2.4 Interac¸c˜ao electr˜ao–rede
2.4.1 Acoplamento linear a um modo vibracional
Considere–se agora o acoplamento electr˜ao–rede para um ´unico modo de vibra¸c˜ao da rede, supondo que o acoplamento ´e linear, isto ´e, a expans˜ao de Ven (equa¸c˜ao 2.23)
´e truncada ap´os o termo linear. Designe–se por φf m e φen os estados electr´onicos fundamental e excitado do defeito, nos quais m e n representam o n´umero de quanta de energia de vibra¸c˜ao em cada estado. Com base nas equa¸c˜oes 2.25 e 2.28 podem escrever–se as energias destes dois estados na forma:
Ef = 1
2mw2Q2 (2.30)
Ee =Ee(0) +AQ+ 1
2mw2Q2 =Ee(0)− 1 2
A2 mw2 +1
2mw2(Q−Q0)2 (2.31) em que Q0 =−A/mw2. Tal como se mostra na equa¸c˜ao anterior, a energia do estado excitado pode ser escrita de forma a explicitar o novo ponto de equil´ıbrio, Q0, para as vibra¸c˜oes neste estado. A vibra¸c˜ao em torno deste novo ponto de equil´ıbrio traduz–se num abaixamento da energia do estado excitado relativamente `a vibra¸c˜ao em torno do ponto de equil´ıbrio do estado fundamental. Esta quantidade ´e designada de energia de relaxa¸c˜ao e ´e dada por:
Er= 1 2
A2
mw2 =S~w (2.32)
em queEr foi escrita em fun¸c˜ao de um parˆametro adimensional,S, designado de factor de Huang–Rhys, e que mede a intensidade do acoplamento (energia de relaxa¸c˜ao em unidades de~w).
No pressuposto considerado de que o acoplamento ´e linear a frequˆencia de vibra¸c˜ao da rede nos dois estados electr´onicos ´e a mesma.
As fun¸c˜oes pr´oprias do hamiltoniano nuclear para o estado fundamental s˜ao escritas na forma (Keil, 1965):
ψf m(Q) =
r a
√π2mm! e−a22Q2 Hm[a Q] (2.33) em que a = p
mw/~ e Hm[z] ´e um polin´omio de Hermite. As energias pr´oprias correspondentes s˜ao dadas por:
ξf m = µ
m+1 2
¶
~w (2.34)
No caso do estado excitado as solu¸c˜oes para o movimento vibracional s˜ao (Keil, 1965):
ψen(Q) =
r a
√π2nn! e−a2 (Q−Q0)
2
2 Hn[a(Q−Q0)] (2.35) com energias associadas:
ξen =Ee(0)− 1 2
A2 mw2 +
µ n+1
2
¶
~w=E0+ µ
n+ 1 2
¶
~w (2.36)
em que E0 = Ee(0) − 2mwA22 = Ee(0)− 12mw2Q20 ´e a separa¸c˜ao entre os m´ınimos de energia dos estados excitado e fundamental.
A representa¸c˜ao destes dois estados ´e feita utilizando o modelo da coordenada configuracional e est´a indicada na figura 2.5. As transi¸c˜oes de zero fon˜oes s˜ao aquelas que n˜ao implicam mudan¸ca no estado vibracional do sistema. Em termos de fun¸c˜oes de onda este comportamento ´e traduzido pela igualdadem=n. Nas transi¸c˜oes para as quais existe excita¸c˜ao de fon˜oes, o n´ıvel vibracional da rede aumenta com a transi¸c˜ao o que, no caso de luminescˆencia, conduz a m > n. Na absor¸c˜ao de fon˜oes sucede o oposto.
O aumento na intensidade do acoplamento electr˜ao–fon˜ao leva a que a separa¸c˜ao Q0 entre as posi¸c˜oes de equil´ıbrio do movimento vibracional nos dois estados, aumente tamb´em. A energia de relaxa¸c˜ao sofre a varia¸c˜ao correspondente. No que respeita
`a intensidade relativa da linha de zero fon˜oes observa–se uma diminui¸c˜ao com o au-mento do acoplaau-mento. Mais `a frente esta varia¸c˜ao de intensidades ser´a discutida em pormenor para a gama de baixas temperaturas (kT ¿~w).
Em torno de cada defeito existem N ´atomos pelo que existir˜ao 3N-6 modos de vibra¸c˜ao da rede. No entanto, um electr˜ao ligado ao defeito ser´a muito mais afectado pelo movimento de um ´atomo na vizinhan¸ca do defeito do que pelo movimento de um
´atomo mais afastado. No modelo da coordenada configuracional considera–se que as
Figura 2.5: Diagrama de coordenada configuracional para dois estados electr´onicos Ee e Ef para acoplamento electr˜ao–rede linear. Para cada estado s˜ao representados alguns n´ıveis vibracionais. Neste modelo a separa¸c˜ao entre n´ıveis vibracionais dos dois estados ´e constante e igual a ~w.
contribui¸c˜oes para o termoVense devem fundamentalmente a um pequeno n´umero de pr´oximos vizinhos.
Tendo considerado para o defeito n´ıveis n˜ao degenerados orbitalmente o modo da rede considerado pode ser visto como um modo totalmente sim´etrico no qual os
´atomos da vizinhan¸ca do defeito executam um movimento radial centrado no defeito e no mesmo sentido. Este modo ´e muitas vezes designado de respirat´orio.
Analise–se a forma do espectro correspondente `a transi¸c˜ao ´optica entre um estado excitado|Ψeie o estado fundamental |Ψfi. Cada um destes estados possui diferentes n´ıveis vibracionais (figura 2.5). Uma dada transi¸c˜ao envolve um n´ıvel vibracional par-ticular em cada estado. Assim, a probabilidade total de transi¸c˜ao entre os dois estados a uma temperatura n˜ao nulaT ´e dada pela soma das probabilidades de transi¸c˜ao entre todas as combina¸c˜oes poss´ıveis de n´ıveis vibracionais n em dos dois estados, pesadas pela probabilidade de ocupa¸c˜aopn de cada n´ıvel do estado excitado:
We→f(hν) = X
n,m
pnWen→f m(hν) (2.37)
onde pn ´e dada por
pn= exp£
−¡
n+12¢~w
kT
¤ X∞
n=0
exp
·
− µ
n+1 2
¶~w kT
¸ (2.38)
eWen→f m(hν) representa a probabilidade de transi¸c˜ao do n´ıvel vibracionalndo estado excitado (|Ψeni) para o n´ıvel vibracional m do estado fundamental (|Ψf mi) e ´e dada pela equa¸c˜ao 2.18:
Wen→f m(hν)∝ν3 |hΨf m|ˆe·~r|Ψeni|2 δ(hν−Een+Ef m) (2.39) Por facilidade de apresenta¸c˜ao dos c´alculos consideremos daqui em diante que Wen→f m(hν) ´e dada pela express˜ao
Wen→f m(hν) =|hΨf m|ˆe·~r|Ψeni|2 δ(hν−Een+Ef m) (2.40) tendo, no entanto, sempre em mente que a forma correcta para esta probabilidade de transi¸c˜ao ´e 2.39 e n˜ao a anterior.
Seja um n´ıvel vibracional particular do estado excitado. As transi¸c˜oes a partir deste n´ıvel ocorrem para os v´arios n´ıveis vibracionais do estado fundamental sem que ocorra varia¸c˜ao da coordenada configuracional. O espectro de emiss˜ao corresponde pois n˜ao a uma ´unica transi¸c˜ao mas a um conjunto de muitas transi¸c˜oes com energias diferentes.
De acordo com a aproxima¸c˜ao de Born–Oppenheimer o elemento de matriz de transi¸c˜ao em 2.40 ´e dado por:
hΨf m|ˆe·~r|Ψeni= Z ·Z
φ∗f(~r, Q) (ˆe·~r) φe(~r, Q)d~r
¸
ψf m∗ (Q)ψen(Q−Q0)dQ (2.41) Considere–se a expans˜ao em s´erie do integral dependente dos estados electr´onicos em torno das posi¸c˜oes nucleares de equil´ıbrio. Uma vez que os estados electr´onicos s˜ao quase independentes das coordenadas nucleares tal como o operador momento dipolar el´ectrico, a aproxima¸c˜ao de Condon permite–nos reter unicamente o termo de ordem
zero o qual depende das posi¸c˜oes nucleares de equil´ıbrio. Desta forma, a equa¸c˜ao 2.41 toma a forma:
hΨf m|ˆe·~r|Ψeni=hφf|ˆe·~r|φei hψf m|ψeni (2.42) em que o integral electr´onico ´e uma constante.
A probabilidade total de transi¸c˜ao toma ent˜ao a forma:
We→f(hν) = X
n,m
pn |hψf m|ψeni|2δ(hν−Een+Ef m) (2.43) Introduzindo p=m−n e definindo
Wp =X
n
pn¯
¯hψf(n+p)|ψeni¯
¯2 (2.44)
a probabilidade de transi¸c˜ao 2.43 fica dada por:
We→f(hν) = X
p
Wpδ(hν−E0+p~w) (2.45)
Torna–se evidente que a forma do espectro depende do somat´orio anterior. A emiss˜ao corresponde a um conjunto de linhas caracterizadas por um valor inteiro, positivo ou negativo, de p. A energia de cada transi¸c˜ao ´e dada por:
hν =E0−p~w (2.46)
A intensidade de cada linha ´e proporcional a Wp. Cada linha ´e formada pela sobreposi¸c˜ao de todas as transi¸c˜oes nas quais p toma o mesmo valor. Assim, a linha com p = 0 (linha de zero fon˜oes) corresponde `a sobreposi¸c˜ao de todas as transi¸c˜oes nas quais n˜ao ocorre varia¸c˜ao do n´ıvel de vibra¸c˜ao dos dois estados envolvidos.
Para uma temperatura finita,Wp toma o valor (Keil, 1965):
Wp(T) = exp
·p~w
2kT −Scoth µ ~w
2kT
¶¸
Ip
· Scsch
µ ~w 2kT
¶¸
(2.47) em que Ip(z) ´e a fun¸c˜ao de Bessel do primeiro tipo com argumento complexo.
Para temperaturas baixas (kT ¿~w) somente o n´ıvel n= 0 do estado excitado se encontra ocupado, dondep0 = 1 epn = 0 paran ≥1. As transi¸c˜oes poss´ıveis ocorrem a partir deste n´ıvel para osm n´ıveis vibracionais do estado fundamental. Como nesta gama de temperaturas a energia t´ermica n˜ao ´e suficiente para que n´ıveis vibracionais
do estado excitado, com n 6= 0, estejam ocupados, a transi¸c˜ao para o n´ıvel m = 0 do estado fundamental corresponde `a transi¸c˜ao de maior energia. As restantes transi¸c˜oes para m6= 0 situam–se para menores energias. Para esta situa¸c˜ao, Wp corresponde ao quadrado do integral de sobreposi¸c˜ao das fun¸c˜oes nucleares constituindo uma distri-bui¸c˜ao de Poisson dada por (Keil, 1965):
Wp =|hψf p|ψe0i|2 = e−SSp
p! (2.48)
A intensidade relativa da linha de zero fon˜oes (p= 0) ´e tanto maior quanto menor for o acoplamento electr˜ao–rede. A “intensidade”deste acoplamento ´e medida pelo factor de Huang–Rhys, S. Na figura 2.6 mostra–se a varia¸c˜ao em S do espectro de emiss˜ao te´orico para temperaturas baixas. A linha de ordempcorresponde ao conjunto de todas as transi¸c˜oes nas quais a varia¸c˜ao de quanta de energia vibracional ´e igual a p. Para um acoplamento forte a envolvente das v´arias transi¸c˜oes aproxima–se da forma gaussiana tendo o m´aximo para p'S.
A partir da figura 2.6 verifica–se que com o aumento de S a intensidade da linha para p= 0 diminui progressivamente. A emiss˜ao ´e dominada pela linha de zero fon˜oes para valores pequenos de S (<1), enquanto para valores elevados deS a linha de zero fon˜oes tem uma intensidade muito baixa. Neste ´ultimo caso, toda a intensidade da emiss˜ao surge nas linhas que envolvem a participa¸c˜ao de fon˜oes e a emiss˜ao tende para a forma gaussiana.