é uma escolha particularmente boa. A nota não necessariamente precisa ser justificável no contexto de um acorde; ela pode ser pensada como uma nota de passagem para se chegar ao  primeiro tempo (o tempo forte) do compasso seguinte.

Essas duas primeiras orientações resolvem dois tempos de cada acorde. Em algumas músicas, como as músicas baseadas na progressão Rhythm, isso é tudo que há para a maioria dos acordes, assim sua linha de baixo pode ser quase completamente determinada  pela progressão harmônica. É claro que você provavelmente vai querer variar suas linhas. Você não é obrigado a tocar a fundamental no primeiro tempo, nem tampouco obrigado a aproximar-se dele com um tom. Lembre-se, essas são somente orientações iniciais.

Se você tiver mais que dois tempos para preencher num acorde específico, uma maneira de  preencher os tempos restantes é simplesmente escolher notas de qualquer escala associada

em movimentos geralmente de um tom. Por exemplo, se sua progressão harmônica é de C7  para F7, e você já decidiu tocar "Dó, X, X, Sol Bemol" para o acorde C7, então você pode  preencher os Xs com Ré e Mi, implicando a escala lídia dominante, ou Si Bemol e Lá

Bemol, implicando a escala alterada. Qualquer uma dessas escolhas pode também implicar  a escala de tons inteiros. Outro fraseado muito usado seria "Dó, Ré, Mi Bemol, Mi", em que o Mi Bemol é usado como uma nota de passagem entre Ré e o Mi. Você provavelmente vai descobrir outros fraseados que usará muito. Tocar fraseados geralmente é recebido com ressalvas quando se está solando, momento em que se espera que você seja o mais criativo  possível. Quando estiver no acompanhamento, entretanto, os fraseados, como aqueles

fornecidos para aberturas, podem ser uma maneira eficaz de delinear a harmonia

consistentemente. Como baixista, espera-se que você toque virtualmente todos os tempos de cada compasso durante toda a música. É geralmente mais importante ser sólido e confiável do que ser o mais inventivo possível.

No documento Apostila de Jazz (páginas 50-53)