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CAPÍTULO 01 – CRISTIANISMO: FENÔMENO HISTÓRICO E MIDIÁTICO

1.2 Adaptar-se e tirar proveito: o protestante e a mídia

É real que a invenção de cada uma dessas mídias sempre esteve associada a um contexto particular. É evidente também que, se especificarmos essas categorias em subcategorias, como: impresso, rádio, cinema, televisão e internet, vamos perceber semelhantemente que cada invenção comunicacional está diretamente ligada a um imperativo histórico-temporal. Essa necessidade, nesse aspecto, é tão real quanto a sua resistência. Embora midiático, o cristianismo, em especial a vertente católica, não manteve uma relação amistosa com a mídia secundária e terciária, especialmente entre os séculos XVI e XIX.

Enquanto isso o protestantismo, como iremos demostrar, sempre fez um uso abundante e franco dessa ferramenta.

A introdução da imprensa de Gutenberg, por exemplo, significou para o catolicismo uma ameaça ao poder eclesiástico, afinal de contas, esse advento lançava luz sobre muitos mistérios que deveriam ser enclausurados e mantidos em segredo. A impressão gráfica provocou uma grande acumulação de conhecimento por difundir descobertas amplas e muitas vezes distante do monopólio do clero. O crescimento do “ceticismo” era um dos motivos dessa preocupação.

A clerezia católica sintetizou inúmeros documentos destinados especialmente à emergência das mídias secundárias e terciárias. A resistência é deflagrada em diferentes momentos da história. Em 156920, por exemplo, o papa Paulo IV publica o Index de livros e autores proibidos para edição e leitura. Quase quatrocentos anos depois, em 1906, Pio X por meio da encíclica Pieni D’Animo, estabelece proibição aos seminaristas e sacerdotes às leituras e escritas de revistas, jornais e outros materiais técnicos sob a justificativa de proteção em relação aos pensamentos modernistas do positivismo e evolucionismo. Outras encíclicas foram produzidas para os mesmos fins nesse intervalo, todavia, somente com a chegada do cinema e do rádio que essa instituição milenar faria concessões consideráveis em relações aos meios.

Enquanto o catolicismo hesitou e se mostrou conservador na atualização das suas práticas de comunhão e comunicação, o território de disputa era aproveitado por aqueles que melhor se adaptaram ao que chamamos de mídia secundária e terciária. O braço protestante do cristianismo sempre se mostrou íntimo do interesse pelos meios de comunicação de massa (MCM). Se repensarmos a Reforma, esse movimento social liderado por Lutero (frade nascido em 1483 que posteriormente será rotulado como herege) que tinha a finalidade de submeter a críticas e mudanças o pensamento católico, sumariamente reivindicava um envolvimento mais acentuado da massa popular nas atividades eclesiásticas. Reivindicava, sobretudo, a leitura e a tradução em vernáculo da bíblia e sugeria um acesso direto entre os homens e Deus, ação que dispensava a mediação papal. Ora, o alto-falante desses novos ideais será uma das responsabilidades dos meios de comunicação da época.

20A encíclica Pieni D’Animo pode ser conferida no domínio. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_29061936_vigilanti-

Briggs e Burke nos alertam dizendo que “a reforma foi tanto causa quanto consequência da participação midiática. A invenção da impressão gráfica solapou o que foi descrito, com certo exagero, como monopólio da informação da igreja medieval” (BRIGGS; BURKE, 2006, p. 82). A condenação de certas obras pelo “Index de livros proibidos” já podia ser interpretada como um sintoma da crise. Os dois autores nos dizem que depois do estabelecimento das igrejas protestantes (luteranas e calvinistas) a tradição era transmitida por meio da educação de crianças feita em geral, pelo uso da palavra escrita e falada. O sermão também obtinha relevância nos primeiros anos da reforma. Era em função dele e dos hinos em vernáculo que “permitiam à audiência participar dos serviços religiosos mais ativamente do que nos dias em que simplesmente ‘ouvia missa’” (BRIGGS; BURKE, 2006, p. 84).

As imagens que tinham como alvo o “povo simples” também funcionavam como munição para a batalha religiosa. Lutero, diferente de Calvino, sempre fez demasiado uso delas, muito embora se opusesse à superstição e à idolatria. As encenações teatrais21 de rua, um exemplo imponente da mídia primária, valiam “para convencer as pessoas a ficarem contra a igreja” (BRIGGS; BURKE, 2006, p. 84). Todo esse engajamento era somado às traduções livres da bíblia e dos panfletos sagrados que eram reproduzidos e amplamente distribuídos pelo viés protestante. Essa demasiada utilidade que a mídia, em suas três variantes, teve para o protestantismo fez dessa corrente um marco decisivo na história do mundo cristão. O homem contemporâneo ou pós-moderno (se é que pudemos denominá-lo assim) acompanhará com maestria os efeitos dessa rápida adaptação e apropriação, pois são as igrejas protestantes que assumem o papel de verdadeiras pioneiras no uso dos aparatos mais atuais da tecnologia.

Decerto a reforma não significou somente um duelo midiático e dogmático no espaço cristão, em que as “verdades” ecumênicas deveriam ser revistas. Representou, sobretudo, uma substituição de uma forma de vida vigente por outra. Os reformadores eram oriundos de países economicamente “desenvolvidos” e ainda equivaliam à classe média burguesa emergente. Não é em vão que os protestantes demonstraram uma envergadura considerável pelo racionalismo econômico, tratado por muito tempo com indiferença pelo catolicismo a partir do ideal ascético.

21 Uma das famosas peças teatrais utilizadas pelos reformistas para criticar o pensamento católico foi intitulada “o vendedor de indulgências” do suíço Nikolas Manuel (BRIGGS; BURKE, 2006, p. 86)

Weber discorria sobre um ethos, para designar o espirito que incorporou a ética protestante. Esse espírito elevou o trabalho e a produção ao caráter de essências da natureza humana. A profissão aparece nesse instante como uma virtude do ser, um dever que necessita ser executado com satisfação. E, como preconizou Eliade (2011), a noção de sagrado em mais um momento sofrerá (re) adaptações. As bases dessa consistência ética que trata o trabalho como da ordem do natural, nos garante Weber, não deve ser procurada dentro de uma racionalidade lógica, mas sim no irracional, pois é de lá que a noção de vocação será atribuída ao sacro.

Uma coisa, antes de tudo, era absolutamente nova: a valorização do cumprimento do dever no seio das profissões mundanas como o mais excelso conteúdo que a auto-realização moral é capaz de assumir. Isso teve por consequência inevitável a representação de uma significação religiosa do trabalho mundano e conferiu pela primeira vez ao conceito de Beruf esse sentido. No conceito de Beruf, portanto, ganha expressão aquele dogma central de todas as denominações protestantes que condena a distinção católica dos imperativos morais em “praecepta” e “concilia” e reconhece que o único meio de viver que agrada a Deus não está em suplantar a moralidade intramundana pela ascese monástica, mas sim, exclusivamente, em cumprir com os deveres intramundanos, tal como decorrem da posição do indivíduo na vida, a qual por isso mesmo se torna a sua vocação profissional (WEBER, 2012, p. 72).

Essa concepção que tem início com o luteranismo ainda de forma tímida chega ao seu auge no calvinismo, com a necessidade de comprovar a fé por meio do sucesso profissional. Essa premissa acabava funcionando como um estímulo para que o rebanho produzisse cada vez mais. A relação anterior existente entre pecadores e Deus parece ser substituída por uma interação entre freguês e mercador. Weber (2011, p. 113) chegou a sinalizar essa realidade como uma vida de caráter administrativo e empresarial.

Todas essas notificações eram baseadas em novas interpretações bíblicas que só foram cabalmente constatadas em função da reforma midiática, já que coube a ela a capacidade de reproduzir e traduzir os textos sagrados em longa escala. Essas inferências serão vitais para o desenvolvimento das denominações protestantes atuais que, embora emerjam no campo social a partir de algumas dispersões ou peculiaridades, serão caraterizadas por um passado constantemente (re) atualizado.