Diariamente, a sociedade emergente passa por mudanças, que têm sido cada vez mais rápidas e profundas, exigindo assim, constantes esforços de adaptação. Os avanços das tecnologias de informação oferecem soluções relevantes, porém, sem deixarem de criar os seus próprios problemas. Na atualidade, o estresse tem invadido a vida de todas as pessoas, em todas as fases de desenvolvimento, e particularmente, acentuando-se mais a nível profissional. Os fatores indutores de estresse, já conseguem explicar as denominadas “doenças da civilização” como a hipertensão, depressão, sedentarismo, ou a competição na carreira profissional (PEREIRA, 2002).
É possível sistematizar as definições de resiliência a partir da contradição existente entre a adaptação e a superação. No polo da adaptação, as definições da resiliência que a entendem como um fenômeno próximo à símile do elástico que estica, e depois volta a ser o que era, devem ser colocadas. Neste caso, o indivíduo se adaptaria, e se ajustaria ao impacto de uma adversidade, de riscos ou danos sofridos, e posteriormente retornaria ao seu estado de desenvolvimento normal, não obtendo, necessariamente, algum crescimento a partir do enfrentamento. Já no polo da superação, se localizariam as definições de resiliência que a compreendem como sendo um fenômeno de transformação e crescimento, decorrente do encontro do sujeito com as adversidades. Neste sentido, o indivíduo abalado não volta a ser o que era, conforme ocorre com um elástico, pelo contrário, torna-se melhor do que antes, mais desenvolvido, mais forte e, talvez, mais preparado para outros enfrentamentos (BRANDÃO, 2009).
Diferentes fenômenos são abarcados na avaliação da resiliência, em razão da manifestação da competência frente às adversidades ou riscos. Destacando que podem demonstrar competência, as pessoas que foram atingidas e sobreviveram bem, as que sobreviveram com sequelas psicológicas, mas que foram internalizadas e ainda não detectadas, as que se reconstruíram a partir dos danos, recuperando-se e aprimorando-se muito mais do que seria esperado antes das adversidades, e as que não foram atingidas pelas adversidades, visto que estar exposto a um risco – assim considerado pelas probabilidades – não significa ser efetivamente afetado. Devido a estes critérios de avaliação da resiliência, são
contemplados todos os fenômenos inseridos nas definições de “superação” e “adaptação” (BRANDÃO, 2009).
Para Cyrulnik (2004), os fatores de adaptação não devem ser considerados como fatores de resiliência, pois permitem uma sobrevivência imediata, mas detêm os desenvolvimentos e, frequentemente, preparam uma série de provações. Já para Infante (2005), para que a resiliência seja identificada, é necessário que exista adaptação positiva. A adaptação é positiva quando o indivíduo consegue alcançar expectativas sociais associadas a uma etapa de desenvolvimento, ou quando ele não apresenta sinais de desajuste. Em ambos os casos, se a adaptação positiva ocorre, mesmo diante da exposição à adversidade, ela é considerada uma adaptação resiliente. Desta forma, esta adaptação pode ser estabelecida pelo desenvolvimento de algum aspecto da pessoa ou pela ausência de condutas disruptivas, mas, é preciso admitir que o conceito de “desenvolvimento normal” pode ser algo particular de cada grupo cultural, e que a resiliência pode ser observada em condutas ou áreas específicas do desenvolvimento humano, e necessita ser fortalecida no decorrer da vida. Isto ocorre pelo fato destes aspectos possibilitarem a criação de intervenções específicas para cada cultura, centrando-se em áreas delimitadas do desenvolvimento humano, e promovendo a resiliência durante toda a vida (INFANTE, 2005).
O conceito de estresse se refere às experiências de vida negativas, assim como o conceito de risco, empregado nos estudos sobre resiliência. Alguns pesquisadores chegam a utilizar estes dois conceitos simultaneamente, dificultando assim, a distinção entre ambos. Contudo, o termo estresse apresenta-se quase sempre acompanhado por palavras como “situações” ou “circunstâncias”, apontando condições temporárias ou transitórias relacionadas aos eventos da vida (YUNES; SZYMANSKI, 2002).
O estresse é descrito como uma resposta ao meio ambiente (físico ou psicológico), que ocorre em situações difíceis. É definido também como uma resposta biológica do organismo, como por exemplo, a ação dos hormônios catecolamina-adrenalina e noradrenalina, ou dos hormônios corticoides, que são considerados os hormônios do estresse. Por outro lado, também se considera que a presença, a ausência, ou a intensidade do estresse, é estabelecida pela estrutura mental do sujeito, fato que originou os modelos explicativos, capazes de interpretar as situações indutoras de muito ou pouco estresse (PEREIRA, 2002).
Diversas causas induzem estresse, que podem ser de natureza psicossocial (acontecimentos traumáticos), e de natureza psicológica (causas relacionadas com as predisposições pessoais) (PEREIRA, 2002).
Mais concretamente, o estresse psicológico acontece se uma pessoa acredita que um determinado curso de ação irá produzir um desejado resultado, mas ainda assim duvida de suas capacidades de agir de forma eficaz. Da mesma forma, o estresse ocorre mesmo quando uma pessoa está confiante sobre fazer o que tem de ser feito, mas duvida que o ambiente vá responder favoravelmente. A estratégia de coping refletirá tais avaliações, sendo moldada pela natureza da situação, e pelas crenças sobre o controle pessoal. Mudanças sobre as crenças de controle pessoal ocorrem ao longo da vida, e tais alterações, influenciam o grau de vulnerabilidade e ameaçam o padrão de coping de uma pessoa (LAZARUS; DELONGIS, 1983). A resiliência se apresentará com base na forma que as pessoas enfrentarão as adversidades, e para entender esse enfrentamento, as teorias de coping podem ser utilizadas (BRANDÃO, 2009).
A contrapartida de estresse é o conceito de coping, palavra que não possui tradução na língua portuguesa, e que é sempre utilizada no seu original em inglês. Os conceitos de estresse e coping aparecem constantemente juntos nas pesquisas sobre resiliência. Isto retrata mais um dos diversos dualismos entre os polos positivos e negativos que permeiam o conceito de resiliência, sendo que, neste caso, o estresse representa o polo negativo, e o coping, o positivo (YUNES; SZYMANSKI, 2002).
O termo coping (de origem anglo-saxônica) corresponde às expressões: “formas de lidar com”, ou “estratégias de confronto” (PEREIRA, 2002). Frequentemente, o conceito de coping está associado a palavras como: habilidades, estratégias, comportamentos, estilos, respostas ou recursos (YUNES; SZYMANSKI, 2002).
Muitos pesquisadores usam a palavra “coping”, “adaptação”, “confronto”, “gerir”, “lidar com”, para descreverem o mesmo fenômeno. No Brasil, a palavra utilizada é “enfrentamento”, um termo fortemente expressivo. O coping reporta-se à forma como as pessoas enfrentam as múltiplas exigências da vida, com o propósito de resolvê-las (RIBEIRO, 2009).
Ribeiro (2009, p. 28) define coping como “esforços cognitivos e comportamentais para gerir exigências específicas, internas e/ou externas, que são avaliadas como excedendo, ou como estando nos limites dos recursos pessoais”. Ou seja, o coping não atribui as coisas que ocorrem, mas abrange aquelas que os indivíduos pensam que acontecem, ou que podem acontecer.
O coping é uma variável crucial que influencia os desfechos adaptativos decorrentes da luta de uma pessoa para viver bem, por isso, as pesquisas sobre o funcionamento do estresse psicológico que não levam em conta a sua influência, são limitadas
ou distorcidas. As pessoas raramente são passivas diante do que lhes acontece, se podem, elas buscam mudar as coisas, e quando não podem, usam maneiras cognitivas de coping pelas quais conseguem alterar o significado da situação (LAZARUS; DELONGIS, 1983). Diante de uma situação de dano, os mecanismos de coping direcionam-se ao presente com a incumbência de reinterpretar o mal acontecido, ou mesmo tolerar a situação (PEREIRA, 2002).
É possível lidar com situações indutoras de estresse, por meio das noções conceituais de mecanismos de coping e personalidade resiliente (hardiness), que ilustram as ferramentas para o enfrentamento de adversidades/provações, numa perspectiva na qual haja o desenvolvimento do indivíduo resiliente, que é capaz de ultrapassar e cicatrizar de forma natural, dinâmica e construtiva, as dificuldades da vida (PEREIRA, 2002).
Os casos de resistência ao estresse nos quais o sujeito se mantém bem, mesmo com as adversidades, ou se adapta ao meio, mantendo-se estável e sem se abalar – o que corresponde à concepção de resiliência com sentido de adaptação –, devem ser analisados sob a perspectiva do conceito de hardiness (BRANDÃO, 2009).
A utilização do conceito de hardiness nas pesquisas de resistência ao estresse necessita diferenciar dois fenômenos: a resistência ao estresse, entendida como o não abalo em situações de confronto com a adversidade, e a resiliência, que compreende o processo de enfrentamento de adversidades, no qual há abalo, superação das adversidades e amadurecimento, que são desenvolvidos a partir deste enfrentamento. Basicamente, o primeiro fenômeno seria analisado via as teorias de hardiness, enquanto que o segundo, estudado como resiliência (BRANDÃO, 2009).
Entender e saber lidar com as situações indutoras de estresse de maneira adequada, assim como compreender os processos de transição que ocorrem nas fases de desenvolvimento e nos diferentes contextos, é imprescindível para a promoção da resiliência na sociedade atual (PEREIRA, 2002).
Uma mesma situação de vida pode ser experienciada por uma pessoa como perigo, ao mesmo tempo que, uma outra, a percebe como um grande desafio. Sob o ponto de vista subjetivo do fenômeno, pode-se afirmar que, com base na percepção que o sujeito tem da situação, e na sua interpretação do vento estressor e do sentido a ele designado, haverá ou não a condição de estresse (YUNES; SZYMANSKI, 2002).
Há dois principais mecanismos através dos quais os processos de avaliação e de coping, com as suas consequências morais, de funcionamento e saúde, podem variar não apenas entre as pessoas, mas também dentro de qualquer pessoa em particular, em vários
pontos do percurso de sua vida. Em primeiro lugar, por meio das mudanças no ambiente social e físico. A criança enfrenta, pela primeira vez, as separações da família, a competição na escola, novos bairros, mudança de amigos e de figuras de autoridade, problemas entre os pais que, por vezes, terminam em divórcio, e até mesmo a morte de um pai. Os aborrecimentos diários, refletidos no padrão de vida, também variam com a mudança dos bairros, mudança nas relações sociais, perdas, e mudanças sociais que são uma parte da história local e mundial. E em segundo lugar, pelo fato de que tudo o que acontece recebe um determinado sentido e significado pessoal, que é dado pelas características mais ou menos estáveis de personalidade. O impacto estressante das mudanças na vida (ou mesmo a falta de mudanças), e suas necessidades de coping só podem ser compreendidos tendo como referência as características da personalidade que lhe atribuem importância e destaque. Os padrões de comprometimento, e as crenças sobre o eu e o mundo, são especialmente dignos de atenção, porque eles moldam o estresse e o coping ao longo do curso da vida (LAZARUS; DELONGIS, 1983).
O estilo de vida fortalece os indivíduos, tornando-os mais aptos a resistirem ao estresse da vida diária. Um estilo de vida mais saudável fortalece o organismo, e está relacionado às práticas (alimentação saudável, exercício físico, repouso, organização da agenda diária, entre outros) e com os seus resultados, como sentir-se mais repousado, com o peso adequado, ânimo ajustado, e vida emocional equilibrada. As pessoas podem aprender a identificar e utilizar os métodos de coping que melhor se ajustam a elas. Isso comumente é feito via programas estruturados, elaborados por especialistas que os desenvolvem em empresas, ou em outras instituições que apresentam componentes psicoeducacionais ou psicoterapêuticos em situações mais avançadas de desajustamento (RIBEIRO, 2009).
As estratégias de coping participam do processo de resiliência, visto que o enfrentamento das adversidades é uma fase do mesmo. Entretanto, coping não é resiliência. Nem toda estratégia de enfrentamento obtém sucesso e, por isso, nem sempre resultará em resiliência (BRANDÃO, 2009).
A resiliência não deve ser compreendida como organização durável e estruturada, nem como característica da personalidade, mas sim, como processo gerado pelo encontro de uma pessoa ou grupo de pessoas com adversidades que acarretará um enfrentamento (no qual as estratégias de coping irão atuar), superação e crescimento (BRANDÃO, 2009).