Aprovação Pontifícia "...Aprovamos, louvamos e corroboramos, com o patrocínio do presente escrito, os Documentos e Exercícios mencionados, e todas e cada uma das coisas neles contidas, com a nossa autoridade, a teor das presentes letras, e com nossa ciência certa; exortamos muito no Senhor a todos e cada um dos Fiéis de Cristo, de ambos os sexos, em qualquer lugar do mundo onde se encontrem, a que usem tão piedosos Documentos e Exercícios, e queiram devotamente com eles instruir-se..." ( Paulo III, no Breve "Pastoralis Officii"de 31 de Julho de 1548 )87
“Para Vencer a si Mesmo88”
Jerome Nadal (1507-1580), um espanhol de Majorca, foi um dos primeiros dez membros da Sociedade de Jesus. Por muitos anos serviu como o representante ou o “secretário pessoal” do fundador, Inácio de Loyola (1491-1556), visitando as casas dos jesuítas por toda a Europa, explicava e aplicava pessoalmente as Constituições da sociedade de Jesus.
O próprio Inácio incentivou Nadal a compilar e distribuir um guia ilustrado para a prática de meditação baseada nos evangelhos e na tradição dos exercícios espirituais, embora o trabalho não tenha sido publicado antes que ambos morressem. Nadal selecionou as cenas bíblicas, preparou e definiu a disposição das ilustrações e das notas compostas para acompanhar cada cena. Com a cooperação de Christophe Plantin e Martinus Nutius de Antuérpia, 153 gravuras foram produzidos posteriormente também por Bernardino Passeri, Marten de Vos e Jerome e Anton Wierix.
Em 1593 estas ilustrações foram publicadas em um volume intitulado Evangelicae
Historiae imaginam (“ilustrações das histórias do evangelho”), arranjado em ordem cronológica da vida e do ministério de Jesus. Em 1594 e em 1595 novamente foram publicados, só que em volumes maiores, intitulados Adnotationes et Meditationes in
Evangelia (“Anotações e Meditações baseadas nos Evangelhos”), acompanhado de um texto mais extensivo e rearranjados de acordo com a ordem das leituras usadas no ano litúrgico, como prescrito no Missal Romano.
Estes livros tornaram-se muito influentes na Contra-Reforma européia, visto que as
87 Loyola, Inácio Editora do Apostolado op cit. Autorização papal. 88 ibidem
ilustrações eram um dos primeiros exemplos de uso das novas técnicas “do desenho de perspectiva,” que apresentava de maneira mais realística formas tridimensionais em desenhos bidimensionais. Estas técnicas fizeram as histórias do Evangelho se tornassem muito mais vibrantes e realísticas, e assim mais eficazes como instrumento para a evangelização e a meditação. A influência destas gravuras pode claramente ser vistas no trabalho de alguns ilustradores posteriores da Bíblia como Gustave Dore.
Nadal foi, juntamente com Polanco, um dos pilares da Tríade de comando da Companhia de Jesus. Foi um dos idealizadores e articuladores dos colégios jesuítas. Em 1552, Inácio enviou Jerome Nadal aos vários países da Europa onde havia Colégios para apresentar a primeira versão da Ratio Studiorum que iria uniformizar a organização e funcionamento dos Colégios. Quando regressou em 1557, Nadal foi nomeado Prefeito do Colégio Romano, cargo que exerceu durante dois anos, vindo a ser nomeado Reitor em 1564. Foi no exercício destes dois cargos que fez a revisão da Ratio Studiorium anterior. Trabalho apenas concluído no final do século (1595) então Superior Geral da Companhia, Cláudio Acquaviva. Finalmente, em 1599, foi publicada a edição definitiva da Ratio
Studiorum que regulamenta o modelo de ensino praticado durante séculos pela Companhia de Jesus. As práticas e o modelo de ensino relacionavam-se intimamente com as Constituições da Companhia e com os Exercícios Espirituais, onde se alternavam modelos vindos da tradição medieval e “novidades” oriundas do momento vivido pela Igreja e pelo mundo da época. “Assim é que o jesuitismo aspirou por em relevo, no seio da dogmática
católica, a doutrina do livre arbítrio; a liberdade contraditória da escolha entre duas possibilidades opostas, entre o agir e o omitir, entre o bem e o mal, entre Cristo e Lúcifer. Conforme a decisão que o homem toma livremente, irá ele ser chamado para o Reino dos Céus, ou condenado ao Inferno. Para o homem educado no espírito escolástico, havia, no início dos tempos modernos, a bem dizer, apenas uma única forma de demonstração científica: a citação do maior número possível de doutores autorizados do passado. Se uma tese podia ser apoiada com uma série imponente de citações dessa ordem, tiradas, se possível, da Bíblia ou das obras dos Padres da Igreja, então, ela passava a ser considerada irrefutável, de acordo com a firme convicção da época89”.
“Nadal, assim como outros de sua época; esperava ansiosamente por um tempo em
que a arte da oratória propriamente ‘cristã’ pudesse ser realizada, mas acreditava que tal arte teria ainda que se inspirar em partes dos tratados clássicos que tratam de provocar sentimentos de amor. A antiga disputa se os clássicos eram compatíveis com o cristianismo era uma questão morta para os jesuítas, como era então para muitos de seus contemporâneos. A provisão nas Constituições de não pregar na matéria escolástica pode não ter refletido perfeitamente a prática real da primeira geração [de jesuítas], mas
certamente pressagiava o futuro90”.
O Cristianismo foi, senão o principal, um dos mais eficientes instrumentos do avanço europeu pelo mundo das conquistas marítimas do Século XV-XVI. Através dele se estabeleceu uma ligação com outros povos dos diversos continentes e se construiu um espelho das relações econômicas, políticas, sociais e espirituais.
“Aonde chegasse a proa dum navio português, podia aparecer ou não uma espada,
surgia com certeza uma cruz”91. A conquista espiritual teve suas armas, algumas delas representadas em imagens narrativas e iconográficas que buscavam educar o olhar e a memória de tantos quantos com ela tivessem contato. Armas por vezes mais poderosas que as dos exércitos que destruíram e pilharam os povos de todo mundo.
Os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola, concebidos nas origens de sua opção pelo caminho religioso e da criação da Companhia de Jesus, se inserem dentro de um contexto de transformações na Igreja e na Europa. No final do Século XV (1492) é reconquistado o último território controlado por muçulmanos, Granada, pelos reis católicos da Espanha. Vivendo o momento e envolvido nas histórias de cavalarias e de conquistas, Inácio vai aos poucos se moldando, seguindo os exemplos dos santos, das imagens que vê nas igrejas que encontra em seu caminho, dos livros. Vai construindo seus textos. Baseado em tantos outros que lia. Vai montando seus exercícios, onde a imagem ocupa lugar proeminente na construção da memória.
“O Primeiro preâmbulo é composição, vendo o lugar. Aqui é de
notar que, na contemplação ou meditação visível, assim como contemplar a Cristo nosso Senhor, o qual é visível, a composição será ver, com a vista da imaginação, o lugar material onde se acha aquilo que
90 O’Malley, John W. op cit p. 158-159
quero contemplar. Digo o lugar material, assim como um templo ou monte onde se acha Jesus Cristo ou Nossa Senhora, conforme o que quero contemplar. Na invisível, como é aqui a dos pecados, a composição será ver, com a vista imaginativa e considerar estar a minha alma encarcerada neste corpo corruptível e todo o composto neste vale, como desterrado, entre brutos animais. Digo todo o composto de alma e corpo92”.
“Mas a imagem se forma no centro e no germe da espiritualidade jesuíta, nos Exercícios. (...) Mas aquele que se exercita é convidado também a ‘imaginar’ o invisível, e ‘ver com o olhar da imaginação’ sua alma aprisionada em seu corpo e a alma e o corpo exilados num vale entre animais desprovidos de razão93”.
Amplamente discutido no Concílio de Trento94, o uso de imagens vai propiciar a Jerome Nadal atender a solicitação de Inácio e transpor para imagens os exercícios espirituais e passagens do evangelho. Ficou definido no Concílio que:
“Manda o Santo Concílio a todos os bispos, aos encarregados do ensino e aos que mantêm cura, que instruam diligentemente os fiéis, sobretudo no que diz respeito à intercessão e invocação dos Santos, à veneração das suas Relíquias e ao uso legítimo das Imagens, segundo o costume da Igreja Católica recebido dos primórdios do Cristianismo, conforme o consenso comum dos Santos Padres e os decretos dos sacros Concílios. Ensinem-lhes que os Santos reinam juntamente com Cristo e oferecem a Deus suas orações pelos homens” (...) “Quanto às Imagens de Cristo, da Santíssima Virgem e de outros
Santos, se devem ter e conservar especialmente nos templos e se lhes deve tributar a devida honra e veneração, não porque se creia que há nelas alguma divindade ou virtude pelas quais devam ser honradas, nem porque se lhes deva pedir alguma coisa ou depositar nelas alguma confiança, como outrora os gentios, que punham suas esperanças nos ídolos (cfr. Sl 134, 15 ss), mas porque a veneração tributada às Imagens se refere aos protótipos que elas representam, de sorte que nas Imagens que osculamos, e diante das quais nos descobrimos e ajoelhamos, adoremos a Cristo e veneremos os Santos, representados nas Imagens. Isto foi sancionado nos decretos dos Concílios, especialmente no segundo de
92 Loyola, Inácio Livraria do Apostolado op cit. P.12 e 13. 93 Besançon, Allan, op cit 293.
Nicéia contra os iconoclastas”. (...) “Os bispos ensinem, pois, diligentemente, com
narrações dos mistérios de nossa redenção, com quadros, pinturas e outras figuras, pois assim se instrui e confirma o povo, ajudando-o a venerar e recordar assiduamente os artigos de fé. Então sim, grande fruto se poderá auferir do culto das sagradas Imagens, não só porque por meio delas se manifestam ao povo os benefícios e as mercês que Deus lhes concede, mas também porque se expõem aos olhos dos fiéis os milagres que Deus opera pelos seus Santos, bem como seus salutares exemplos. Rendam, assim, por eles graças a Deus, regulem a sua vida e costumes à imitação deles e se afervorem em adorar e amar a Deus, fomentando a piedade. Se alguém ensinar ou pensar de modo contrário a estes decretos — seja excomungado”.(...) E, finalmente, “E se alguma vez acontecer que
se representem e ilustrem episódios e narrações da Sagrada Escritura, como aliás é conveniente ao povo pouco instruído, ensine-se então que nem por isso é possível representar a divindade, como se a víssemos com os olhos corporais, ou a pudéssemos exprimir em cores e figuras...” Ressalva-se a impossibilidade de representar Deus.
Os Exercícios Espirituais prevêem 4 semanas assim definidas:
Iª Semana (etapa): "Deformata reformare", eliminar da alma as deformações causadas pelo pecado. E’ um modo de se conhecer a nós mesmos e a grave desordem criada pelo pecado em nossa vida, além do perigo de danação ao que fomos expostos! Para não cair na desconfiança, Inácio nos faz contemplar a imagem do Salvador Crucificado, morto para nos salvar da morte eterna.
IIª Semana (etapa): "Reformata conformare". Somos convidados a nos revestir do Cristo e de sua armadura. O homem "reformado" deve "se conformar" ao Cristo: pobre como ele; ardente de amor para o Pai e os irmãos. É o tempo da "reforma" ou da opção do estado de vida: como eu, na prática, preciso seguir Cristo?
IIIª Semana (etapa): "Conformata confirmare". Isto é, fortalecer os propósitos de adesão a Cristo,por meio da contemplação de Aquele que foi obediente até a morte na cruz. O grito do Filho: "Pai, se for possível, afasta de mim este cálice", precisa continuamente nos relembrar a segunda parte desta súplica: "Mas não a minha, e sim a tua vontade seja feita". Nesta etapa nos confirmamos nas decisões tomadas.
IVª Semana (etapa): "Confirmata transformare". "Eu não morro: entro na vida", escreveu S. Teresa de Lisieux ouço antes de morrer. E, de fato, a Igreja canta: "Vita
mutatir, non tollitur", isto é, "a vida não é tirada com a morte, e sim transformada". A morte de Jesus na cruz coincidiu com o começo do Cristianismo. "Quem perde sua vida por causa de mim, a encontrará", diz Jesus no Evangelho. E a vida do Ressuscitado é a esperança de quem faz os Exercícios nesta etapa final.
No fim dos Exercícios, Inácio propõe uma grande contemplação para alcançar o
Amor puro de Deus (chamada "contemplatio ad amorem"). Com o pensamento se volta à Criação e à Redenção, para descobrir como e quanto Deus nos ame! E a alma fica com um único desejo que se expressa na oração: "Oh Senhor, dá-me teu amor e tua graça: isto me basta!