Capítulo III – O Estuário do Tejo enquanto destino turístico náutico
III.2 Actividades socioeconómicas e de lazer do Estuário do Tejo e seus impactes
III.2.1 Os agentes dinamizadores do estuário do Tejo
III.2.1.1 Administração da Região Hidrográfica do Tejo: POE Tejo
A ARH Tejo tem uma área considerável para gerir e organizar, como se pode verificar através da leitura do quadro 8, representando 31% da área de Portugal e 32% da sua frente litoral e do número de zonas balneares.
Esta entidade está de momento a desenvolver, com diversas entidades parceiras, e ouvindo inúmeros e reconhecidos especialistas e técnicos, o POE Tejo.
84 Por dificuldade de aceder a uma base de dados completa, construiu-se uma própria, com a finalidade de organizar os contactos, nomes e actividades das empresas e
outras entidades, e permitir contactar as mesmas, aquando do envio dos inquéritos implementados online. Muitas delas são empresas que operam na área do turismo, mas outras apenas foram contactadas por se situarem na orla estuarina e outras áreas ribeirinhas, por isso, com alguma relação à actividade náutica ou ao rio Tejo. Posteriormente foram sendo acrescentadas novas entidades.
Quadro 8 – Área de jurisdição da ARH do Tejo, I.P.
Fonte: ARH Tejo (2009), in C.M.Seixal online
Os Planos de Ordenamento dos Estuários (POE), regulamentados pelo D.L. 129/2008, de 21 de Julho, visam a protecção das suas águas, leitos e margens e dos ecossistemas que as habitam, assim como a valorização ambiental, social, económica e cultural da orla terrestre envolvente e de toda a área de intervenção do plano.
Os POE têm por objecto o estuário (constituído pelas águas de transição e pelos seus leitos e margens) e a orla estuarina (zona terrestre de protecção cuja largura é fixada na resolução do Conselho de Ministros que aprovar o POE, até ao máximo de 500 m contados a partir da margem, salvo nos perímetros urbanos definidos nos planos municipais de ordenamento do território, integrados na zona terrestre de protecção, em que os POE apenas dispõem sobre regras e medidas de protecção, salvaguarda, valorização e qualidade dos recursos hídricos, em conformidade com o disposto na Lei da Água86 e nos seus termos).
A elaboração destes planos compete às Administrações das Regiões Hidrográficas, I. P. (ARH), contudo, quando a área de intervenção de um POE coincide, total ou parcialmente, com uma área protegida integrada na Rede Nacional de Áreas Protegidas, a elaboração do POE deve ser realizada em colaboração com o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, I. P. (ICNB).
São objectivos específicos dos POE:
a) Definir regras de utilização do estuário, promovendo a defesa e qualidade dos recursos naturais, em especial dos recursos hídricos, de acordo com o disposto na Lei da Água e tendo em conta as disposições do D.L. 77/2006, de 30 de Março, indicando as medidas de protecção e valorização dos recursos hídricos a executar, nomeadamente as medidas de conservação e reabilitação da zona costeira e estuários;
86 A Lei da Água, aprovada pela Lei 58/2005, de 29 de Dezembro, assim transpondo para a ordem jurídica nacional a Directiva n.º 2000/60/CE, do Parlamento
Europeu e do Conselho, de 23 de Outubro, estabeleceu as bases e o quadro institucional para a gestão sustentável das águas. Esta instituiu os planos de ordenamento dos estuários como planos especiais de ordenamento do território, a par dos planos de ordenamento de albufeiras de águas públicas, dos planos de ordenamento da orla costeira e dos planos de ordenamento de áreas protegidas, alterando para o efeito o n.º 3 do artigo 42.º do D.L. 380/99, de 22 de Setembro, na redacção que lhe foi dada pelo D.L. 310/2003, de 10 de Dezembro.
b) Definir regras e medidas de utilização da orla estuarina, com consideração dos instrumentos de gestão territorial aplicáveis, que permitam uma gestão sustentada dos ecossistemas associados;
c) Identificar as áreas fundamentais para a conservação da natureza e da biodiversidade no estuário e na respectiva orla e, nos casos em que tal se justifique, estabelecer níveis diferenciados de protecção;
d) Estabelecer os usos preferenciais, condicionados ou interditos na área abrangida pelo plano, salvaguardando os locais de especial interesse urbano, recreativo, turístico, paisagístico, ambiental e cultural.
Ainda no art.º 4º do mesmo D.L. 129/2008, salienta-se que:
“ 3 - Quando sobre a área de intervenção de um POE incidir, total ou parcialmente, um plano de ordenamento de área protegida, o POE estabelece, na área de sobreposição dos dois planos, apenas as regras de utilização do estuário no que respeita à defesa, valorização e qualidade dos recursos hídricos.
4 - Quando a área de intervenção de um POE abranger uma área ou zona portuária, constituem ainda objectivos do plano a garantia das condições para o desenvolvimento da actividade portuária e a garantia das respectivas acessibilidades marítimas e terrestres.
5 - Para efeitos do número anterior, entende-se como actividade portuária o conjunto das actividades directa ou indirectamente associadas a um porto, nomeadamente a navegação comercial, turística e desportiva, a pesca, a gestão da área ou zona portuária e das áreas logísticas associadas.”
Estes projectos reflectem oportunidades e desafios que, no que toca ao POE Tejo87, passam por: uma correcta identificação dos usos e actividades que interferem com o bom estado das massas de água e das normas e medidas a implementar para a sua correcção; um envolvimento dos principais actores chave em torno da elaboração de um plano que tem em vista a promoção da concertação de interesses e geração de consensos, com vista a uma responsabilidade partilhada no ordenamento e gestão com vista à sua sustentabilidade; uma adequada compatibilização das actividades económicas – portuárias, industriais, turísticas, de transporte e da pesca – com as funções de protecção dos valores naturais e as actividades de recreio e lazer; uma cooperação inter-municipal na articulação e complementaridade de projectos de valorização de frentes
87 Constitui uma figura nova no regime jurídico dos instrumentos de gestão territorial, constituindo uma sede privilegiada de discussão de opções de ordenamento e
gestão em torno do estuário, entre os vários actores que sobre ele actuam e o usufruem, para uma efectiva abordagem integrada e sustentável de gestão da água e dos usos com ela conexos. (Lacerda, 2009: p.5)
ribeirinhas; e uma identificação de parcerias associadas a determinadas acções na gestão dos recursos hídricos do estuário.
O ambicioso calendário apresentado e restante informação adicional são colocados online, no site da ARH Tejo, onde está igualmente disponível o quarto volume da colecção Tágides, intitulado O Plano de Ordenamento do Estuário do Tejo, Saberes e Reflexões, na qual se espelham as reflexões de vinte e três personalidades/ entidades que participaram na primeira reunião oficial havida (a 23 de Julho de 2009), referente ao POE Tejo.
São muitas as entidades e técnicos especialistas a colaborar neste trabalho, pelo que se espera que o mesmo permita um crescimento sustentável do estuário e da actividade turística no mesmo e ajude a criar um “governo” para este território.