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3. ASPECTOS TÉCNICOS

3.2 Adicionalidade do Projeto

Até 2002, o cenário de referência ou “negócios como sempre” (business as usual) para o uso de terra no Estado do Amazonas era caracterizado por incentivos para o de- senvolvimento dada agricultura e pecuária, ao invés da conservação fl orestal. As taxas de desmatamento eram crescentes e progressivas a cada ano. Como um exemplo das políticas locais na época, em 2002 o Ex-Governador do Estado distribuía moto-serras à população em sua campanhas políticas, a fi m de promover o desmatamento.

Em janeiro 2003, ao tomar posse, o atual Governador do Amazonas, Eduardo Bra- ga publicou um compromisso ofi cial, que foi publicado e registrado em cartório antes do início do seu primeiro mandato (Amazonas, 2002). A base deste compromisso - o Programa Zona Franca Verde (ZFV) tem o objetivo de reduzir o desmatamento e pro- mover o desenvolvimento sustentável no estado através da valorização dos serviços ambientais prestados pelas fl orestas do Amazonas (Braga & Viana, 2003).

A implementação das políticas de desenvolvimento sustentável que tenham im- pactos positivos na redução do desmatamento é cara e muitas vezes inviável para con- correr com os limitados recursos dos governos estaduais. Dada a grande demanda para o fi nanciamento social do programa ZFV (as taxas de desenvolvimento humano variam entre 0.4 e 0.6 no Amazonas) - principalmente saúde e educação - investir nas atividades ligadas a redução do desmatamento foi um grande desafi o, com altos riscos políticos.

O Governador Eduardo Braga enfrentou esses riscos e estabeleceu um programa de criação de Áreas Protegidas Estaduais como foco central do ZFV. Este programa gerou um aumento de 133% na área de áreas protegidas no estado (passou de 7.4 milhões de hectares em 2003 a 17 milhões de hectares em 2007). O desmatamento também foi reduzido, em 53% (diminuído de 1.585 hectares/ano em 2003 a 751 hec- tares/ano em 2006) (INPE, 2008). Tais resultados, juntamente com um intenso processo de articulação política tanto em nível nacional quanto internacional foram a base da primeira proposta de um mecanismo de compensação pelos serviços ecossistêmicos prestados pelo Estado do Amazonas.

Esta primeira proposta foi apresentada pelo governo do Amazonas na 11ª. Con- ferência das Partes (COP) da Convenção Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (UN Framework Convention on Climate Change - UNFCCC), em 2005 na ci- dade de Montreal (Viana et al., 2006). Nessa ocasião, foi a primeira vez que o REDD foi discutido ofi cialmente na agenda da COP/MOP. Em novembro 2006, a “Iniciativa Ama- zonas” foi apresentada em Nairobi, na COP 12 da UNFCCC (Viana et al., 2006).

A criação de novas Unidades de Conservação no Amazonas era somente possível com a perspectiva de implementação de um mecanismo fi nanceiro, sob construção no escopo da Iniciativa Amazonas. A criação da reserva do Juma (em 2006) e a cons- trução do DCP (como o primeiro projeto-piloto de REDD no Amazonas) são as etapas fi nais do compromisso de longo prazo iniciados em 2003 pelo governo de Amazonas.

Sendo assim, para propósitos de análise de adicionalidade, a data de início das atividades do projeto de REDD da RDS do Juma é no ano de 2003 - quando o programa ZFV foi lançado. Entretanto, para a defi nição do período de creditação do projeto, a data de início do projeto é a data da criação da RDS do Juma (2006), quando os limites do projeto foram claramente delimitados e o projeto de REDD do Juma começou ser diretamente implementado.

Não havia nenhuma exigência legal para que o governo do Amazonas criasse a RDS do Juma na data em que ela foi criada (2006). O cenário mais provável para o uso da terra (terras estaduais) seria a criação de assentamentos rurais para pecuária ou agricultura, ou sua ocupação por grileiros. Esta situação pode ser confi rmada a partir da análise do cenário de “negócios como sempre” para o uso da terra, observado em todos os estados restantes da Amazônia brasileira nos últimos anos.

Os recursos obtidos com a venda de créditos de carbono sempre foram conside- rados na decisão de criar a reserva do Juma (bem como na criação das outras áreas protegidas recentemente criadas pelo atual governo do Amazonas) e nos processos de criação das políticas do programa ZFV para a conservação fl orestal e programas de pagamentos por serviços ambientais, previstos pelo governo de Amazonas em 2003 (Braga & Viana, 2003). Este processo seguiu uma cadeia de acontecimentos que to- mam tempo e seguem um lento e burocrático processo político, como: a criação de leis novas, convencimento de parlamentares, modifi cação de impostos estaduais, arti- culação com atores nacionais e internacionais, contatos com investidores e acionistas, etc.

No momento em que este processo se iniciou, em 2003, não havia nenhum me- canismo de compensação para a redução das emissões do desmatamento (REDD), nem perspectivas nas negociações de UNFCCC, nem nos mercados voluntários, então a consideração de recursos do carbono no processo não foi tão simples. Os chamados “benefícios de carbono do REDD” foram considerados como “pagamento por serviços ambientais” e são extensivamente documentadas em Braga & Viana (2003) e em Ama- zonas (2002). Após estes eventos, o governo do Amazonas esteve muito ativo e teve um papel fundamental no processo, infl uenciando o processo da agenda de REDD

Todas estas etapas foram fundamentais e ocorreram no tempo certo para condu- zir à criação do Projeto de REDD na RDS do Juma (2006), a lei estadual de mudanças climáticas e a lei de Unidades de Conservação (2007), a Fundação Amazonas Susten- tável - FAS (2008), e fi nalmente o contrato com a rede de hotéis Marriott Internacional - que resultou em um processo de “aprender fazendo” - necessário para o Governo do Amazonas estabelecer a estrutura existente do mercado de pagamentos por serviços ambientais, promovendo a conservação fl orestal e a redução do desmatamento den- tro das terras do estado.

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