Capítulo IV Estudo de caso: Sudão do Sul
4.5. Abordagens participativas no Sudão do Sul: estudos de caso
4.5.2. Action for Conflict Resolution (ACR South Sudan)
A organização Action for Conflict Resolution (ACR) é uma entidade da sociedade civil que se constituiu em 2014 com a missão de contribuir para a redução do número de conflitos de base comunitária e promover o processo de construção da paz no Sudão do Sul. O projeto tem como principais pilares de atuação o trabalho integrado e em rede e a participação como mecanismos para uma intervenção holística, com aplicabilidade no terreno e efetivamente promotora da representatividade e inclusão dos diferentes agentes comunitários – fatores necessários para a plena eficiência, justiça e sustentabilidade dos processos de paz.
A organização desenvolve a sua intervenção nos Estados de Liech (Norte e Sul) e da Equatória Central (em Juba), recebendo financiamento, entre outros mecanismos de subsistência local, de entidades parceiras como é o caso das Nações Unidas (UNDP e UNICEF), do NPA e da USAID (através de um dos seus parceiros, a AECOM). Na prossecução da sua missão, o ACR envolve os líderes tradicionais das comunidades, os líderes religiosos, jovens, grupos de mulheres e comerciantes, colocando-os em contacto com as organizações locais e com agentes de representação do Governo para a tomada de decisões conjunta com vista a influenciar as políticas nacionais e subnacionais (ACR, 2018). As suas principais áreas de intervenção assentam (1) na promoção do peacebuilding, Estado de Direito e governança local, (2) na Educação, (3) na proteção das crianças e das mulheres vítimas de violência com base no género, (4) no acesso a WASH (Water, Sanitation, Hygiene) e (5) Segurança alimentar, sendo a primeira (1) a área de intervenção prioritária da organização.
Neste âmbito, a organização tem promovido projetos na área do desporto juvenil e da capacitação das comunidades ao nível da gestão de conflitos e participação local, como formas de promover a inclusão social, a coesão entre os diferentes grupos culturais e a responsabilização destes no processo de desenvolvimento local e construção da paz no Sudão do Sul. Através das suas atividades, o projeto tem identificado e desenvolvido indicadores de alerta e resposta antecipados que permitem a intervenção rápida e eficiente em situações de conflito local, agindo deste modo de forma preventiva através de metodologias participativas que prezam o diálogo entre os diferentes stakeholders, a priorização de necessidades e a
130
definição de um plano de ação comum estabelecido em prol da comunidade e da construção de uma paz sustentável. De forma complementar, o ACR produz recomendações de políticas para atores nacionais e internacionais, assegurando uma ação de advocacy a fim de representar os interesses e pontos de vista das comunidades no processo de paz e melhorar a capacidade de evitar conflitos entre grupos e/ou entre estes e o Governo. Do mesmo modo, o projeto trabalha em estreita colaboração com profissionais da área jurídica para promover a constituição de obrigações legais que protejam e valorizem os Direitos Humanos da população sul sudanesa, com especial preocupação para os grupos sociais mais vulneráveis (crianças, mulheres, ex- combatentes).
Através do seu trabalho, o ACR estabeleceu 14 TLS (Temporary Learning Spaces) nas comunidades mais afetadas pela violência armada, tendo apoiado por essa via cerca de 1500 crianças entre 2016 e 2018. Foram também organizadas 6 campanhas para a consciencialização das comunidades acerca das vantagens da educação e da participação social no processo de desenvolvimento e de paz nacional, bem como foram dinamizadas ações de formação direcionadas aos professores das escolas primárias, líderes religiosos e outros líderes locais em matéria de apoio psicossocial a grupos vulneráveis. Adicionalmente, o projeto intervém junto da população feminina, através da implementação de iniciativas de integração social e económica, nomeadamente no âmbito do apoio na capacitação e constituição de negócios locais e de empreendedorismo. O projeto tem também uma vertente de integração e participação comunitária através do desporto, tendo constituído equipas comunitárias no âmbito da iniciativa “Sports for Peace”, financiado pela NPA e com uma contribuição significativa na reconciliação e fortalecimento de relações de coesão entre cerca de 8000 jovens. Mais ainda, em 2018, o ACR formou 60 jovens em matéria de liderança e princípios dos direitos humanos enquanto embaixadores da paz nas suas comunidades, responsabilizando-os para a mobilização e envolvimento dos restantes grupos locais em iniciativas de construção da paz (quer através do desporto, da organização de festivais, de eventos culturais ou de campanhas, entre outros). A base do trabalho desenvolvido por este projeto jaz na sabedoria do ouvir, no poder da participação e na força do diálogo informado como veículos para a construção de um entendimento e confiança comuns, que são definidos pelo projeto como os fundamentos da educação e da construção da paz. Um dos principais efeitos do projeto junto da população tem- se revelado ao nível do reforço das relações intergrupais e promoção do respeito pela diversidade e inclusão através de um sentimento de identidade comum: “previously we did not
have a good relationship, but since we are bonded together by ACR in these groups, our relationship is good (…)” (Nyayang in Juba Monitor News, 2019).
131
No que respeita às metodologias participativas promovidas pelo projeto, de acordo com a entrevista 1, estas baseiam-se na organização de fóruns comunitários regulares que colocam em diálogo diferentes grupos locais para a resolução de questões que sejam apresentadas por um ou mais destes grupos, bem como pelo envolvimento de todos os beneficiários do projeto no planeamento e execução das diversas etapas das atividades: “to make people accountable we
believe they have to be empowered and informed to participate, that’s why we try our best to involve the communities in the understanding of the political context and to give them complementary training on how they can be an active part in the construction of peace for South Sudan, starting locally to achieve it nationally. In all our activities we have the intention to involve the participants in the process of adressing the goals and to hold them responsible for the results proposed by the activities” (Entrevista 1).
Neste âmbito, mais do que atuar a nível nacional, o projeto intervém junto das comunidades para a construção de uma paz no Sudão do Sul não apenas “lead from below” mas também “lead by the local” no sentido em que considera fundamental contribuir para uma mudança local para se poder multiplicar essa mudança a nível sistémico e nacional. É nesta premissa que reside o poder da participação local, partindo do empowerment e do envolvimento da população nas decisões com implicação direta ao nível da comunidade de modo a espelhar essas mesmas decisões num projeto nacional maior de paz e desenvolvimento. Esta foi a ideia que orientou a presente investigação e que se espelha, de certa forma, no testemunho do entrevistado do ACR quando este diz que “(…) the main countribution of involving communities resides in their
direct participation in the work CSOs do and in the feeling that countributions and the activities we do result in the people and in their everyday life. The truth is you can lead to a peacebuilding process if you engage locally with communities, by promoting the economic inclusion of all groups, the enrollment of the youth in school, the development of local trade, the cohesion between groups. These things are important when we talk about building peace nation-wide. Only if we have happy and developed communities and cultural and economic security will we have people motivated for the development of the country and empowered enough to make a stand against governments that don’t serve them and to fight for actual peace” (Entrevista 1).