• Nenhum resultado encontrado

II – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

B. Adequações no processo de ensino e de aprendizagem

Os dados desta apresentação, análise e discussão dos resultados advêm das Adequações no Processo de Ensino e Aprendizagem concretizadas pelos professores, registadas nos documentos que nos foram entregues. As Planificações e as Actas dos CT vêm sistematizar e quantificar o registo anteriormente elaborado sobre a concretização das adequações de ensino e de aprendizagem, confirmando- se que os professores as efectivaram, principalmente ao nível das Adequações no

Processo de Avaliação, seguindo-se o Apoio Pedagógico Personalizado e em

menor número as Adequações Curriculares Individuais.

Iniciamos esta apresentação pelas Adequações no Processo de

Avaliação, uma vez que foi a área onde foram obtidos mais registos dos

professores.

As adequações no processo de avaliação concretizaram-se ao nível da alteração dos instrumentos de avaliação, formas e meios de comunicação, duração, local e momentos informais de avaliação, o que, segundo nos descrevem Landivar (1994) e Torres González (2002), são adequações não significativas e individuais, focando apenas os alunos com N.E.E.

Na alteração dos instrumentos de avaliação, no 2º ciclo, os professores

referiram essencialmente os testes diferenciados, com utilização de perguntas e respostas curtas, tarefas de escolha múltipla, correspondência e preenchimento de lacunas e a possibilidade de consultar o manual.

Mestrado em Ciências da Educação, especialidade Educação Especial, ESEL/IPL

Maria Paula R. V. R. Marcelino 116 Um professor concretizou uma alteração dos instrumentos de avaliação da

seguinte forma:

“Na avaliação das competências de conhecimento e compreensão da constituição dos diferentes sistemas do corpo humano só serão avaliados ao nível da identificação”. (P-CN)7

No 3º ciclo, os professores também focaram essencialmente os testes diferenciados, tendo surgido em maior número os aspectos: menor número de questões, questões directas, questões cujas respostas surjam de forma evidente no texto, não implicando dedução, perguntas de escolha múltipla, verdadeiro/falso, correspondência, com pistas visuais (imagens, ilustrações) e pistas verbais (explicação pelo professor). Vários professores realçaram ainda outras alterações que realizam nos testes, tais como: questões com lacunas e listas de palavras para o preenchimento de espaços lacunares questões que não exijam grandes generalizações nem elevado nível de abstracção, perguntas intermédias que permitam uma estruturação mais fácil do raciocínio, sem pedidos de justificação das questões, dar um exemplo de resolução de determinado exercício antes de o aluno resolver outros semelhantes, evitar exercícios em que o aluno tenha que usar formas parecidas (ex: vêm/vêem; à/há), solicitar textos de dimensão inferior à esperada no nível de ensino em causa, reduzir a complexidade dos textos a produzir pelo aluno, exigir textos com organização mínima de ideias e alguma coerência, ainda que não se distinga de modo evidente a introdução, desenvolvimento e conclusão, simplificar as orientações escritas, reduzindo as palavras e numerando os passos das tarefas, propor tarefas com menos etapas e/ou de execução mais rápida, aproveitar respostas em que o aluno revele compreensão do texto, mesmo que deslocadas no teste ou ficha de trabalho.

Alguns professores que leccionam as disciplinas de línguas estrangeiras referiram: ler o teste/ficha ao aluno, inclusão de vocabulário de apoio aos textos (língua estrangeira), nomeadamente, indicações bilingues e exercícios gramaticais e de audição de texto de escolha múltipla.

Houve ainda professores que nos registos entregues indicam que cotam as questões de desenvolvimento com menos peso, não contabilizam questões que envolvam raciocínio, resolução de problemas e cálculo e/ modificam a graduação de avaliação dos exercícios, fazendo adaptações significativas, segundo Torres González (2002), uma vez que implicam a modificação ou eliminação de critérios específicos na avaliação.

7 Professores das turmas que, não tendo sido entrevistados mas tendo entregues adequações no

Mestrado em Ciências da Educação, especialidade Educação Especial, ESEL/IPL

Maria Paula R. V. R. Marcelino 117 Quanto às formas e meios de comunicação, no 2º Ciclo, os itens mais

referidos são: valorizar mais a participação oral do que a escrita, por exemplo, a leitura oral de pequenos textos/frases na aula e permitir a utilização da máquina de calcular na realização das fichas de avaliação e de trabalho.

No 3º Ciclo, surgem mais vezes os itens: explicação pelo professor nas provas escritas, nas questões que impliquem respostas longas e selecção de informação a partir de textos, tabelas e gráficos e dar aos alunos várias opções na demonstração dos seus conhecimentos: oralmente, por escrito ou através de diagramas.

Também há professores que na avaliação não penalizam os alunos pela pouca criatividade, não valorizam os problemas significativos ao nível da ortografia, ou fazem a substituição de um teste de avaliação por um trabalho de pesquisa orientada.

Outros aspectos citados foram: utilizar como base de avaliação a produção de textos de tema livre, não penalizar as respostas que evidenciem prejuízo nos casos de dislexia, desvalorizar a importância da clareza, expressão e estrutura das ideias, e dos erros de sintaxe, pontuação e ortografia e também pedir maior solicitação de participação oral em detrimento de escrita, se for a opção do aluno.

No 3º Ciclo, outros indicadores que surgiram ao nível das adequações no processo de avaliação, foram o aumento da duração do tempo para a realização de tarefas/testes e o local para a realização de alguns instrumentos de avaliação, que são realizados com o DEE, conforme diz um professor:

“Realização de alguns dos instrumentos de avaliação na hora semanal com o DEE”. (P-CN)

Neste aspecto, houve ainda indicadores que nos transmitiram que os professores dos dois níveis de ensino valorizam alguns momentos informais de

avaliação com os alunos com N.E.E.

Em comum, surgiram: valorizar a realização dos trabalhos de casa, realizar fichas de trabalho e trabalhos práticos, temáticos, de pesquisa (ex: elaboração de biografias).

No 2º Ciclo, alguns professores focaram ainda a observação directa do aluno na realização de actividades e atitudes demonstradas e a observação do caderno diário.

No 3º Ciclo, surgem outros itens, tais como: privilegiar a participação oral, privilegiar os trabalhos escritos, valorizar o comportamento, recriação de situações/acontecimentos históricos sob várias formas, reforço dos trabalhos para casa (resumos e mapas de conceitos), valorizar o trabalho na sala de aula, realização de fichas de avaliação intermédia (a realizar no apoio), fichas de

Mestrado em Ciências da Educação, especialidade Educação Especial, ESEL/IPL

Maria Paula R. V. R. Marcelino 118 leitura/funcionamento de língua, relatórios científicos (aulas experimentais)

orientados, valorizar a responsabilidade e o empenho, valorizar a capacidade de memorização, valorizar a capacidade do aluno se expor, utilizar um tom de voz audível e uma estrutura linguística correcta, à vontade do aluno no momento da exposição oral, a capacidade do aluno escrever sobre o tema proposto, realização de testes/fichas com diferentes graus de dificuldade e nível de realização.Um exemplo da importância que alguns professores dão aos momentos informais de avaliação traduz-se nas seguintes afirmações:

“Procuro valorizar mais o trabalho desenvolvido pelo aluno na aula (participação, organização e interesse), o seu comportamento e os trabalhos de casa”. (P – MAT).

“Participação oral em aula, nomeadamente na correcção dos TPC realizados durante as aulas de apoio”. (P12)

Relativamente ao Apoio Pedagógico Personalizado, os professores de 2º Ciclo indicaram dois aspectos: o reforço das estratégias ao nível da organização e das actividades (professores na sala) e a antecipação e reforço de conteúdos (fora da sala; professores da turma ou outros).

No primeiro aspecto, surgiram mais indicadores quanto a prestar mais atenção ao trabalho do aluno/apoio individualizado, aumentar os reforços positivos e associar o desenvolvimento de competências a actividades práticas, tendo ainda sido referidos os itens: repetição de palavras/estruturas gramaticais e elaboração de textos curtos especialmente relacionados com o aluno.

Relativamente ao segundo aspecto, foram referidos os apoios que os alunos têm fora do contexto da sala de aula, neste caso, às disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática (6 alunos), Inglês (4 alunos).

Nesta medida educativa, Apoio Pedagógico Personalizado, o maior número de registos foi efectuado pelos professores de 3º Ciclo, que especificaram mais dois aspectos, além dos que tinham surgido no 2º Ciclo.

No reforço das estratégias ao nível da organização e das actividades (professores na sala), os itens com maior registo foram: apoio individualizado,

dar reforços positivos (tal como no 2º Ciclo), simplificar as instruções, privilegiar a participação do aluno nas actividades da turma, realizar/efectuar seriação, ordenação e completação de factos, acontecimentos e situações através de quadros, mapas, gráficos, tabelas, barras e frisos cronológicos, análise de mapas, plantas, tabelas e gráficos, fazer leitura e análise de documentos, realizar pesquisas (com a ajuda da professora), visionamento e exploração de documentários e filmes, verificar regularmente o conteúdo do caderno, controlar o cumprimento dos TPC, dar especial atenção aos níveis de atenção/concentração do aluno, seleccionar

Mestrado em Ciências da Educação, especialidade Educação Especial, ESEL/IPL

Maria Paula R. V. R. Marcelino 119 exercícios específicos do manual, colocação, em aula, de questões directas e

conducentes ao sucesso das respostas do aluno, permitir a participação parcial nas tarefas de leitura, apresentar fichas com explicações e exercícios claros, dar tempo extra para que as instruções sejam compreendidas, fornecer o tempo necessário para a realização da tarefa, dar fichas de TPC adaptadas, valorizar progressos, comportamento, interesse e organização do caderno, estimular a participação oral, incentivar a ida ao quadro, estabelecer objectivos intermédios na resolução de problemas, solicitar previamente um pequeno resumo, realizado em casa, das tarefas a desenvolver nas aulas de laboratório (AL), desvalorizar a produção oral e valorizar a atitude positiva com que o aluno se entrega à preparação das apresentações, divisão de uma tarefa em várias fases ou etapas, realizar um pequeno resumo e um glossário com os principais conceitos desenvolvidos em cada aula.

Na antecipação e reforço de conteúdos (fora da sala; professores da

turma ou outros), tal como no 2º Ciclo, foram referidos os apoios que os alunos

têm fora do contexto da sala de aula, neste nível de ensino, às disciplinas de Língua Portuguesa (8 alunos), Matemática (6 alunos), Inglês (4 alunos), Ciências Físico- Químicas (3 alunos) e Francês (2 alunos).

Alguns professores definem acções específicas no âmbito da antecipação e

reforço de conteúdos fora do contexto da sala, como se verifica nesta afirmação: “A produção escrita revela-se difícil, apesar das orientações/ajudas da professora. Assim, o aluno preparar-se-á previamente nas aulas de apoio a LP e com o DEE, com vista à produção de pequenos textos escritos, mediante orientações claras e directas/guiões”. (P12)

Surgiram outros dois aspectos no 3º Ciclo, relativamente a esta medida educativa (Apoio Pedagógico Personalizado).

A organização dos alunos na sala, em que alguns professores deram ênfase ao facto de sentarem os alunos com N.E.E. na 1ª fila ou nas carteiras da frente, com o objectivo, segundo regista um professor:

”Permitir-lhe uma maior visualização do quadro e um maior apoio na realização das tarefas propostas”. (P10).

A organização dos alunos na sala é um aspecto enfatizado por Correia et al (2008), que defendem que deverá ser pensada com outros técnicos.

Realçaram também a colaboração dos colegas na explicação de exercícios e em aulas específicas, como as Aulas de Laboratório (trabalho a pares). Por exemplo, um professor definiu a seguinte estratégia:

Mestrado em Ciências da Educação, especialidade Educação Especial, ESEL/IPL

Maria Paula R. V. R. Marcelino 120

“Para cada aula e no caderno diário o aluno fará um pequeno resumo e apresentará um glossário com os principais conceitos desenvolvidos na aula. O aluno poderá solicitar a ajuda do seu par na concretização desta tarefa”. (P7)

Outro professor decidiu:

“A aula de laboratório (AL) deve ser realizada pelo D. e por um colega, de preferência o colega de carteira em sala de aula”. (P-FQ)

Esta estratégia é considerada benéfica por diversos autores (Pacheco, Eggertsdóttir e Marinósson, 2007), que em estudos recentes mostraram depender da liderança do professor.

Os professores do 3º Ciclo indicaram ainda Estratégias em colaboração

(com o DEE/outros professores de apoio), tendo aparecido os seguintes itens:

preparação dos conteúdos/assuntos nas aulas de apoio, apresentações orais realizadas apenas no apoio em pequeno grupo, mediante perguntas/orientações claras e directas, e com temas sugeridos pelo aluno, produção escrita de pequenos textos, mediante orientações claras e directas/guiões, preparada previamente no apoio (docente da disciplina e/ou DEE), com o DEE, elaborar um plano de trabalho para as aulas de apoio nas várias disciplinas, utilizar uma agenda para registar o que o aluno tem que fazer (com a colaboração de todos os professores). Um professor propõe especificamente:

“Fomentar, em parceria com o DEE, a preparação de textos escritos em diversos momentos do período e, em particular, no momento da realização do teste escrito, fornecendo ao aluno dois temas diferentes”. (P-LP)

Três docentes do 3º ciclo elaboraram também um plano de trabalho mensal para as aulas de apoio pedagógico personalizado (leccionadas por outra professora), que inclui conteúdos a reforçar, fichas do caderno de actividades/manual e outras fichas. Este plano de trabalho foi proposto em CT pela DEE e elaborado em conjunto com os docentes das disciplinas.

Na nossa opinião, este aspecto contraria a ideia anteriormente realçada de que não existe um trabalho sistematizado entre alguns técnicos. De facto, essa articulação/colaboração parece estar estabelecida entre alguns professores, sendo desenvolvidas estratégias específicas no sentido de responder às necessidades sentidas por eles.

Constatámos que relativamente à medida educativa Apoio Pedagógico Personalizado, os professores englobaram alterações ao nível da metodologia, actividades, recursos, consideradas adaptações não significativas (Torres González, 2002), que beneficiam todos os alunos em geral.

Mestrado em Ciências da Educação, especialidade Educação Especial, ESEL/IPL

Maria Paula R. V. R. Marcelino 121 Finalmente indicamos a medida educativa que obteve menos registos dos

professores. Nas Adequações Curriculares Individuais, os professores referiram essencialmente que eliminam/retiram e fazem modificações ao nível dos conteúdos e/ou competências do currículo, o que Manjón et al (1993), Torres González (2002), Leite (2005) consideram a medida mais significativa das adaptações curriculares.

No 2º ciclo, apenas um professor diz retirar competências essenciais nos vários domínios do currículo da disciplina (LP) e em alguns casos, introduz alguns objectivos/conteúdos intermédios, estratégia considerada por Manjón et al (1993).

Outras acções foram apontadas pelos professores deste nível de ensino, as quais, embora não definindo as ACI que desenvolvem com os alunos, demonstram de algum modo alguns aspectos da sua intervenção com alunos com N.E.E.:

- Um professor indicou as competências essenciais nos vários domínios a desenvolver na sua disciplina para os alunos com N.E.E.;

- Dois docentes que leccionam duas turmas diferentes indicaram os conteúdos e/ou actividades programadas para desenvolver em cada período lectivo, não concretizando se existem ou não adequações previstas para os alunos com N.E.E.; - O professor de uma turma indicou os conteúdos e as competências essenciais a desenvolver, não concretizando se realiza ou não adequações para os alunos com N.E.E.;

- Houve dois professores que entregaram a planificação anual da sua disciplina, prevendo uma alteração na avaliação para os alunos com N.E.E.;

- Dois professores entregaram a planificação anual da sua disciplina, não fazendo alusão aos alunos com N.E.E.; um destes professores lecciona duas turmas;

- Dos dados obtidos através da leitura das actas, ficou definido num CT de 2º ciclo, no final do 1º período, efectuar adequações no processo de ensino e de aprendizagem às disciplinas em que os dois alunos com N.E.E. tivessem notas de nível inferior a 2, o que não se concretizou na maioria das disciplinas.

No 3º ciclo, os professores referem que eliminam conteúdos e/ou competências do currículo comum e também procedem a algumas modificações.

Segundo esses professores, eliminam conteúdos porque consideram que são de difícil compreensão, de acordo com as dificuldades do aluno, como por exemplo, textos que impliquem o domínio das técnicas e modelos de escrita, ou por considerarem que o aluno não possui a capacidade de abstracção necessária à compreensão dos enunciados Um professor exemplificou duas situações:

“Irá ser abordado o conteúdo literário Os Lusíadas. Caso o aluno revele excepcionais dificuldades neste conteúdo o mesmo será substituído pela versão… deste modo, o aluno tomará contacto com o conteúdo da obra de Camões, mas através de um texto narrativo em prosa, em vez de um verso”. (P-LP)

Mestrado em Ciências da Educação, especialidade Educação Especial, ESEL/IPL

Maria Paula R. V. R. Marcelino 122

“Relativamente à Competência do Conhecimento Explícito da Língua far-se- ão, igualmente, algumas adaptações, sendo retirados os conteúdos que impliquem um grau de dificuldade acrescido (tempos compostos dos verbos, frase complexa: orações coordenadas e subordinadas”. (P-LP)

Outros professores referiram que adaptam/reduzem parcialmente os conteúdos e objectivos programáticos em alguns domínios ou que simplificam o currículo, o que se observa nesta descrição:

“Identificação de textos de tipologias diferentes, identificação de rimas e recursos estilísticos mais recorrentes, adaptações no Funcionamento da Língua com vista à identificação de alguns conceitos gramaticais…” (P12)

Um professor especificou que elimina as competências de relacionamento de conteúdos.

Dos professores que referem modificações no currículo comum, adequam os objectivos e as competências aos conteúdos considerados essenciais, ou definem objectivos específicos/ competências essenciais que pretendem que os alunos aprendam, citamos um colega:

“O trabalho com o R. passa pela repetição de palavras/estruturas gramaticais assim como elaboração de textos curtos e que estão especialmente relacionados com o aluno”. (P5)

Outra modificação definida por um professor foi a substituição de conteúdos literários (utilizar prosa em vez de poesia).

Estes professores, ao definirem competências, conteúdos e objectivos que pretendem que os alunos aprendam, favorecem a sua integração social e escolar, conforme defendem Manjón et al (1993).

Mestrado em Ciências da Educação, especialidade Educação Especial, ESEL/IPL

Maria Paula R. V. R. Marcelino 123