• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II QUADRO CONTEXTUAL E REFERÊNCIAL

2.5 Adipocinas

O tecido adiposo é conhecido por possuir várias funções, entre elas: armazenamento de energia, regulação hormonal dos sistemas homeostáticos, termogênese e proteção de impacto contra as vísceras. Como órgão secretor, o tecido adiposo apresenta várias particularidades. Encontra-se disperso pelo organismo, em depósitos sem ligação física entre si, cuja atividade secretória é regulada por mecanismos humorais e hormonais, não totalmente esclarecidos.

Nesses depósitos individuais, encontram-se vários tipos celulares (macrófagos, fibroblastos, pré-adipócitos e adipócitos) com atividade secretória variável. (SANTOS et al,2010).

Podemos dizer que o tecido adiposo tem uma importante função endócrina, pois secreta uma variedade de proteínas sintetizadas e liberadas pelos adipócitos, denominadas adipocinas, as quais têm ações diversas, podendo-se agrupá-las de acordo com a sua principal função em adipocinas com função imunológica, cardiovascular, metabólica e endócrina. (COSTA et al, 2006). As adipocinas são também produzidas por outros tecidos, sendo difícil determinar a contribuição do tecido adiposo para os níveis de adipocinas circulantes.

Além disso, as adipocinas agem na: regulação de apetite e balanço energético, imunidade, sensibilidade à insulina, inflamação e resposta de fase aguda, pressão sanguínea e metabolismo de lipídeos (MAFRA et al, 2006).

Pesquisas são desenvolvidas relacionando as adipocinas frequentemente à obesidade, resistência à insulina, esteatose hepática não alcoólica e às diversas doenças inflamatórias, porém estudos recentes estão sendo desenvolvidos indicando as mesmas como possíveis marcadores para dependência química.

Segundo Volkow (2005), os mesmos neurotransmissores e hormônios que controlam o consumo alimentar e o peso corporal regulam também a sensibilidade à recompensa da droga no cérebro. Em levantamento bibliográfico nas principais bases de dados científicas, constata-se poucos artigos relacionando o uso de tabaco aos hormônios proteicos, entretanto um número bem reduzido de pesquisadores correlacionam a fissura, ou craving, e a abstinência ao mecanismo de ação das adipocinas, ainda que isoladamente a alguma específica apenas relatando a possibilidade de que algumas delas possam ser consideradas marcador para a fissura em tabagismo.

A leptina, adiponectina e resistina são algumas das adipocinas que promovem alterações metabólicas no organismo. Dentre as adipocinas, essa pesquisa limitou-se a trabalhar com a adiponectina e leptina por serem as adipocinas metabólicas mencionadas na literatura como possíveis marcadores biológicos para dependência química. Além das adipocinas descritas, após

debruçar-me na literatura, optou-se por também pesquisar a grelina em virtude dos estudos descrevê-las em pesquisas do tabagismo.

2.5.1 Adiponectina

A adiponectina, descoberta em 1995, é uma proteína plasmática, que é secretada especificamente pelo tecido adiposo, sendo sua expressão maior no tecido adiposo subcutâneo do que no visceral. Segundo Fantuzzi (2005), a adiponectina circula em altas concentrações no sangue humano, bem mais alta se comparada com a leptina, por exemplo.

Sua síntese e secreção são reguladas por diversos mecanismos. Ao contrário da maioria das proteínas secretadas pelo tecido adiposo, a expressão de adiponectina diminui à medida que o tecido adiposo aumenta (GUIMARÃES, 2007).

Concentrações séricas de adiponectina são menores em indivíduos obesos com estado de resistência à insulina, uma vez que se correlacionam negativamente com a porcentagem de gordura corpórea, tolerância oral de glicose, insulina plasmática em jejum, além de fatores de risco cardiovascular, como pressão arterial, colesterol total, LDL colesterol, triglicérides e ácido úrico (CARVALHO, 2006).

Isso mostra que o declínio da adiponectina acompanhado pelas mudanças apontadas, pode estar relacionado ao IMC e massa gorda do indivíduo, ou seja, as concentrações desse hormônio diminuem com a obesidade crescente. Outros fatores característicos que influenciam na concentração sérica dessa adipocina são sexo, idade, e estilo de vida. Mulheres possuem nível de adiponectina circulante maior do que homens, o que reflete um efeito androgênico (GREENBERG, 2006).

Muitas pesquisas demonstraram que o grau de obesidade influencia diretamente nos níveis circulantes desses hormônios, sendo que a maioria delas apresentou correlação positiva entre obesidade e leptina, correlação negativa entre obesidade e adiponectina (SILVEIRA et al, 2009).

A adiponectina é capaz de inibir outras citocinas pró-inflamatórias e de aumentar os níveis de citocinas anti-inflamatórias, sendo um potente anti- inflamatório tecidual que parece atenuar a resistência à insulina no fígado a inflamação e a fibrose hepática. Em contrapartida seus níveis encontram-se diminuídos em pacientes com esteatose hepática não alcoólica e fibrose hepática. (SHEHZAD et al, 2012).

Em relação ao tabagismo, quatro estudos publicados nos últimos cinco anos correlacionaram a adiponectina com a cessação tabágica no tratamento do tabagismo. Para Kryfti et al (2015) há limitações e discordâncias entre os artigos científicos que correlacionam as adiponectinas e as leptinas ao tratamento em tabagistas e então em seu artigo analisou os níveis séricos das adiponectinas e leptinas com o tabagismo, constatando que os níveis de leptina aumentaram significativamente do início da cessação até 3 meses, e depois diminuíram significativamente de 3 a 6 meses. Já os níveis de adiponectina aumentaram significativamente do início a 3 meses. Aponta ainda em seu estudo que ganho de peso e alterações na distribuição de gordura podem atenuar os efeitos benéficos da cessação do tabagismo.

Para Toffolo et al (2018), ao final do tratamento, os abstinentes apresentaram níveis mais elevados de adiponectina quando comparados aos que permaneceram fumantes e houve uma redução nos níveis de adiponectina após o tratamento em abstinentes e fumantes quando comparados com as dosagens iniciais. Este estudo demonstrou que a cessação do tabagismo melhora os níveis de adiponectina quando comparados aos fumantes.

Won et al (2014) avaliou as alterações dos níveis plasmáticos de adiponectina após a cessação do tabagismo comparando as dosagens iniciais e até o terceiro mês de tratamento, concluindo que os níveis médios plasmáticos de adiponectina no grupo que parou de fumar aumentou significativamente após 4 semanas.

Komiyama et al (2018) com o objetivo de elucidar as mudanças nos níveis séricos da adiponectina após cessação do fumo e os efeitos da obesidade abdominal nessas alterações, em sua pesquisa concluiu que o índice de massa corporal e a circunferência da cintura aumentaram significativamente 1 ano após

o início da cessação, no entanto, os níveis séricos de adiponectina não mudaram e que o efeito benéfico da cessação do fumo pode eliminar efeitos adversos do ganho de peso subsequente. Nos pacientes com menos gordura abdominal os níveis de adiponectina aumentaram depois de 1 ano, nestes, o efeito benéfico da cessação na adiponectina é aparente.

2.5.2 Leptina

A leptina, descoberta em 1994, é um hormônio peptídico, produzido predominantemente pelo tecido adiposo e por outros tais como: placenta, medula óssea, estômago, músculo e talvez no cérebro (Fonseca, 2007). Ocupa papel central na homeostase energética e nas funções metabólicas, reprodutivas, neuroendócrina e imunológica. A leptina é uma molécula sinalizadora derivada de adipócitos, responsável por limitar a ingestão de alimentos e promover o aumento do gasto energético por interação com receptores específicos localizados no sistema nervoso central - SNC e nos tecidos periféricos. São responsáveis pela regulação hipotálamo- pituitária – adrenocortical - HPA inibindo o cortisol em resposta ao estresse. (RESELAND et al, 2005).

A desregulação do sistema neuroendócrino, em particular do eixo HPA, tem sido associado com uma variedade de transtornos psiquiátricos. Dados de estudos clínicos e pré-clínicos sugerem que o comprometimento da função do eixo HPA e a regulação de cortisol em resposta ao estresse estão associados diretamente com o aumento da ingestão do álcool e da recaída ao tabaco. (Al'absi et al, 2011; Roubos et al, 2012). Para Al‘Absi et al (2011), deve ser realizado o acompanhamento dos níveis séricos de leptina como sugestão de marcador biológico para a fissura e mudanças de humor em tabagistas em abstinência.

A obesidade está relacionada com o aumento de níveis séricos de leptina, numa relação direta com o IMC e a adiposidade corporal. (GODOY-MATOS, 2014). Na obesidade, os níveis circulantes da leptina elevados não induzem a resposta de diminuição de ingestão e aumento energético. Sua ligação aos receptores hipotalâmicos determina a liberação de neuropeptídios anorexígenos.

Estudos publicados nos últimos cinco anos correlacionaram a leptina com a cessação tabágica em indivíduos em tratamento. Para Gomes et. al (2015), a

leptina inibe a liberação do cortisol e pode aumentar a fissura por cigarros, dificultando o processo de cessação tabágica, demonstrando ainda em seus estudos, que há redução da fissura após um mês de tratamento em mulheres que pararam de fumar. A leptina é sugerida não somente como marcador para o tratamento do tabagismo onde maiores concentrações de leptina foram associadas a maior desejo e dificuldade em alcançar a abstinência, como também em alcoolistas. (AGUIAR et al, 2013).

Lemieux et al (2015) realizaram estudo analisando a relação da leptina com a fissura nas primeiras 48 horas após cessação com após um mês do tratamento, fazendo comparação entre gênero. A análise indicou que um aumento de leptina no início da cessação prediz abstinência. O maior aumento em mulheres, mas não em homens, em resposta à abstinência, fornece mais evidências de importantes diferenças de gênero. A correlação negativa entre a leptina e os sintomas de abstinência indica um possível efeito protetor da leptina.

Potretzke et al (2014) em seu estudo examinou padrões de mudança na leptina em resposta ao estresse e associações com o desejo durante a fase inicial de uma tentativa de parar de fumar. Os resultados comprovaram que os níveis séricos de leptina aumentaram significativamente após exposição ao estresse agudo. Foram encontrados também correlações positivas entre a leptina e o desejo por cigarros. Não foram observadas diferenças nos níveis de leptina entre fumantes que mantiveram a abstinência por 4 semanas e aqueles que recaíram durante esse período. Esses achados sugerem que os níveis de leptina podem mudar em resposta ao estresse e que a leptina pode ser um marcador útil de desejo por fumar.

Documentos relacionados