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Acordo de 1988 : Antecedentes e Justificativas

Capítulo 2 Transformações dos Mercados Financeiros

3.2 Acordo de 1988 : Antecedentes e Justificativas

Em meados dos oitentas, houve uma demanda por parte dos bancos centrais do G10 ao Comitê da Basiléia no sentido de acessarem a comparabilidade das diferentes formas de adequação de capital usadas por países membros e organizarem recomendações de mensuração, além do desenvolvimento de padrões mínimos de adequação de capital93. A origem da preocupação dos bancos centrais era a fragilização dos bancos em função de seu elevado grau de exposição às dívidas dos países menos desenvolvidos, além do crescimento das operações off-balance (cartas de crédito, garantias a empréstimos e derivativos), que não eram bem capturadas pelos requerimentos de capital tradicionais, baseadas em ativos explícitos nos balanços.

A exigência de adequação de capital é um dos instrumentos mais utilizados por reguladores, na busca por solvência das instituições e solidez do sistema bancário. A idéia é que estes requerimentos fazem com que os bancos mantenham montantes mínimos de capital, em geral relacionados aos riscos dos ativos que mantêm em carteira. Procura-se garantir que, em caso de falência, existam mais recursos para serem distribuídos entre credores dos bancos, ou seja, o capital atuaria enquanto colchão amortecedor em casos de crise de insolvência da instituição, gerando assim mais segurança aos depositantes do sistema como um todo. Mais do que colchão amortecedor em situações de crise, a existência deste capital tem a função de amortecer eventuais perdas em função de problemas de pagamento dos devedores, em especial quando se consideram as diferenças entre os timings de ativos e passivos de instituições bancárias. Na ausência desta relação mínima entre capital e ativos, em situações de crise as perdas impetradas aos acionistas dos

93 O Comitê da Basiléia foi montado em 1974 pelos governadores do banco centrais do G10, como Comitê de

Regulação Bancária e Práticas de Supervisão, em meio à crise financeira ocasionada pela falências dos bancos do Continental e Bankhaus Hersattat e à crescente internacionalização dos bancos (Moffit, 1984; De Nederlandschebank, 2001). O Comitê, que não assumiria nenhum papel formal de autoridade supervisória internacional, teria como objetivos iniciais a cooperação internacional de forma a cobrir gaps da rede de supervisão e a melhora da compreensão e qualidade da supervisão bancária. Tais objetivos seriam acessados a partir de três caminhos básicos : troca de informações entre agentes supervisores, melhoria das técnicas de supervisão de bancos atuantes internacionalmente e por fim estabelecimento de padrões mínimos de supervisão. No primeiro documento publicado, o Basle Concordat de 1975, estabelecia-se como princípios centrais do trabalho do Comitê que nenhum banco internacional poderia escapar da supervisão e esta deveria ser adequada. Alguns autores minimizam a importância dos trabalhos em torno do comitê, como os Concordats (1975 e 1983) e o princípio de consolidação. Kapstein (1991) argumenta que, ao contrário, estes acordos teriam significado o primeiro momento de um processo de cooperação internacional quanto à regulação bancária.

bancos seriam mais elevadas, esperando-se assim um comportamento menos arriscado (ou mais seguro) destes.

Diante do contexto levantado acima, o Comitê desenvolveu um sistema para mensuração de capital, visando a padronização desta nos países do G-10. No entanto, em um primeiro momento, as negociações internacionais para adoção de uma estrutura comum não foram bem sucedidas94.

Segundo Kapstein, dois grupos de questões permeavam as negociações entre bancos centrais e bancos em torno do acordo de convergência. Por um lado, havia conflitos entre os bancos centrais quanto ao que deveria efetivamente ser entendido como capital dos bancos e quanto estes deveriam manter como requerimentos, a despeito da percepção generalizada da fragilização dos níveis de capital dos bancos. Por outro, percebia-se que as diferenças nacionais quanto aos requerimentos mínimos de capital eram usadas como vantagens competitivas por alguns bancos95 (1991; p.1).

O Acordo da Basiléia foi concluído em 1988, elaborado pelos governadores dos bancos centrais do G10 no âmbito do Comitê da Basiléia, instituindo a convergência internacional dos mecanismos de adequação de capital. Este novo conjunto de regras deveria ser incorporado ao conjunto de regulamentações vigentes em cada país membro de forma definitiva a partir do final de 1992.96 Segundo o Comitê, os objetivos do esforço de

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O fracasso inicial das negociações em torno da padronização dos requerimentos de capital no âmbito do G10 motivou a realização de acordo bilateral entre os EUA e a Inglaterra. Este acordo definiu o conceito de capital para objetivos de regulação e estabeleceu pesos para ativos de balanço e compromissos off-balance, sendo que a ponderação de riscos enfatizava a idéia de risco de crédito. Este acordo acabou por abrir caminho para a continuação do desenvolvimento do acordo do Comitê para adequação de capital, que foi anunciado em 1988. (Herring & Litan, 1995; p.108). Em uma leitura mais “politizada” deste processo, Kapstein (1991; p.2) vê este acordo bilateral como uma forma dos EUA colocarem a discussão da adequação de capital na agenda internacional. Tal acordo teria servido para seus propósitos, uma vez que a criação de zonas de exclusão colocaria em situação desvantajosa os bancos internacionais de outros países, o que acabou estimulando os bancos centrais do Japão, França e Alemanha a aceitarem a importância de uma acordo internacional. Sendo assim, o Acordo explicitaria a capacidade norte-americana de dar o tom das políticas de relações internacionais.

95 Bancos europeus e norte-americanos teriam sido bastante simpáticos aos esforços de convergência de regras

quanto à adequação de capital, uma vez que viam nesta a possibilidade de restringir o crescimento dos bancos japoneses. Estes teriam vantagens competitivas uma vez que a regulação do sistema bancário japonês colocaria restrições menores quanto à adequação de capital. Desta forma, o forte crescimento destes bancos no período anterior poderia ser entendido pela regulamentação japonesa, que permitia a estes a realização de operações com maior nível de alavancagem do que os permitidos aos bancos ocidentais (Herring & Litan, 1995).

convergência da regulação seriam dois. Em primeiro lugar, a nova estrutura deveria reforçar a solidez e a estabilidade do sistema bancário internacional. Ao lado disto, a nova estrutura de regras deveria ser justa e consistente de forma que sua aplicação a bancos de diferentes países minimizasse desigualdades competitivas entre bancos internacionais97 (BCBS, 1988). Em outras palavras, a lógica da nova estrutura seria garantir melhorias na solidez e saúde do sistema através da capitalização suficiente em função do risco de crédito intrínseco às suas carteiras, além de competição saudável. Por um lado, se é possível relacionar níveis de capital e solidez do sistema, uma vez que bancos mais capitalizados têm maior disponibilidade de recursos para absorver perdas não esperadas, a existência de padrões mínimos de capitalização contribui para a estabilidade do sistema. Por outro, a convergência ou padronização da adequação de capital contribui para melhorias nas condições de competição entre bancos que, a despeito de terem diferentes origens nacionais, operam internacionalmente. Assim, a racionalidade das novas regras seria a

padronização do mínimo de capitalização saudável.