1.2 A ESTRUTURA JURÍDICA DA OMC NA REGULAMENTAÇÃO DO COMÉRCIO AGRÍCOLA
1.2.3 Acordo sobre Medidas Sanitárias e Fitossanitárias (MSF)
O Acordo sobre Medidas Sanitárias e Fitossanitárias negociado no âmbito da OMC teve por objetivo criar padrões internacionais para o estabelecimento de medidas restritivas ao comércio, em decorrência da proteção à vida humana ou animal e à preservação das espécies vegetais. Foi elaborado para auxiliar na compreensão e implementação do artigo XX do acordo do GATT, que prevê as exceções ao processo de liberalização comercial.
O acordo permite que todos os Países-Membros da OMC estabeleçam as medidas necessárias para proteger a vida e a saúde das pessoas e dos animais e também das espécies vegetais, mas com a condição de que essas medidas não se traduzam em restrições injustificadas e de caráter estritamente protecionista (barreira disfarçada).
O Acordo MSF estabelece que os padrões de segurança desejados devem estar em conformidade com as recomendações de órgãos internacionais específicos, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Comissão Codex Alimentarius, ligada à Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Organismo Internacional de Epizootias (OIE) e a Convenção Internacional de Proteção Fitossanitária (CIPF).
Dessa forma, as medidas sanitárias e fitossanitárias devem seguir as normas técnicas recomendadas pelas OIs especializadas, mas são efetivadas na prática através de leis,
decretos e regulamentos pertencentes à esfera do direito interno de cada país. Forma-se, assim, uma teia complexa que estabelece critérios específicos para os processos e métodos de produção, padrões para o produto final, mecanismos de certificação, inspeções, testes de qualidade, normas para rotulagem, análise de amostragem, avaliação de risco, regras para transporte e estocagem.
Segundo o Anexo I do Acordo, as Medidas Sanitárias e Fitossanitárias são definidas como todas as medidas aplicadas à:
a) proteção da saúde e da vida dos animais ou preservação dos vegetais no território do Membro contra os riscos resultantes da entrada, permanência e propagação de doenças e organismos patogênicos ou portadores de enfermidades;
b) proteção da vida e da saúde das pessoas e dos animais no território do Membro para evitar os riscos resultantes da presença de aditivos, contaminantes, toxinas ou organismos patogênicos em produtos alimentícios, bebidas ou rações;
c) proteção da vida e da saúde das pessoas e dos animais no território do Membro dos riscos resultantes de enfermidades propagada por animas, vegetais ou produtos deles derivados, ou ainda, da entrada, permanência ou propagação de pragas;
d) prevenção ou limitação de outros prejuízos no território do Membro resultante da entrada, permanência ou propagação de pragas.
O Acordo reconhece o direito de cada Membro estabelecer padrões mais exigentes que os reconhecidos pelas organizações internacionais específicas, desde que embasado em uma justificativa científica, ainda que exista divergência na comunidade científica e o posicionamento seja tomado por uma corrente científica minoritária. Os padrões devem ser revistos sempre que o avanço do conhecimento científico possa justificar a diminuição ou o aumento das restrições ao comércio de produtos alimentícios. O ônus de comprovar a necessidade de aplicação da medida é do Membro que a impõe, devendo preencher simultaneamente os seguintes requisitos:
a) a existência de uma incerteza na comunidade científica sobre a segurança de determinado produto ou procedimento que seja suficientemente perigoso para justificar a imposição de medida sanitária ou fitossanitária;
b) a medida tem caráter provisório e, para mantê-la, é necessário que o Membro demonstre esforços em buscar maior conhecimento científico que justifique o risco do
produto e, conseqüentemente, a necessidade da manutenção da medida. O Estado-Membro deve demonstrar que a medida pode ser revista, num período determinado, conforme a evolução do conhecimento científico.
As imposições estabelecidas no MSF devem ser aplicadas a todos os Países- Membros, sempre que presentes condições semelhantes. Não se permite a restrição de um produto de forma discriminatória. Por exemplo, o Brasil não pode impedir a importação de um produto químico X proveniente da China e permitir a importação do mesmo produto vindo da Argentina. A imposição deve valer para todos os Países-Membros.
A importância de uma padronização mínima para as medidas sanitárias e fitossanitárias se torna evidente, em razão de permitir uma transparência maior ao sistema multilateral de comércio, já que diminui o grau de discricionariedade que envolvem essas decisões.
O acesso aos mercados dos países desenvolvidos está condicionado à observância de regras internacionais específicas por parte dos produtores. Muitos países em desenvolvimento não têm a capacidade ou a infra-estrutura necessárias para observar essas regras, que, em muitos casos, são onerosas e complicadas. Além disso, as regras para a inocuidade alimentar e a embalagem de alimentos ou outras regras adotadas por países europeus ou norte-americanos são freqüentemente usadas como pretexto para limitar as importações dos países em desenvolvimento. Há muitos exemplos desse fenômeno, como, por exemplo, o das exportações para a Europa de chá, café, legumes e hortaliças, peixe, camarões e outros produtos procedentes de países latino-americanos e caribenhos ou o da proibição imposta pelo Governo dos Estados Unidos no âmbito do NAFTA contra importações de leite do México, com o argumento de que ele pode transmitir doenças. No entanto, os fabricantes de leite mexicanos conseguiram demonstrar que essa proibição não tinha nada a ver com um problema de qualidade e saúde e era, na verdade, resultante de uma insistente pressão do governo dos Estados Unidos para proteger a sua produção. (CONECTAS, 2007, p. 73)
Após a consolidação das tarifas negociadas na Rodada do Uruguai, muito países passaram a utilizar as medidas sanitárias e fitossanitárias como instrumento de proteção comercial sem nenhuma relação com objetivos de segurança e proteção às pessoas e ao
meio ambiente. Essas medidas passaram a ser utilizadas como barreiras disfarçadas ao comércio principalmente pelo países centrais, onde são amplamente aplicadas aos produtos agrícolas.23 Tem aumentado significativamente o número de reclamações na OMC, questionando medidas sanitárias e fitossanitárias, e a tendência é que esses conflitos aumentem ainda mais frente aos desafios impostos pelo desenvolvimento de novas tecnologias e pela degradação ambiental que causam situações de risco cada vez mais difíceis de serem calculadas.