sem fatores de risco e/ou intercorrências mostrado pela caderneta da gestante durante à avaliação. Chegou à unidade trazida pelo vizinho de carro e acompanhada da tia do namorado às onze horas da manhã muito queixosa com dores nas costas, referindo saída de tampão mucoso. Durante a avaliação as residentes de enfermagem obstétrica que estavam de plantão constataram padrão de normalidade da progressão do trabalho de parto. A parturiente foi admitida às onze horas e trinta minutos, acomodada na sala PPP
“Brisa” apresentou-se irritadiça ao contato, queixosa, resistente a realização de exercícios de respiração. Nesse momento, foi deixada “a só consigo” respeitando o seu momento. Algum tempo depois, mais tranquila aceitou as orientações para deambular, se movimentar e trabalhar respiração.
O contato inicial com a parturiente se deu no consultório, sendo explicado o funcionamento da Casa de Parto. Após avaliação obstétrica foi informado que a sua condição era perfil do serviço, seguindo o protocolo de assistência ao parto.
Recepcionada e acomodada com cordialidade, acolhida a queixa de dores intensas. Ao solicitar ajuda tentou-se trabalhar com ela a respiração para o manejo e controle da dor, porém sem sucesso. Nesse momento, foi decidido a não insistir nos exercícios respeitando seu desejo de ficar quieta e seu processo parturitivo. No entanto, o trabalho de parto evoluiu muito rapidamente, pariu às quatorze horas e cinquenta e três minutos
“pegando de surpresa” a todas no plantão. Pelo fato de ser primípara e adolescente, esperava-se um desenrolar do trabalho de parto mais demorado ou mais lento.
Observou-se que a sua primeira reação foi a de querer segurar sua bebê em seu peito ainda ligada ao cordão, com expressão facial de quem não consegue acreditar naquilo que vê e a voz embargada não conseguiu verbalizar direito nenhuma palavra. Apenas
ficava acenando com a cabeça, como forma de responder as perguntas que lhe foram feitas. O contato pele a pele se deu desde então, evidenciando o estabelecimento do vínculo que foi explicitado pela demonstração do amor e do carinho de uma mãe tão jovem com sua bebê perfeitamente conectados um com o outro. O cordão foi clampeado somente depois de parar de pulsar, mostrando-se esbranquiçado e gelatinoso e em seguida houve a dequitação espontânea da placenta em períneo íntegro. Não houve intercorrências no puerpério, porém como estava com imunização incompleta ficou em observação até ser imunizada juntamente com a RN, após teve alta.
Esses dois relatos apontam o quanto é perceptível a existência de uma conexão entre a mulher/mãe e o RN/filho imediatamente após o nascimento, um acontecimento inato do ser humano, um momento único, um reconhecendo o outro. O período logo em seguida ao parto é considerado crítico porque a evolução do trabalho de parto e parto ocorre em necessários estresses biológicos e corporais na parturiente e concepto
“[...] quebra na homeostase do organismo como também uma resposta comportamental criada por tal desequilíbrio [...]
imposição ou percepção de uma mudança física ou ambiental, podendo ser negativa ou positiva, que elicia um espectro de mudanças fisiológicas que podem ser interpretadas como adaptativas para o organismo [...]”.29:831
Isso devido à produção de vários hormônios necessários a parte biológica do evento onde influenciam a resposta comportamental durante o partejamento. Com isso fica evidente a fisiologidade do acontecimento como uma resposta natural, porém não é possível dissociar essa parte da social, que também está no entremeio, contextualizando todas as respostas orgânicas. O imprinting que se procura abordar como descrito por Morin27 “[...] marca indelével imposta pelas primeiras experiências [...]”,27:28 está
exatamente associado às percepções subjetivas e particulares desse momento crítico, isto é, como se deu o processo na subjetividade de cada ser e ao mesmo tempo como se refletiu na interação com o outro, parte integrante da experiência, procedendo de uma trajetória anterior, mas que nesse momento de estresse e extravasamento de hormônios resultam em uma experiência jamais esquecida, levada por toda vida com desdobramentos mais ou menos positivos a depender se houve ou não interação com o recém-nascido.
As reações observadas no parto e puerpério imediato, aqui relatadas, foram às expressões de sentimentos da concretização de um processo que duraram muitos meses e que foram vividos à flor da pele, como um rito de passagem, mostrando que apesar de terem elementos em comum, como fisiologismo do parto, desejo de parir naturalmente, abordagem acolhedora. Estavam embebidos de incertezas e angústias no relato 1 e de instintos naturais no relato 2. Pela observação foi possível notar as expressões faciais nos dois casos de um reforço positivo do processo. Isso demonstra, sob a perspectiva do imprinting que sua experiência foi marcante, no sentido positivo, reforçando todo sentimento proporcionado instantaneamente, no período crítico, pelos hormônios como afirma Odent6 “[...] O curto período após o nascimento é considerado crítico porque leva em torno de uma hora para que mãe e bebê eliminem os hormônios liberados durante o trabalho de parto e o parto [...]”.6:136 Evidenciando que os vínculos foram fortalecidos com a abordagem humanizada da enfermagem onde o contato pele a pele no período crítico foi uma intervenção necessária para o acontecimento do imprinting.
Isso traz uma reflexão importante a cerca do poder de influência da assistência de enfermagem no partejamento, até onde intervenções não invasivas e/ou condutas profissionais em maior ou menor grau contribui no fortalecimento desse momento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A descoberta da capacidade e da potencialidade de parir dessas mulheres em contextos diferentes mostra que o corpo feminino quando conectado com o processo parturitivo cercado por pessoas respeitosas e um ambiente harmonioso e acolhedor é fator determinante para o sucesso desse acontecimento “parto”. Ao mesmo tempo a percepção dos semblantes, dos gestos e das reações dessas mulheres ao perceber em um primeiro olhar a sua “cria” foi carregado de muita energia, proteção, emoção, respeito e cuidado, confirmando em cada uma delas o seu imprinting. A relevância do estudo aponta a existência de uma lacuna de desconhecimento ou de não entendimento onde para muitos profissionais parece soar estranho, inclusive não acreditando que no ser humano também existe esse momento. Em vista disso o uso do termo na área da saúde ainda não é disseminado. Esse estudo inicial revelou a necessidade de dar continuidade em um segundo momento da pesquisa sobre o imprinting a partir de observações mais detalhadas com entrevistas e relatos das puérperas sobre seus sentidos, percepções, decisões e entendimentos a cerca do parto natural como uma experiência única na vida da mulher e de seu filho ao mundo.
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