3.1 A Raça do Fim
3.1.5. Acondicionamento e conservação preventiva
Figura 80- Reforço estrutural, pé direto, ©CV. Figura 81- Reforço estrutural, pé direto, ©CV.
3.1.5. Acondicionamento e conservação preventiva
Após o término da intervenção, e a fim de minimizar o risco de danos futuros, é fundamental assegurar a implementação de um plano adequado de conservação preventiva, a fim de proteger a materialidade da obra e, consequentemente, a mensagem que transmite211. Isto implica o correto acondicionamento da peça. Neste sentido, e tendo em conta as condições do espaço onde a Raça do Fim será armazenada – a reserva de cerâmica da FBAUL –, considerou-se que a opção mais viável seria a elaboração de uma caixa de acondicionamento que seguisse o modelo utilizado por Joana Rebordão Amaral, na sua proposta de implementação de novas melhorias nas condições de reserva nos Palácios Nacionais da Pena, de Queluz e de Sintra, sob tutela da Parques de Sintra-Monte da Lua212.
A reserva de cerâmica da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa localiza-se no interior da instituição, numa sala de pequenas dimensões no terceiro piso. O espaço que lhe é dedicado foi destinado para o efeito em 2016, no âmbito do projeto
CAREFUL213 e consiste numa sala rectangular, alongada, com aproximadamente 20 m2. Junto às paredes, existem estantes metálicas com cerca de 2 m de altura, cujas prateleiras
211Alice Alves & Marta Frade, “The tenth «sense» of preventive conservation: the inventory and study of
the Faculty of Fine Arts of the University of Lisbon collections”, Intangibility Matters – International Conference on the values of tangible heritage, (IMaTTe, LNEC, 2017): 182.
212 Joana Amaral, “Pensar dentro da caixa: avaliação da eficácia de embalagens em polipropileno para
acondicionamento de bens culturais”, 143.
213 O projeto CAREFUL foi implementado em 2013 e teve como objetivo implementar um plano de
94 inferiores se encontram a 10 cm de distância do pavimento. É nessas estantes que estão acondicionadas as peças que compõem o acervo de cerâmica, entre as quais parte da coleção Mercado da Fruta (fig.82). A reserva está atualmente em fase de remodelações e arrumações, sendo o próximo passo o revestimento das prateleiras com espuma de PE. A necessidade de elaborar uma caixa específica para acondicionar A Raça do Fim surge, entre outros fatores, do facto de as prateleiras não terem largura suficiente para a acomodar.
Figura 82- Estantes na Reserva de Cerâmica, antes da colocação da espuma de PE, ©CV.
Figura 83- Estantes na Reserva de Cerâmica, antes da colocação da espuma de PE, ©CV.
As caixas de acondicionamento de polipropileno alveolar branco começaram a ser utilizadas pelo Museu Nacional de Arqueologia a partir de 1999-2000, sendo também usadas internacionalmente214. Trata-se de uma forma de armazenamento bastante versátil, pois adequa-se ao acondicionamento de uma ampla variedade de objetos, assegurando a sua segurança e facilitando o acesso e manuseamento215, fatores fundamentais para a gestão eficaz de uma reserva. As caixas podem ainda ser empilhadas, o que proporciona uma utilização mais eficiente do espaço, e diminuem significativamente o impacto dos
214Ibid., 146.
215Joana Amaral, “Gestão de acervos: Proposta de abordagem para a organização de reservas” (Trabalho
de projeto de Mestrado, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2011), 48, https://run.unl.pt/handle/10362/7244
95 agentes de degradação, em especial da dissociação, dos contaminantes e das forças físicas216.
A caixa de acondicionamento foi feita a partir de uma única placa de polipropileno (PP)217 alveolar branco com 3x2m, com uma densidade de 0,9g/cm3 e espessura de 5mm. Este material é facilmente cortado com um x-ato e dobrado218. A placa foi cortada e vincada, e as laterais fixas com recurso a botões rápidos niquelados de metal. A caixa foi concebida segundo dimensões que permitissem preencher os espaços em volta e por baixo da peça com placas de espuma de polietileno (PE) 219 de baixa densidade, com 5cm de espessura. Em geral, o modelo utilizado por Joana Amaral destina-se a peças mais leves e com dimensões menores. A Raça do Fim pesa cerca de 10kg, o que implicava a necessidade de um reforço estrutural na base da caixa. Para solucionar esta questão foi utilizada uma placa de espuma rígida de poliestireno extrudido (XPS) com 4cm de espessura. Trata-se de uma material inorgânico, rígido e resistente, adequando-se, portanto, ao tipo de materiais utilizados na confecção da caixa.
A peça foi acomodada no interior da caixa com a espuma PE, tendo-se colocado placas desta espuma sob a barriga, como apoio adicional (fig.83). Para evitar que o pelo estivesse em contacto com a superfície mais rugosa da espuma, criou-se uma interface com tissue, polipropileno em rolo, de 30 g/m2 de densidade, por se tratar de um material mais macio e usado no acondicionamento de objetos taxidérmicos (fig.84).
A peça foi coberta com uma fina camada de espuma de PE em rolo, de baixa densidade, e com uma tampa feita à medida, com os materiais e a metodologia utilizados na construção da caixa. O modelo em que esta caixa de acondicionado é baseada não prevê uma forma prática de a mover. Assim, para facilitar o transporte, foram criados dois orifícios retangulares em duas das laterais, que funcionam como pegas e que permitem que a caixa seja deslocada por duas pessoas, uma vez que a peça no seu interior é pesada (fig.85).
216Joana Amaral, “Pensar dentro da caixa: avaliação da eficácia de embalagens em polipropileno para
acondicionamento de bens culturais”, 144.
217 O polipropileno (PP) é um polímero termoplástico produzido através da polimerização do gás propileno.
Trata-se de um tipo de plástico passível de ser moldado quando sujeito a temperaturas elevadas. “Polipropileno: o que é que você não pode deixar de saber”, Mais Polímeros, 2019, acedido a: 25/06/2021, http://www.maispolimeros.com.br/2019/02/11/polipropileno-o-que-e/
218 Joana Amaral, “Pensar dentro da caixa: avaliação da eficácia de embalagens em polipropileno para
acondicionamento de bens culturais”, 149.
219 O polietileno (PE) consiste numa resina termoplástica flexível, cuja obtenção resulta da polimerização
do etileno. “Polietileno (PE): conheça os tipos, as aplicações e as propriedades desta matéria-prima”, Mais
96 Estas pegas funcionam, ainda, como respiradouros, permitindo uma adequada circulação do ar. A identificação da peça no interior da caixa é feita através de uma etiqueta colada no exterior, com o título da obra e o respetivo número de inventário.
Figura 84- Pormenor de apoio adicional, espuma PE, ©CV.
Figura 85- Pormenor de interface tissue entre espuma PE e pelo de coelho, ©CV.
97 A fragilidade destas caixas reside na possibilidade de ocorrência de foto-oxidação dos botões rápidos niquelados e, por isso, é necessária a periódica monitorização do seu estado de conservação220. Tendo em conta que esta peça será armazenada na reserva de cerâmica da FBAUL, que cumpre com as normas de conservação preventiva e reúne as condições necessárias ao armazenamento de peças, essa monitorização encontra-se prevista. Salienta-se, contudo, a necessidade de assegurar a constância das condições ambientais, nomeadamente de humidade relativa e temperatura, visto que grandes variações destas condições podem originar problemas de maior impacto sobre materiais orgânicos, como a pele e o pelo de coelho221.
Figura 87 - Caixa de acondicionamento da peça A Raça do Fim, ©CV.
220Joana Amaral, “Gestão de acervos: Proposta de abordagem para a organização de reservas”, 48.
221André Luiz de Vasconcelos Medeiros, “Parâmetros para conservação e higienização do acervo
98
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A preocupação com o cuidado e a preservação das coleções pertencentes à Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa foi aumentando a par do crescimento dos seus acervos. Contudo, foi só a partir dos anos 1990 que começou a implementar-se um processo mais sistematizado de inventariação, que procurava obter uma perceção global do tipo e da quantidade de objetos222. A criação da licenciatura em Ciências da Arte e do Património, em 2008, e do mestrado em Ciências da Conservação, Restauro e Produção de Arte Contemporânea, em 2012, bem como as disciplinas dos laboratórios de Estudos Tecnológicos de Conservação e Restauro da área da Escultura, vieram abrir espaço ao desenvolvimento de atividades ligadas à conservação e restauro desenvolvidas pelos alunos. Por outro lado, a implementação do Projeto CAREFUL, cujo objetivo é implementar um plano de conservação preventiva nas coleções desta intituição, a partir de 2013, pretendeu consciencializar a comunidade académica sobre a importância da preservação das colecções pertencentes à FBAUL e fomentar a sua participação, no âmbito da criação de “estratégias para a educação e sensibilização da importância e cuidados a ter para a conservação deste património essencial para a história da educação artística em Portugal”223.
É precisamente tendo em consideração estas preocupações que se desenvolveu a intervenção na qual se centra este trabalho, que vai ao encontro dos objetivos do Projeto
CAREFUL e que procura valorizar o património artístico da FBAUL. A coleção Mercado da Fruta, em que se insere o alvo da intervenção, A Raça do Fim, foi não só uma parceria entre a Faculdade de Belas-Artes e a Câmara Municipal das Caldas da Rainha, mas também uma parceria entre alunos e professores desta casa, que, juntos, puseram, literalmente, as mãos na massa para criar um conjunto que voltasse a fazer ouvir a voz da cerâmica portuguesa, combinando popular e moderno e trazendo-a para a rua.
Contextualizada neste processo, A Raça do Fim é uma obra multifacetada em vários aspetos, quer no que diz respeito ao contexto formal e material, quer no que concerne à sua leitura. Além disso, de entre todo o conjunto da coleção, é a peça que mais se destaca,
222 Alice Alves & Marta Frade, “The tenth «sense» of preventive conservation: the inventory and study of
the Faculty of Fine Arts of the University of Lisbon collections”, 2.
223 Alice Alves et al., “A Implementação de um Plano de Conservação Preventiva para o Acervo da
99 por ser diferente de todas as restantes. Assim, também a intervenção levada a cabo teve de ser baseada numa abordagem multidisciplinar, a fim de se poder responder às necessidades do objeto, que, para além da cerâmica de que é feito, integra pele e pêlo de coelho.
A presença deste material esteve na origem de um dos principais desafios encontrados ao longo da intervenção porque a conservação e restauro de taxidermia é uma área pouco explorada em Portugal e a literatura a respeito do tema também não é abundante. Para ultrapassar esta dificuldade, foi necessário recorrer a especialistas que trabalham diariamente com objetos de taxidermia, nomeadamente, o Dr. Pedro Andrade e a Dr.ª Catarina Teixeira, do MUHNAC, que contribuíram com os seus conhecimentos e a sua experiência ao nível da biologia e das técnicas de taxidermia, e da conservação e restauro de património científico, respetivamente. A sua colaboração e o espírito de entreajuda em que se desenvolveu a intervenção foram cruciais para que se chegasse a bom termo, o que comprova a importância de uma perspetiva aberta e pluridisciplinar no âmbito das intervenções de conservação e restauro.
De modo global, a intervenção foi bem-sucedida. A única contrariedade que se verificou não ser possível ultrapassar prendia-se com um problema de dissociação, visto que um dos dedos da mão direita da escultura se tinha quebrado e foi impossível localizá-lo. Em respeito pela história material do objeto e a algumas reservas do próprio artista em relação à obra, optou-se por não proceder à reconstrução volumétrica, assumindo-se a lacuna. A caixa de acondicionamento construída para armazenar A Raça do Fim contribuirá para a prevenção de futuros danos, entre os quais os do foro dissociativo. A criação de caixas de acondicionamento semelhantes para acondicionar as restantes peças da coleção
Mercado da Fruta, pelos mesmos motivos, bem como para tornar mais eficiente a gestão do espaço da reserva de cerâmica, seria uma hipótese interessante a ponderar futuramente, especialmente tendo em conta o preocupante estado de degradação em que se encontram algumas das peças. O restauro destas obras seria um passo de importância indiscutível para valorização da coleção Mercado da Fruta e de todo o acervo de cerâmica da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
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