QUADRO 2 ORIGEM MULTIFATORIAL DOS TRANSTORNOS ALIMENTARES – POR ANA FRANCÉS ET AL (2011)
2.2.1. Adolescência e fatores agravantes: “me olho no espelho, vejo alguém que odeio”
De acordo com os critérios da Organização Mundial da Saúde, a adolescência se constitui em três períodos cronológicos – inicial (entre 10 e 14 anos), intermediário (entre 15 e 17 anos) e final (entre 17 e 21 anos) – onde mudanças sistemáticas acontecem nas áreas física, psicológica e social. Porém, conforme apontou Delia Crovi-Druetta (2010), a juventude não pode ser compreendida apenas em relação à idade, mas principalmente como um período onde se vai moldando e construindo a identidade dos sujeitos. “Por estas condiciones, la juventud no puede ser considerada un grupo homogéneo sino plural, diverso, con
46
Disponível em: <http://web.gencat.cat/es/actualitat/detall/Trastorns-alimentaris-i-habits-de-cerca-a-internet-00001>. Acesso em: 08 fev. 2016.
contradicciones, en cuyo interior existen sectores que viven, se expresan y relacionan de manera diferente”, alega (Delia CROVI-DRUETTA, 2010, p.3).
Afirma-se que a adolescência é um período de maturação psíquica, biológica e social do sujeito, porém
a maturação biológica de um adolescente não está, necessariamente, em consonância com a idade cronológica do jovem. Sendo assim, é possível que dentro de um grupo de adolescentes, de mesmo sexo e mesma idade cronológica, haja variações na idade biológica atingida, fato que pode se associar ao descontentamento com a aparência do corpo ou com a performance do mesmo (MIRANDA, 2014, p.69).
É durante a puberdade, quando as mudanças nas formas acontecem, e onde há o aumento do grau de gordura corporal, que muitas meninas começam a realizar diversos tipos de dietas de emagrecimento, das menos agressivas às mais restritivas, o que às vezes dificulta ou mesmo impede o processo metabólico natural que levará à primeira menstruação. Esse comportamento pode resultar desde problemas com autoestima e rejeição ao próprio corpo, até o desenvolvimento de distúrbios alimentares graves, chegando, em alguns casos, à morte.
Essa fase de transição revela-se muitas vezes permeada de sofrimentos e angústias, com a formação do novo corpo e imagem de si, ou com a avaliação do quanto se é querida ou aceita pelos outros, e onde se evidenciam as marcas de diferenciação que podem levar tanto à discriminação quanto à aprovação.
Na adolescência, a opinião, o olhar do outro é importante na construção da identidade, na formação de valores, na relação consigo e com o outro. Ao se deparar com imagens de mulheres ditas ideais, como as modelos e atrizes, que exibem um corpo considerado esteticamente adequado, a necessidade de ajustamento a este modelo se torna fundamental na definição de quem são essas jovens. São as thinspiration (fotos de mulheres jovens e magras, como modelos e atrizes, que são divulgadas nos blogs para dar apoio àquelas que estão com dificuldades de seguir com os comportamentos das Anas e Mias) que as mantêm fortes no propósito de que qualquer sacrifício de desejos é válido para alcançar tal objetivo estético. Ignoram-se os recursos tecnológicos moldando e formatando corpos; esquece-se que mesmo para as modelos e atrizes aquele corpo não é real. Este ideal não real passa a ser almejado, o sonho a ser conquistado (Liliane BITTENCOURT; Rafaela ALMEIDA,
op. cit., p.227).
A imagem corporal é algo dinâmico, que integra os níveis físico, emocional e mental, e, portanto, suscetível à intensidade das alterações corpóreas vivenciadas nesse período. O corpo é tomado como centro da vida, onde se expressam os desejos e conflitos juvenis. “Na fase da adolescência, quando os fundamentos do sentimento de si são ainda frágeis e vulneráveis, o corpo é o campo de batalha da identidade”, assegura Le Breton (2012, p.40). Apesar do indivíduo não ser uma “folha em branco”, onde as mídias fixam seus ideais, em
uma relação de causa-efeito, a significativa diferença entre o corpo comum e o ideal massificado, associada aos fatores descritos no item anterior, podem confluir para um alto grau de insatisfação corporal e baixa autoestima – fatores que se agravam na adolescência.
As(os) jovens são expostas(os) quase que diariamente, em seus grupos, a processos de ridicularização/apreço, aceitação/rejeição com relação à aparência, e ser gorda(o) gera uma preocupação para além do peso em si, mas em administrar o fardo de ser aquela(e) que fracassou pessoal e moralmente, e que, portanto, é deixada(o) de lado, humilhada(o), uma(um) loser47. Para fugir dos quadros de isolamento social e desprezo por si, recorre-se, desesperadamente, à qualquer promessa de emagrecimento rápido, como o uso de drogas estimulantes do metabolismo ou inibidoras de apetite com o intuito de emagrecer, mas que são indicadas em casos de outras doenças, como o Franol (sulfato de efedrina), que é destinado ao tratamento da asma.
As meninas passam por uma transformação do olhar sobre si mesmas, o que pode ser interpretado como uma falta de controle sobre o seu próprio corpo. Somado a isso, é necessário considerar que estas mudanças acabam por afastar a menina do padrão para o corpo feminino, visto que este reflete um corpo essencialmente magro. [...] muitas meninas adolescentes pensam que ser magras poderia fazê-las mais felizes, saudáveis e com melhor aparência (MIRANDA, 2014, p.70).
A não aceitação das características pubertárias advém de percepções (‘eu me vejo gorda’), sentimentos (‘eu não gosto do meu corpo porque sou gorda’) e crenças (‘para mim o importante é ser magra’) (MIRANDA, op. cit.) que são internalizados. A partir daí, a prática de dietas restritivas podem se intensificar a ponto de apresentar sintomatologias anoréxicas e bulímicas, e, posteriormente, o desenvolvimento de transtornos alimentares. “O corpo substitui a palavra, informulável. Entre as garotas, as condutas de risco tomam formas discretas, silenciosas, corporais (problemas alimentares, tentativas de suicídio, escarificação, queixas somáticas...)”, aponta Le Breton (2012, p.34).
As condutas de risco podem ser entendidas como uma tentativa da(o) jovem de produzir sentidos e valores, de estar no mundo de maneira ativa, alterando seu “destino”, mesmo que com exposição deliberada a situações de risco de ferimento ou morte: “desafios, tentativas de suicídio, fugas, inconstâncias, alcoolismo, toxicomanias, transtornos alimentares, velocidade em estradas, violências, relações sexuais sem proteção, recusas ao recebimento de tratamento médico vital”, enfim tentativas de mostrar-se senhoras(es) da própria existência
47
Loser: na tradução, perdedor(a). Termo usado como gíria para designar o indivíduo que só fracassa, que é humilhado(a) ou derrotado(a) em qualquer iniciativa.
(LE BRETON, op.cit., p.34). A dor, a mutilação, os excessos ou restrições são o preço pago para dar algum sentido a uma existência que, geralmente, não está enquadrada nos perfis padronizados.
Estas condutas são uma busca de suporte, de escora, ao se ferir, se esfolar, se colidir com as extremidades da realidade, experimentando o corpo a corpo com a toxicomania, o alcoolismo, a anorexia, a bulimia... Trata-se de fabricar uma dor que retenha provisoriamente o sofrimento. Uma dor deliberada, controlável, portanto, opondo-se a um sofrimento que tudo devora em seu caminho (LE BRETON, op. cit., p.36).
Para as jovens submetidas à multidão de olhares (midiáticos, médicos, familiares, etc.), que orientam e normatizam os comportamentos e formatos da “beleza”, é necessário não apenas ter o corpo magro, mas demonstrar autocontrole (resistir às tentações do paladar), disciplina (suportar exercícios extenuantes diariamente), tolerância à dor e ferimentos (se submeter a procedimentos estéticos cada dia mais invasivos), e capacidade de avaliar o corpo alheio (para se comparar, criticar, desejar...), no intuito de alterar a própria vida numa relação direta com as mudanças corporais sofridas.