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6 SOFRIMENTO PSÍQUICO NA INFÂNCIA: HISTÓRIAS DE JOSÉ E DE

6.1 A VIDA DE JOSÉ

6.1.2 Acontecimento II: A adoção

José foi adotado ainda recém-nascido, e seus pais adotivos o foram buscar no hospital. Tiveram fácil acesso para se cadastrar para adoção e, como não manifestaram nenhuma preferência sobre cor, idade e sexo, conseguiram passar à frente de muitas pessoas na fila de adoção.

A condição de criança adotada era de conhecimento de José e foi esclarecida pela família desde o primeiro encontro, mas não verbalizada por ele nos encontros. Durante as sessões de atividades lúdicas, falava sobre o mundo à sua volta e até de pessoas que ele não conhecia, mas que tinham algum vínculo com a família que o adotara.

Na entrevista com a mãe de José, ela fez um comentário que traz elementos interessantes para compreendermos como ele vê sua situação de filho adotado. Relata a mãe que, anteriormente, José costumava falar muito sobre sua mãe biológica. Em vários momentos de sua vida, perguntava por ela, sofria, pedia para conhecê-la.

Mas a mãe informa que, desde que José começou a usar o medicamento Cloridrato de Fluoxetina, por volta dos 12 anos, parou de perguntar sobre a mãe biológica e ainda deixou claro que, quando ele quisesse conhecê-la ele falaria.

O medicamento, por ser um psicotrópico, tem, como a maioria desse tipo de medicamento, um efeito ansiolítico sobre o sistema nervoso central, mas por si só não justifica a mudança de comportamento de José. Outros acontecimentos estariam envolvidos e teriam provocado essa mudança?

No encontro do dia 25-10-2011, quando José comentou sobre sua criação em meio a pessoas adultas, a pesquisadora perguntou se sentia falta de criança. Como resposta, ele falou sobre a irmã que, nessa época, tinha em torno de 25 anos. Comentou de uma ideia “muito louca” que teve: “Eu tive uma ideia muito louca. Minha irmã me trata como mãe. Ela é perfeita!”.

A ideia “muito louca” de José suscitou-nos questionamentos: estaria mais feliz com a irmã como mãe do que com a própria mãe adotiva? Seria uma criança com três mães? A biológica, a mãe adotiva e a irmã também como mãe: “Ela é perfeita”. Os pais com idade avançada só “pensavam em viajar”. José não queria viajar para ficar com a irmã-mãe que, na época de sua adoção, era a mais jovem dentre os irmãos por parte de mãe adotiva?

Com o objetivo de obtermos mais elementos para compreender os sentidos que perpassavam essa fala de José, buscamos informações na entrevista concedida pela mãe.

A mãe fala da relação de sua filha com José como de muito carinho, caracterizada por um tipo de relação mãe-filho. Relata que as brincadeiras de José com a irmã, a mais jovem da família, se aproximavam mais de brincadeiras infantis.

É possível que o contato com a irmã-mãe lhe tenha trazido alívio, potência e novas expectativas em relação à vida, em frente às vivências tão funestas a que sua vida esteve exposta desde os três anos de idade, quando se iniciaram – ou se intensificaram – os acontecimentos de perdas em sua vida.

Diante da insistência de José em conhecer a mãe biológica, seus pais possibilitaram esse contato. No encontro do dia 22 de maio de 2012, José fala espontaneamente do assunto.

José: Eu conheci minha mãe: Joana. Meus pais procuraram e acharam a minha mãe da barriga.

[...]

Pesquisadora: Quando você conversou com sua mãe biológica, a da barriga, ela tratou você bem? Abraçou, beijou e explicou por que não pôde criar você?

José: Sim, porque ela queria melhor condição de vida para mim.

Pesquisadora: Uma família que pudesse dar a você educação, viagens, conhecimentos.

José: Mas eu não gosto de viagens.

Pesquisadora: Eu sei que você não gosta de viagens. E você pensa em voltar para sua família biológica?

José: Só para aborrecer, para a mamãe chorar, eu falo isto, só por brincadeira [risos].

Pesquisadora: Para ter certeza de que ela gosta de você?

José: Certeza eu tenho, é só por brincadeira (Encontro do dia 22-5-2012).

Esse encontro com a mãe biológica pedido e adiado em vários momentos, segundo a família, é o encontro fundamental de um ser humano com a sua origem, com a mãe que possibilitou sua presença no mundo e que poderia contar a sua versão da história da vida, um saber de sua origem pela fala de quem o gerou.

Conforme indica o diálogo transcrito, esse encontro permitiu a José saber por que sua mãe o “abandonara”, qual o motivo de não poder criá-lo, um motivo aceito socialmente, que é o da impossibilidade de dar a ele alimentos e estudo, que foi o que ele ouviu dela, mas também o do desejo de bem-estar para ele, desejo “oficial” de mãe. Também possibilitou a José pensar o seu comportamento de aborrecer a

mãe que o adotou e se certificar de seu amor. Consideramos um momento importante de escolha na vida dessa criança.

Podemos pensar nesse momento como de integração, de fio condutor e de ampliação da percepção de seu comportamento. A emergência de uma percepção de que sua família é maior, mais ampla, embora os laços sejam mais próximos com o pai e a mãe adotivos e os irmãos e a irmã adotiva do que com sua mãe biológica e seus irmãos biológicos. Em maio de 2012, a vivência das experiências do abandono da mãe, da adoção e do reencontro com a mãe biológica parece se integrar em uma nova configuração que possibilita a José ultrapassar, se perceber de outra forma, como filho adotivo.

Em seu desenho realizado em 22-5-2012, ao representar o sentimento de força, potência de vida, ele retrata a família que o adotou e sua família biológica. Incluiu-se com sua representação de braços levantados nesse desenho (Figura 1).