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2.2 MODELOS DE ANÁLISE DAS CAUSAS DA EVASÃO FISCAL

2.2.2 A postura da sociedade frente à evasão fiscal

2.2.2.2 Adaptação de Gordon em relação ao modelo de Allingham e

Soares (1994, p.37-42) afirma que os estudos já descritos não se preocuparam em desenvolver um modelo específico de evasão fiscal que incorporasse, formalmente, a questão social. Essa tarefa foi cumprida por J. P. F. Gordon através da utilização de um modelo de renda exógena, onde os custos sociais relativos à moralidade foram incorporados.

Nesta perspectiva, a função utilidade passa a ter como argumento, além do consumo, a honestidade. Esta é tomada como o inverso da evasão fiscal. A novidade do modelo é a introdução do parâmetro que define a honestidade dos indivíduos da comunidade. Neste modelo, se o parâmetro que define a honestidade dos indivíduos da comunidade for igual a zero, seus resultados serão idênticos ao de

Alligham e Sandmo, onde todos os indivíduos são amorais frente à decisão de sonegação de impostos.

Os parâmetros tributários relacionados à expectativa de punição exibem os mesmos resultados do modelo básico para a fração da população pouco honesta porque a intensificação da atuação do fisco e/ou o aumento das multas aplicáveis reduzem o parâmetro que define a desonestidade dos indivíduos da comunidade, fazendo com que uma fração maior da população exiba coeficiente de honestidade superior àquele, aumentando, conseqüentemente, a honestidade global da comunidade. Apesar disso, fica comprovado que os indivíduos menos honestos sonegam uma fração maior de suas rendas.

De um modo geral, os modelos de renda exógena indicam que o aumento de impostos reduz a sonegação fiscal. A endogenização da renda alterou esse resultado. O aumento de impostos passa a implicar em aumento da participação no mercado informal, desde que aceitos alguns pressupostos adicionais. A introdução da moralidade no modelo produz um terceiro resultado para a questão.

Quando a aversão absoluta ao risco é decrescente, existe, conforme Gordon (apud Soares 1994, p.37), um coeficiente de moralidade limite que faz com que uma fração da população reduza a evasão fiscal quando ocorre aumento nos impostos. Enquanto isso, outra fração da população aumenta o volume de sua sonegação fiscal. Neste caso, a interpretação do resultado é dada pela subdivisão dos coeficientes do aumento da tributação em dois tipos: a) efeito-renda, que induz os contribuintes a arriscarem menos na sonegação; e b) efeito-redução no custo psicológico/social de ser desonesto, que induz ao aumento da evasão.

No entendimento do autor, em uma fração da população prevalecerá o efeito-renda, pois esta fração dos cidadãos é menos exposta à questão moral. Em outra, que possui um maior grau de moralidade, prevalecerá o efeito-redução do custo da desonestidade.

Vale observar que se está tratando dos cidadãos que exibem coeficiente de moralidade ainda insuficiente para deixar de praticar a sonegação fiscal, mas que estão mais próximos de voltar a cumprir suas obrigações tributárias do que o grupo menos honesto. No entanto, é este último grupo que tenderá a reduzir sua evasão fiscal devido ao efeito-renda. Todavia, em decorrência da elevação das alíquotas, o

parâmetro que define a desonestidade dos indivíduos da comunidade é aumentado e, com isso, aumente também o número de contribuintes que, anteriormente honestos, passam para o grupo mais sensível ao efeito-redução do custo psicológico da sonegação.

De acordo com Soares (1994, p.40-41), o trabalho de J. P. F. Gordon, além de apresentar novos resultados, aperfeiçoou o modelo de interdependência entre os contribuintes, proposto inicialmente por Y. Benjamini e S. Maital. Para isso, subdividiu o custo do ato da sonegação em dois tipos: a) o custo psicológico da sonegação; e b) o custo relativo à reputação pessoal.

O custo psicológico unitário passa a ser um atributo pessoal do cidadão, variando de magnitude dentro da comunidade e o custo de reputação unitário torna- se indicador da aceitabilidade da evasão fiscal pela mesma. Nesta visão, o custo de reputação, linearmente dependente da opinião da população a respeito da sonegação, estabelece uma subdivisão entre o estigma individual e o estigma social da sonegação.

Surge, então, um grupo de cidadãos intrinsecamente honestos, impositores da regra social de que a sonegação é uma atitude prejudicial à sociedade. Além disso, outro que, por princípios morais individuais, não participará da sonegação fiscal. Este novo grupo de contribuintes é compelido a acompanhar a regra social imposta pelo grupo dos cidadãos intrinsecamente honestos devido ao alto custo de reputação envolvido na prática da sonegação. E, ainda, um terceiro grupo, composto dos indivíduos que vão evadir alguma fração de seus impostos.

Os resultados obtidos onde: indicam que a fração da população que se engaja na sonegação fiscal:

a) aumenta com o aumento do benefício inicial da sonegação b) diminui com o aumento da unidade de custo de reputação; e

c) está direta e positivamente vinculada à fração da população que sonegou impostos no período anterior, estabelecendo uma inércia em relação ao passado.

Gordon (apud Soares 1994, p.41) demonstrou, ainda, que existe no mínimo uma solução interior, isto é, pode existir uma situação de equilíbrio interior estável, possibilitando a convivência entre sonegadores e cidadãos honestos,

descartando a inevitabilidade da epidemia de sonegação fiscal, prevista por Y. Benjamini e S. Maital.

Os modelos de evasão fiscal, segundo afirma Soares (1994, p.41-42), a partir da introdução da moralidade individual e/ou coletiva, experimentaram um salto de qualidade, fazendo com que a interdependência entre o comportamento dos integrantes de uma comunidade possa oferecer uma nova linha de pesquisa. Nesta linha de pensamento, a sonegação fiscal deixa de ser um ato de caráter eminentemente individual e passa a depender da conceituação que a própria sociedade faz da prática da mesma.

Entre os resultados descritos, destaca-se a possibilidade de ocorrência de epidemia de evasão fiscal gerada por uma tentativa coletiva e organizada de evitar o pagamento dos impostos. Se o governo consegue reverter um quadro adverso na percepção do pagamento de impostos pela comunidade às fases de verdadeira desonestidade civil, podem alternar-se com corridas ao caixa do Tesouro,

Outra linha que abre um campo vasto de pesquisa é a graduação do conjunto dos contribuintes, conforme seu grau de honestidade. A subdivisão da sociedade em, pelo menos, três grupos principais, desonestos, intrinsecamente honestos e honestos, permite a obtenção de um resultado elegante para o controverso efeito do aumento dos impostos sobre a sonegação fiscal.

Ainda que o efeito global dependa da magnitude dos efeitos parciais, a possibilidade de tornar o preço da honestidade muito caro para os cidadãos cumpridores da lei pode induzi-los à sonegação de impostos.

2.2.2.3 Adaptação de Cowell e Gordon em relação ao modelo de Allingham e

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