4 A COMPETÊNCIA PARA LEGISLAR EM MATÉRIA DE PROTEÇÃO
4.1 Orientação do STF acerca dos conflitos que envolvam competência legislativa
4.1.2 ADIs 2396/MS, 2656/SP, 3937/SP, 3357/RS e ADPF 234-MC/SP: o caso do
Na ADI 2396/MS, julgada em 2003, a Relatora, Min. Ellen Gracie,87 inferiu que não caberia à Suprema Corte dar a última palavra sobre propriedades técnico-científicas do amianto crisotila, visto que apenas autoridades sanitárias estariam aptas a realizar tal inspeção. A Ministra, ainda, aduziu que, ao legislar sobre proibição de fabricação, de ingresso, de estocagem e de comercialização de amianto ou de produtos à base de amianto para construção civil, o Estado do Mato Grosso do Sul excedeu a competência concorrente que lhe foi outorgada para dispor sobre produção e consumo, proteção ao meio ambiente e proteção e defesa da saúde. No caso, lei federal 9.055/95 fixava regras gerais sobre o amianto crisotila e ditava minúcias a respeito da fabricação, ingresso, estocagem, comercialização de amianto ou produtos à base de amianto para construção civil. A legislação referida permitia expressamente a comercialização, a industrialização, a extração e a utilização do amianto crisotila. Ao firmar seu voto, a Ministra adotou a orientação de que leis estaduais não poderiam contrariar nem inovar leis federais que traçassem normas gerais, aduzindo que a lei 9.055/95 delineava os princípios gerais sobre o tema, não adentrando no mérito da validade desta última lei. O entendimento da Relatora foi seguido por unanimidade pelos presentes.
No mesmo sentido se deu a orientação do STF88 no julgamento da ADI 2656/SP, realizado em 2002, momento no qual foi declarada a inconstitucionalidade da lei 10.813/01 de São Paulo, a qual proibia a extração e a comercialização de amianto crisotila.
Em 2011, por meio da ADPF 234-MC/SP, houve o questionamento da constitucionalidade da lei paulista 12.684/07, que proibia, em alguns de seus dispositivos, o transporte de amianto, em qualquer de suas variedades, pelas rodovias e pelos portos do Estado de São Paulo.
87BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade 2396/MS. Requerente: Governador
do Estado de Goiás. Requeridos: Governador do Estado do Mato Grosso do Sul e Assembleia Legislativa do Estado do Mato Grosso do Sul. Relatora: Ellen Gracie. Brasília, DF, 08 de maio de 2003. Disponível em: <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=375387>. Acesso em: 26 ago. 2016.
88BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade 2656/SP, Requerente: Governador
do Estado de Goiás. Requeridos: Governador do Estado de São Paulo e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Relator: Ministro Maurício Corrêa. Brasília, DF, 17 de junho de 2002. Disponível em: <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=266877>. Acesso em: 27 ago. 2016.
Em seu voto, o Relator, Min. Marco Aurélio89, disse entender que a discussão, nessa ADPF, não se confundia com outros debates havidos na Corte a respeito da proibição do uso e comercialização do amianto. Para ele, a ADPF tratava da inviabilização do acesso a serviços públicos constitucionalmente atribuídos à União, como as rodovias e o porto de Santos, não se tratando, neste momento, propriamente, de matéria afeta à proteção ao meio ambiente ou à saúde. Não havia, portanto, a seu ver, motivos para incidência do art. 24, da CRFB/88. A medida cautelar foi deferida, em parte, por maioria dos votos, para determinar a suspensão da eficácia das interdições ao transporte interestadual e internacional de cargas de amianto, inclusive na variedade crisotila, observadas as disposições legais e regulamentares editadas pela União. Nesse sentido, o Min. Relator disse entender que competia privativamente à União legislar sobre matéria de comércio interestadual e exterior, uma vez que o bom senso recomendava que questões relacionadas ao interesse nacional fossem tratadas de maneira uniforme, para todo o país, lembrando que a Suprema Corte já havia declarado o entendimento de que portos eram serviços públicos federais. Ademais, ressaltou o Ministro que, apesar do caráter alegadamente cancerígeno do produto, a lógica da distribuição de competências precedia o julgamento quanto à benignidade, ou não, do resultado da norma. Aduziu, que, em Direito, os meios justificam os fins, e não o contrário.
Entretanto, levantando divergência do entendimento do Min. Marco Aurélio, os Ministros Ayres Britto, Celso de Mello e Cezar Peluso90 afirmaram que a questão se tratava de competência concorrente e que o Estado-membro agiu em consonância com a proteção ao meio ambiente e com a defesa da saúde. Para eles, ao proibir o uso e comercialização do amianto, produto reconhecidamente tóxico, a norma estadual atendia muito mais à CRFB/88 do que a lei federal que tratava do tema. Para o Min. Celso de Mello, não se deveria invocar a Lei Federal 9.095/95 (a qual permitia o transporte e o uso do amianto na variadade crisotila) para o caso, pois esta seria menos fiel ao mandamento constitucional do que a lei estadual. Tal Ministro disse entender, ainda, que o Estado de São Paulo, no desempenho de sua autonomia politico-jurídica, objetivando preservar a vida e a saúde de sua população e a integridade de seu patrimônio ambiental, editou a lei questionada de modo legítimo, uma vez que legislou de acordo com a competência suplementar atribuída pelo art. 24, § 2, da CRFB/88.
89BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Medida Cautelar na Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental 234 /SP. Requerente: Associação Nacional de Transporte de Cargas e Logística. Requeridos: Governador do Estado de São Paulo e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Relator: Ministro Marco Aurélio. Brasília, DF, 22 de outubro de 2012. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF234.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2016.
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Longe de ter seu desfecho no STF, a questão da legislação estadual que proíbe uso do amianto, em qualquer de suas variedades, também foi problematizada neste Tribunal, a partir das ADIs 3937/SP e 3357/RS. O julgamento de ambas as ações será finalizado conjuntamente, tendo em vista a similitude fática e jurídica de ambas, mas, por ora, encontra- se suspenso.
Assim, em 2012, o Relator da ADI 3937/SP, Min. Marco Aurélio91, manifestou-se favorável à inconstitucionalidade da norma paulista a qual vedava o uso de amianto no Estado-membro. Para firmar seu entendimento, o ministro procedeu à avaliação do art. 2º da lei federal 9.055/95, que autorizava o uso, comercialização e produção do amianto da variedade crisotila, concluindo pela constitucionalidade desse dispositivo. De acordo com o seu voto, as variáveis envolvidas quanto ao risco à saúde pública, laboral e ao meio ambiente, por um lado, e impactos econômicos e sociais, por outro, não permitiriam ao Supremo fazer um juízo seguro das consequências futuras de uma decisão proibindo o uso do amianto crisotila, devendo a decisão ficar a cargo de um juízo político, por meio dos Deputados e dos Senadores do Poder Legislativo Federal. Na avaliação do Min. Marco Aurélio, a Convenção 162 da Organização Internacional do Trabalho, promulgada, no Brasil, pelo decreto federal 126/1991, não imporia o banimento da produção de crisotila, uma vez que estabeleceria procedimentos para o seu uso seguro, o que seria contraditório caso a norma fosse proibitiva. A Convenção recomendou também a revisão periódica das normas sobre o tema, pelo Congresso, a fim de incorporar o desenvolvimento técnico e aumento do conhecimento científico sobre o produto.
Divergindo por completo do voto do Min. Marco Aurélio, o Relator da ADI 3357/RS, Min. Ayres Britto92, na mesma oportunidade, em 2012, mostrou-se favorável à lei gaúcha que proibia o uso de amianto, inferindo que, se a União tomou a dianteira do ato de legislar, poderia fazê-lo, mas deveria conter-se na produção de normas gerais. Na ocasião, o Min. Ayres Brito salientou que os Estados e o Distrito Federal deveriam produzir normas do
91BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade 3937/SP. Requerente:
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria. Requeridos: Governador do Estado de São Paulo e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Relator: Ministro Marco Aurélio. Brasília, DF, 31 de outubro de 2012. Disponível em: <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=553763>. Acesso em: 27 ago. 2016.
92BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade 3357/RS. Requerente:
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria. Requeridos: Governador do Estado do Rio Grande do Sul e Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. Relator: Ministro Ayres Britto. Brasília, DF,
31 de outubro de 2012. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/arquivo/informativo/documento/informativo686.htm#Amianto e competência legislativa concorrente - 13>. Acesso em: 27 ago. 2016.
tipo suplementar, as quais serviriam para acudir, solver os eventuais déficits de que venham a padecer as normas gerais editadas pela União. O Min. Relator salientou, ainda, que os bens jurídicos contidos na Constituição Federal, como meio ambiente e saúde, teriam um invariável sentido digno de toda a proteção normativa. Entendeu, também, que a norma estadual, em verdade, cumpriria muito mais a Constituição Federal no plano da proteção da saúde – inclusive evitaria riscos à saúde da população em geral, dos trabalhadores em particular, do meio ambiente – do que a lei federal. Para ele, a legislação estadual estaria muito mais próxima do sumo princípio da efetividade máxima da Constituição em tema de direitos fundamentais.
4.1.3 ADIs 2303-MC/RS, 3035/PR, 3645/PR : o caso dos Organismos Geneticamente