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O acordo com a DEA e o desfecho da disputa com o governo estadunidense

Capítulo 4 Sobre direitos e riscos: a regulamentação da ayahuasca para uso

4.5. O acordo com a DEA e o desfecho da disputa com o governo estadunidense

Após a decisão da Suprema Corte favorável à UDV, a questão de como o uso religioso da ayahuasca seria administrado ou regulado permaneceu em aberto. Assim, o caso foi enviado para o Tribunal do 10º Circuito que havia expedido a decisão inicial, o qual decidiu que a UDV e o DEA deveriam negociar um acordo. Bronfman salientou que a necessidade de estabelecer um acordo deveu-se ao enquadramento da ayahuasca como uma substância controlada, cuja importação, distribuição e utilização estaria sujeita a certas regulamentações, procedimentos e controles do DEA. De acordo com Bronfman (2013, p. 4), a UDV escolheu não apelar do posicionamento da corte, optando buscar uma relação de cooperação com o governo federal e as agências governamentais responsáveis pelo cumprimento das leis de drogas do país68.

Logo, um acordo foi estabelecido, culminando em um documento de vinte e uma páginas que definiu quais regulamentos relacionados ao uso de substâncias controladas seriam aplicados à UDV. Antes de adentrar nos termos do documento, é necessário destacar que o estabelecimento de um acordo não implicou uma concessão de ambas as partes sobre os pontos principais da disputa. De um lado, a UDV manteve a todo momento a posição de que, enquanto religião, suas práticas não poderiam ser reguladas de modo apropriado por funcionários do governo. No entanto, a instituição concordou em acomodar muitas de suas atividades aos procedimentos da DEA69. Em contrapartida, a

DEA afirmou que, apesar de concordar em procurar uma saída amigável para o problema, não tinha intenção de abrir mão de sua posição inicial de que o uso de substâncias controladas não era passível de exceções. Assim, ficou estabelecido que o acordo não

68 Segundo informações providas por Bronfman, doze comunidades religiosas ligadas à UDV nos Estados Unidos possuem, atualmente, registro junto à DEA como importadores licenciados, fabricantes e distribuidores de um produto pertencente a Lista 1 de Substâncias Controladas.

69 É importante frisar que a NAC, que também utiliza uma substância controlada em suas cerimônias, é isenta de regulamentação e, portanto, suas práticas não estão sujeitas a qualquer dos códigos de regulação da DEA (BRONFMAN, 2013, p. 6).

barraria qualquer agência governamental de aplicar as leis do país à UDV e seus membros, com exceção à não aplicação do CSA ao uso religioso da Hoasca (ESTADOS UNIDOS, 2010, p. 3-4).

Como parte do acordo, a UDV concordou em obedecer a certas práticas exigidas a farmácias e pesquisadores ao importar, distribuir e armazenar substâncias controladas. Por outro lado, a DEA concordou em não impor ou esperar que a UDV adequasse suas práticas a outros regulamentos que são aplicados a licenciados não religiosos. Um dos exemplos citados por Bronfman (2013, p. 5) diz respeito ao código de regulamentos federais, o qual requer que importadores e distribuidores de substâncias controladas registrem a “potência de dosagem” de cada lote de um medicamento que está sendo importado, com base nos níveis e concentrações dos compostos ativos que são considerados de uso controlado. No caso em questão, esse requisito não se aplicaria à UDV.

Outro exemplo significativo apresentado pelo dirigente da UDV é que os regulamentos federais concedem autoridade ao DEA para o licenciamento específico daqueles que distribuem substâncias controladas dentro de um centro de tratamento de narcóticos. Segundo Bronfman, seria inadmissível estender a mesma autoridade para o caso da UDV, pois seria dado o direito ao DEA para determinar quem poderia ou não ser um “Mestre”, o líder religioso que ministra o sacramento aos membros da igreja durante as cerimônias. Assim, por meio de negociações entre as instituições, ficou determinado que a autoridade de licenciamento para distribuição pelo DEA seria inaplicável a atividades religiosas da UDV.

Partindo da leitura do documento, é possível notar um descompasso com as medidas estabelecidas pelo acordo e o modus operandi da DEA para regulamentar substâncias controladas. A exceção à aplicação do CSA ao uso da ayahuasca garantida pela Suprema Corte obrigou a agência antidrogas a acomodar as práticas da UDV em um acordo no qual alguns elementos foram negociados segundo as necessidades e posicionamentos de ambas as partes. De um lado, a DEA tentou instaurar mecanismos de controle e fiscalização previamente estabelecidos. De outro, teve que abrir mão de algumas formas de controle, como a escolha de pessoas para ministrar a bebida e até mesmo da linguagem utilizada em suas normatividades, tendo em vista que as noções como “potência” e “concentração” foram destituídas de sua aplicabilidade.

O que parece um descompasso pode ser entendido como o resultado da necessidade de se estabelecer uma normatividade quando duas partes divergem sobre pontos essenciais da disputa, tanto em termos da forma como a norma é cumprida, mas também no nível semântico e na própria aplicabilidade, ou não, de certas categorias e termos. Tal configuração diverge substancialmente do caso brasileiro. Conforme indiquei anteriormente (ANTUNES 2012, 2015), uma vez consolidada a concepção do uso da ayahuasca enquanto uma tradição cultural e religiosa, a categorização da bebida enquanto droga perdeu força no âmbito das políticas públicas, sendo excluída definitivamente dos pareceres do CONAD a partir dos anos 2000. Assim, a consolidação da categorização da bebida a partir da noção de sacramento, elemento central de uma tradição religiosa e cultural, implicou na exclusão normativa de noções associadas ao uso de psicoativos. Diferentemente, o caso da UDV no estado do Novo México se trata de uma normatividade cujo objetivo seria estabelecer mecanismos para a inclusão de uma droga nos critérios de regulamentação de substâncias controladas, adequando as medidas e a linguagem do acordo às vicissitudes e negociações decorrentes entre as partes.