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ADOLESCENTES DE ESCOLAS REGULARES, PROFISSIONAIS E PÓLOS DE APRENDIZAGEM

Magda Rocha Paula Mena Matos

Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto

Resumo

A adaptação e validação do Student Adaptation to College Questionnaire (SACQ), (Baker, McNeil e Siryk, 1985; Baker e Siryk, 1984, 1986, 1989) foi efectuada com recurso a uma amostra de participantes adolescentes portugueses de escolas regulares, profissionais e pólos de aprendizagem. As análises factoriais confirmatórias de 1ª e 2ª ordens verifica- ram índices de ajustamento adequados, indicando que o modelo que melhor se encaixa aos dados é uma estrutura limpa que mantém os quatro factores iniciais. A consistência interna revelou valores ajustados e as correlações entre factores estão de acordo com o teoricamen- te previsto.

PALAVRAS-CHAVE: Adaptação, Validação (análises factoriais confirmatórias), SACQ,

Adaptação escolar, Adolescência.

Introdução

A adaptação ao contexto escolar, independentemente da idade conside- rada, é uma questão que se estabelece teoricamente como multidimensional ou plurifacetada. A maioria dos estudos na área da adaptação à escola uti- liza, por isso, uma plêiade de factores ou dimensões que inevitavelmente in- tegram os aspectos comuns da competência académica, da competência social (quer com pares/colegas, quer com funcionários e/ou profes- sores/formadores) e ainda da competência comportamental. Por vezes são também abordadas questões emocionais e indicadores psico-afectivos na formulação deste conceito, por exemplo a impulsividade e a auto-estima. As investigações neste campo utilizam preferencialmente uma entre três estraté-

Morada (address): Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Rua do Dr. Manuel Pereira da Silva, 4200-392, Porto. Telf. 226 079 778. E-mail: [email protected]

gias de avaliação; a primeira, e sem dúvida a mais utilizada, recorre a dife- rentes instrumentos que se propõem analisar outras tantas facetas deste con- ceito (Carapeta, Ramires e Viana, 2001; Chen, Chen e Kaspar, 2001; Far- mer, Irvin, Thompson, Hutchins e Leung, 2006; Granot e Mayseless, 2001; Rusillo e Árias, 2004; Soares, Almeida, Diniz e Guisande, 2006; Walls e Little, 2005). Uma segunda abordagem, a tomada do todo pela parte, privi- legia um marcador entre os indicadores da adaptação escolar, encontran- do-se entre outros o auto-conceito (Silva e Vendramini, 2005), a vinculação ou laço à escola (Diaz, 2005), as atitudes face à escola (Wilkinson e Kralje- vic, 2004), o sucesso académico (Kenny, Gallagher, Alvarez-Salvat e Silsby, 2002), etc. Finalmente, numa terceira abordagem da qual existem poucos instrumentos, trata-se da avaliação pluridimensional da adaptação à institui- ção escolar. Nesta última perspectiva são escassos os questionários que ava- liam populações adolescentes a frequentarem instituições com níveis escola- res entre o terceiro ciclo do ensino básico e o ensino secundário (Green, Nelson, Martin e Marsh, no prelo; Nansel, Craig, Overpeck, Saluja, Ruan e Health Behaviour in School-aged Children Bullying Analyses Working Group, 2004).

Analisados alguns dos instrumentos que pretendem avaliar a adaptação escolar em termos multifactoriais, verifica-se que, ou são parcos na sua for- mulação, centrando-se apenas em duas facetas do construto (Aunola, Stattin e Nurmi, 2000), ou são construídos com base em vários questionários, ten- tando uma abordagem dimensional exaustiva, porém com poucos itens por dimensão (por exemplo a Student Motivation and Engagement Scale, Green et al., no prelo), ou são de facto exaustivos e verdadeiramente pluridimen- sionais, requerendo estudos onde os efectivos das amostras são muito alar- gados (Powers, Bowen e Rose, 2005) ou em investigações transculturais (por exemplo, o Health Behaviour in School aged Children Study, consulte-se Nansel et al., 2004). Nesta última categoria encontra-se o Student Adapta- tion to College Questionnaire (SACQ), (Baker et al., 1985; Baker e Siryk, 1984, 1986, 1989), um instrumento que avalia justamente a adaptação ao contexto formativo sob o ponto de vista da existência de diversas faces que contribuem para esse factor maior e envolve “exigências que variam em tipo e grau, exigindo uma plêiade de respostas de coping (ou de adaptações), que variam também em eficiência. Deste modo, cada item do questionário alude a uma das muitas facetas da adaptação à universidade e, quer expli- cita quer implicitamente, ao modo como o estudante lida mais ou menos efi- cazmente com as exigências que lhe são colocadas” (Baker e Siryk, 1989, p.1).

Sendo a adaptação à escola um dos indicadores desenvolvimentais mais válidos na avaliação dos adolescentes e um dos que mais reflecte a in- fluência de determinantes pessoais, por exemplo da qualidade relacional com pais e pares (Fass e Tubman, 2002; Laible, Carlo e Raffaelli, 2000; Nickerson e Nagle, 2004; Ooi, Ang, Fung, Wong e Cai, 2006; Peixoto, 2004), mas também dos determinantes ambientais (Dekovic, Wissink e Mei- jer, 2004; Diaz, 2005), reveste-se de uma particular importância a tradução e adaptação de instrumentos que avaliem adequadamente o conceito nesta fase do ciclo vital.

A adaptação escolar é definida na literatura através das muitas dimen- sões que a compõem e também de muitos dos seus correlatos comporta- mentais, não tendo sido encontrada na revisão efectuada uma definição consistente do construto. A formulação patrocinada neste trabalho distan- cia-se da tradição cognitiva onde se releva importância maior ao progres- so e sucessos académicos, adoptando antes uma abordagem alargada, mais próxima do enquadramento da motivação social, que incluiu percep- ções, afectos, envolvimento e performance (vide modelo da adaptação ini- cial à escola de Birch e Ladd, 1996). É também uma descrição de adapta- ção escolar justaposta a esta última a que é advogada pelo SACQ (Baker, s.d.), pese embora a medida tenha sido sujeita a críticas de falta de supor- te teórico (Taylor e Pastor, 2005). Robert Baker define então adaptação de acordo com a operacionalização do Student Adaptation to College Ques- tionnaire: “(…) É possível considerar que a adaptação é uma característica mensurável do estudante. Além disso, a adaptação tem diversas facetas ou dimensões nas quais a variação intra-individual e inter-individual ocorre; pode variar ao longo do tempo; e tem uma diversidade ampla de correla- tos comportamentais e experienciais discerníveis que delineiam o significa- do do construto”. (Baker, s.d.).

O Student Adaptation to College Questionnaire é a medida mais extensa- mente utilizada na avaliação da adaptação de jovens à universidade (Shilkret, 2003), facto confirmado através da ampla revisão de Robert Baker (s.d.). Esta medida foi já objecto de avaliação e estudo na Europa (Beyers e Goossens, 2002, 2003; Soucy e Larose, 2000), inclusivamente em Portugal (Ferreira e Ferreira, 2004); contudo, não encontramos na literatura evidência de uma adaptação a populações discentes de graus de formação prévios ao universi- tário.

Dada a inexistência de um instrumento de avaliação da adaptação esco- lar que preenchesse os requisitos teóricos que delimitamos, e que fosse com- provadamente eficaz do ponto de vista da quantidade e qualidade dos facto-

res que o estruturam, bem como na óptica das suas qualidades psicométricas, optou-se pela adaptação do SACQ a uma amostra portuguesa adolescente. Além dos fundamentos até aqui avançados para a utilização desta medida e consequentemente da sua adaptação, Robert Baker (s.d.) trouxe mais um ar- gumento a este trabalho, exortando a uma delimitação do conceito de adap- tação do estudante universitário que consideramos válida também para as restantes faixas escolares e formativas, ou seja, que a replicabilidade de um instrumento fiável permite a existência de um padrão de comparabilidade en- tre estudos que associam a adaptação, neste caso escolar, a outras dimensões psicológicas e demográficas.