1.2 Enunciação e Acontecimento: espaço de projeção dos efeitos do sentido
1.2.3 Acontecimento e o funcionamento político da linguagem
Falamos que uma enunciação carrega muitas outras, que o interdiscurso é uma relação de um enunciado com outros enunciados, que um texto permite cruzamentos de discursos que sustentam sua argumentação e ainda que, assim como a organicidade, o silêncio também constitui sentidos. Tudo isso é possível porque o acontecimento enunciativo é uma prática política. Como esclarece Guimarães (2002), o político é próprio da divisão que afeta materialmente a linguagem e o acontecimento da enunciação.
Ao articular discussões propostas por Orlandi (1990), que traz o político como sendo conflito, divisão ou direção, e por Rancière (1995), que traz o político como sendo dissenso, desentendimento que leva ao litígio, à contradição, e provocado pelas diferenças no direito à fala, Guimarães (2002) explica o que ele compreende sobre o político, constitutivo do acontecimento de linguagem. Segundo o teórico,
o político, ou a política, é caracterizado pela contradição de uma normatividade que estabelece (desigualmente) uma divisão do real e uma afirmação de pertencimento dos que não estão incluídos. Deste modo, o político é um conflito entre uma divisão normativa e desigual do real e redivisão pela qual os desiguais afirmam o seu pertencimento (GUIMARÃES, 2002, p. 16)
Um exemplo do que estamos falando é o processo de nomeação que, como tal, é histórico e também político uma vez que, “uma entidade exterior à linguagem precisa adquirir pertinência social para ser nomeada” (DIAS, 2013a, p. 09). Observemos o quão político foi a nomeação do movimento, atualmente, LGBT. Quando se configurou movimento e ganhou pertinência para nomeação, o movimento era conhecido apenas como GLS (Gays, Lésbicas e
Simpatizantes), porém, com a chegada de novos adeptos com outras orientações sexuais o termo foi alterado para GLBT. Durante o XII Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Transgêneros, em 2005, incluiu oficialmente o “B” de bissexuais e convencionou que o “T” referia-se a travestis, transexuais e transgêneros. Como esclarece Simões e Facchini (2009), a sigla LGBT foi aprovada recentemente pela I Conferência Nacional GLBT, em 2008. Atentamos para o fato de a sigla, no nome do evento, começar com o G (gay) e não com L (lésbica) como é atualmente, mudança motivada pelo avanço do movimento e pela valorização das mulheres no contexto da diversidade sexual. A sigla atual (LGBT) encapsula lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e assume, ainda, outras variantes. Há ativistas que invertem a ordem das letras (colocando o “T” na frente do “B”), duplicam o “T” (para distinguir entre travestis e transexuais, por exemplo) ou acrescentam novas letras que remetem a outras identidades (como “I” de “intersexual” ou “Q” de “queer”). O que há nessa disputa de siglas, de letras e de lugar, seja em presença ou em ordem? O político, pois a língua é esse lugar de disputas de pertinência.
Assim, o funcionamento enunciativo é político porque distribui nos espaços de enunciação os lugares do dizer, isto é, há um agenciamento enunciativo que hierarquiza os lugares dos quais se fala, produzindo-se, assim, sentidos diferentes na enunciação, sentidos que se dividem, entram em conflito e sentidos que são apagados. As contradições presentes nos discursos instalam este conflito no centro do dizer.
Ainda para ilustrar o que estamos afirmando, trazemos mais um acontecimento enunciativo: dentre as pautas de luta do movimento está a criminalização da homofobia, ou crimes contra homossexuais. Entretanto, como já demonstramos, o movimento LGBT representa uma diversidade de identidades sexuais que, como tais, pretendem demarcar suas singularidades, diferença e visibilidade. Vejamos o exemplo:
Fonte: https://www.facebook.com/siteiGay?fref=ts acesso em 10/12/14
Sabemos que homossexual se refere a pessoas que se interessam por pessoas do mesmo sexo, seja mulher ou homem. Entretanto, como já demonstramos, o movimento LGBT representa diferentes tipos de identidades sexuais (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, etc) que mesmo se tratando de homossexuais, cada uma dessas identidades tem suas diferenças e singularidades e, portanto, lutam por visibilidade, respeito e direitos. Sendo assim, além de falar de homofobia faz-se pertinente falar de crimes contra as demais identidades sexuais.
Dessa forma, o político é trazido aqui para compreendermos o funcionamento da língua. Guimarães (2002) considera o acontecimento enunciativo como político, entendendo-o como conflito que se dá pela contradição que ocorre quando os não incluídos afirmam o seu pertencimento. É o que vemos no exemplo acima, vozes daqueles que não se sentem suficientemente incluídos no discurso da criminalização da homofobia e que enquanto diferentes, pleiteiam o seu lugar de pertinência.
Seguindo a mesma linha, não podemos deixar de citar a campanha desenvolvida como uma resposta ao projeto de lei 6583/13 que retrocede em relação ao reconhecimento das famílias compostas por pessoas do mesmo sexo e define família como o núcleo formado por homem, mulher e filhos. A Campanha Nacional de Apoio ao Casamento Civil Igualitário no Brasil, em parceria com a Mídia Ninja, produziu um curta-documentário para apoiar a campanha #NossaFamíliaExiste, mas antes fez uma mobilização para que famílias, independente de sua composição, se manifestassem a favor da diversidade. Para isso, esses núcleos familiares são convidados a fazerem vídeos e registrarem fotos com a afirmação:
Fonte: http://igay.ig.com.br/2014-12-17/campanha-nossa-familia-existe-pede-mudancas-no- texto-do-estatuto-da-familia.html acesso em 18/01/15
A fim de causar uma mudança no texto do Estatuto da Família (PL 6583/13), isto é, que o significado de família inclua outros modelos além daquele formado por homem e mulher, a campanha permite aos sujeitos um lugar de pertencimento não conquistado no texto legal. Através da afirmação,”#Nossa família existe”, há um protesto sobre sua exclusão, sobre a negação de sua existência.
Assim, como esclarece Guimarães (2002), o político, próprio do funcionamento da linguagem, é
contradição entre a normatividade das instituições sociais que organizam desigualmente o real e a afirmação de pertencimento do povo ao povo, em conflito com a divisão desigual do real, para redividi-lo, para refazê-lo incessantemente em nome do pertencimento de todos no todo (GUIMARÃES, 2002, p.17).
O político se materializa no nosso objeto de análise não apenas através das contradições ou dos discursos que se cruzam, mas também pelas formações nominais e suas designações que são usadas nesse espaço de enunciação.
O acontecimento de linguagem é um acontecimento político, pois se dá nos espaços de enunciação, ou seja, espaços de disputa entre sentidos, línguas e falantes. Trata –se de um espaço que os falantes estão constituídos por esta disputa e convivência das línguas e dos sentidos.
Os espaços de enunciação são espaços de funcionamento de línguas, que se dividem, redividem, se misturam, desfazem, transformam por uma disputa
incessante. São espaços “habitados” por falantes, ou seja, por sujeitos
divididos por seus direitos ao dizer e aos modos de dizer. São espaços constituídos pela equivocidade própria do acontecimento: da deontologia que organiza e distribui papéis, e do conflito, indissociado desta deontologia, que redivide o sensível, os papéis sociais. O espaço de enunciação é um espaço político [...] (GUIMARÃES, 2002, p. 18-19).
Diante da concepção de político, faz-se decisivo esclarecer que a assunção da palavra se dá em cenas enunciativas, isto é, lugar em que se dão os “modos específicos de acesso à palavra dadas as relações entre as figuras da enunciação e as formas linguísticas” (GUIMARÃES, 2002, p. 23). Em função do acontecimento enunciativo, em que os lugares são distribuídos, caracterizando-se, assim, uma deontologia particular à temporalização que se dá no acontecimento.
Os lugares enunciativos são configurações específicas do agenciamento enunciativo para “aquele que fala” e “aquele para quem se fala”. Na cena enunciativa, “aquele que fala” ou “aquele para quem se fala” não são pessoas, mas uma configuração do agenciamento enunciativo. São lugares constituídos pelos dizeres e não por pessoas donas de seu dizer (GUIMARÃES, 2002, p. 23). A cena enunciativa coloca em jogo lugares sociais do locutor, papéis enunciativos e lugares de dizer, ou seja, enunciadores.
É através da maneira de compreender os sentidos como algo que se constitui no acontecimento enunciativo, apresentada aqui, que realizaremos as análises deste trabalho tomando os documentos (pedidos, decisões, projetos de lei) como objeto histórico, como lugar privilegiado para observar as relações histórico-sociais, enquanto significadas na língua.
1.3 Enunciação e materialidade linguística: um olhar sobre as formações articulatórias