4.3 CONHECIMENTOS TRADICIONAIS E RECURSOS GENÉTICOS SOB A
4.3.1 Debates no âmbito da Organização Mundial da Propriedade
4.3.2.1 Acordo Sobre Aspectos Dos Direitos De Propriedade Intelectual
Temos ainda no campo internacional harmonizando as formas de preservação da PI o Acordo Sobre Aspectos Dos Direitos De Propriedade Intelectual Relacionados Ao Comércio – Acordo TRIPS, que é considerado um dos pilares do comércio internacional, o qual delimita padrões de proteção para a proteção da propriedade intelectual a serem adotados pelos países-membros da OMC, organização à qual pertence (SANTILLI, 2013).
A diferença entre o TRIPS e as demais Convenções que cuidavam do tema anteriormente é que esse novo acordo estipula normas mínimas de proteção a serem empregadas em quase todas as áreas da PI, e como a OMC é de caráter universal, todos os países signatários devem cumprir as normas estabelecidas pela Organização (CORREA, 2004).
O TRIPS nasceu na Rodada de Negociações Multilaterais do Comércio elaborada pelo GATT em 1986, mais conhecida como Rodada Uruguai, após grande insistência por parte dos Estados Unidos da América – EUA, e sua adoção contou com forte resistência dos países em desenvolvimento. Nessa Rodada, finalizada em 1994, ficou estabelecido que o tratamento da PI abarcaria os direitos do autor, as
marcas, as indicações geográficas, os desenhos industriais, a topografia de circuitos integrados e as patentes. O Brasil é participante do Acordo TRIPS desde o início de sua constituição (DEL NERO, 2004).
Consoante Correa (2004), as nações em desenvolvimento aderiram à negociação do TRIPS com certo receio e algumas expectativas. Uma das maiores preocupações desses países era a diferença na capacidade de pesquisa e desenvolvimento - P&D - entre elas e os países industrializados, tendo em vista que as nações desenvolvidas concentravam 90% da capacidade mundial de gerar ciência e tecnologia. Com as novas normas de proteção da PI, os países em desenvolvimento não poderiam mais utilizar da imitação de tecnologia, fator que determinou o crescimento e a industrialização de países asiáticos nos anos anteriores, como Japão e Coreia do Sul.
Outra preocupação das nações não industrializadas era acerca do fluxo de transferência de tecnologia e de inversão direta estrangeira. Segundo os países de primeiro mundo, com a adesão do Acordo esse fluxo aumentaria, porém tal argumentação não teve nenhuma fundamentação teórica ou empírica (CORREA, 2004).
Quanto às expectativas dos países em desenvolvimento perante a assinatura do TRIPS, temos a visão de umas dessas nações de que o Acordo seria um preço que as mesmas deveriam pagar para obter entrada comercial em outros terrenos, como na agricultura e no setor têxtil; então, a expectativa seria a de obter um maior acesso aos mercados dos Estados industrializados. Pode-se observar atualmente que essa perspectiva não foi realizada, visto que muitos dos países não industrializados continuam excluídos dos mercados aos quais almejavam (CORREA, 2004).
Ainda conforme Correa (2004), a segunda expectativa era a da pacificação das ameaças unilaterais e das sanções comerciais advindas dos conflitos que algumas nações em desenvolvimento tinham com os EUA na área da PI. Conforme o acordo TRIPS, o mesmo serviria também como redutor das tensões internacionais provocadas pela propriedade intelectual.
Hoje se pode notar que muitas das preocupações das nações em desenvolvimento foram confirmadas. Mesmo havendo conseguido algumas flexibilidades no Acordo, esses países são impossibilitados de utilizar tais atos
flexíveis, pois quando os desejam utilizar acabam sofrendo sanções dos países industrializados (CORREA, 2004).
Entende o mesmo autor que até pouco tempo atrás o sistema internacional de propriedade intelectual era bastante flexível, sendo que cada país poderia escolher suas próprias condições e interesses dentro do sistema em vigência. No entanto, a partir da adoção do Acordo Sobre Aspectos Dos Direitos De Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio no âmbito da OMC, esse cenário de flexibilidade mudou completamente.
O objetivo do TRIPS é o de garantir a retribuição aos inventores de criações e de inovações (MOREIRA, E., 2013b). Consoante Del Nero (2004), o objetivo do acordo não é apenas o de regulamentar a propriedade intelectual, mas também o de instaurar um “Sistema Internacional de Patentes”. Carvalho (2004) observa que o escopo do TRIPS é a estipulação de patamares mínimos (patentes e sistemas sui generis) de proteção à propriedade intelectual.
Uma das regras estipuladas pelo TRIPS é a duração mínima de 20 anos para as patentes de invenção. Outras áreas que também obtiveram período mínimo de proteção foram as de programas de computador, marcas e direitos de autor. Caso um país-membro da OMC não queira adotar essas determinações, ele corre o risco de enfrentar uma disputa no órgão de solução de controvérsias da organização e até mesmo sanções comerciais (CORREA, 2004).
Apesar desses padrões mínimos de garantias e direitos que o Acordo estabelece, os Estados-membros podem instituir em suas legislações nacionais uma proteção mais extensa, observando sempre os princípios de tratamento nacional e de nação mais favorecida aos demais assinantes do acordo. No entanto, o efeito dessa proteção é limitado ao território do Estado que a aplicou (ADIERS, 2013).
O acordo TRIPS permite algumas flexibilidades a países em desenvolvimento, como, por exemplo, a concessão do Estado para que uma criação patenteada possa ser utilizada por um indivíduo ainda que contra a vontade do detentor do registro da mesma, mediante pagamento de direitos. Essas flexibilidades são de uso facultativo dos países-membros; teoricamente, aqueles que as utilizam aumentam a margem de concorrência, mantendo a plena proteção da propriedade intelectual, objetivo do Acordo (CORREA, 2004).
No que toca às plantas e animais e também aos procedimentos biológicos para obtê-los, o TRIPS deixou à escolha de cada país sua proteção ou não. Porém o
mesmo afirma que os países devem proteger os microorganismos e as variedades de plantas, concedendo direitos particulares ao titular (ADIERS, 2013).
Como o TRIPS presume mecanismos de prevenção e solução de controvérsias, existe assim a possibilidade de legitimar retaliações contra países- membros da OMC que se façam inadimplentes, ou seja, caso um país-membro não cumpra o acordo, o mesmo pode vir a sofrer sanções na esfera comercial (MOREIRA, E., 2013b); no domínio da OMPI, porém, não existe mecanismo que atue na mesma direção, como não existe também na esfera da CDB, visto que a mesma é considerada soft norm (ADIERS, 2013).
Segundo Rocha (2013, p.12-13), “as regras de proteção da propriedade intelectual pautadas pelo Sistema TRIPS, embora editado posteriormente à CDB, silenciam quanto à proteção do conhecimento tradicional associado à biodiversidade”. Há ainda limites dentro do TRIPS que afastam a possibilidade de acesso das comunidades tradicionais à proteção de seus saberes, como as exigências técnicas para registro de patentes e o baixo tempo médio de proteção (20 anos) ao patrimônio cultural, haja vista que os conhecimentos tradicionais são gerados ao longo do tempo (ROCHA, 2013). No entanto, conforma Maia (2013), discussões acerca do tema foram e continuam sendo incorporadas ao tratado, como será visto mais a frente, no item 4.3.2.2.
A parte b do parágrafo 3 do artigo 27 concede aos membros da OMC o poder de excluir alguns tipos de invenções de serem patenteadas, como no caso de plantas, animais e processos essencialmente biológicos, no entanto demandou a proteção de microorganismos e procedimentos não biológicos e microbiológicos, assim como a proteção a cultivares (variedades de plantas), sendo que essa proteção pode ser efetivada por meio de patentes, sistema sui generis ou por uma mescla de ambos (TRIPS, 1994, apud BASSI, 2011).