Os adolescentes do CASE, carregam em seus corpos — marcados pelas tatuagens, nas falas, pelo uso de gírias e expressões que representam seus comandos e grupos e em seus gestos — traços das facções a que são pertencentes. Segundo diz Luz e Sabino (2006 apud PEREIRA, 2016, p. 17), em relação à tatuagem, “quando pensa escolher seu desenho, o indivíduo é ‘escolhido’ por todo um conjunto de representações e práticas, estruturas subjetivas e objetivas reproduzidas pelo estilo de vida que articula e imita”.
A autora completa dizendo que “As diferentes posições assumidas pelos sujeitos tatuados atuam na construção de diferenças, hierarquizações e normatividades”. Também nesse sentido, a matéria jornalística publicada em 27.01.2013 no site G1 do Paraná com o perito da Polícia Científica do Paraná, Jorge Luíz Werzbitzki, afirma que as tatuagens nos corpos de presos (adultos) em cumprimento de penas funcionam como um “DNA dizendo quem é quem”.
As tatuagens estabelecem, em sua opinião, uma relação de poder “que cria uma hierarquia para saber quem manda e quem obedece, inclusive, fora da cadeia” (DIONÍSIO, 2013).
Muito embora não tenhamos tratado desse tema específico com os adolescentes, é certo que eles reproduzem em muito a lógica e dinâmica vivida no universo do sistema carcerário adulto.
Para identificar o envolvimento dos adolescentes em facções do tráfico de drogas, primeiramente questionou-se a vinculação deles a alguma facção. Inicialmente alguns adolescentes responderam que não possuíam nenhum tipo de vinculação. Contudo, quando analisamos as perguntas subsequentes, entre elas, a qual comando do tráfico de drogas o adolescente participante da pesquisa estaria vinculado, verificamos alteração quantitativa. Vejamos: da totalidade (24) adolescentes, 54% (13) afirmaram não serem faccionados, mas 62,5% (15) responderam, na pergunta seguinte, que eram vinculados há alguma facção do tráfico.
Dentre as opções dadas aos adolescentes, estavam as duas facções predominantes no Estado de Santa Catarina, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Primeiro Grupo da Capital, conhecido popularmente como PGC. Do conjunto de adolescentes (24) participantes da pesquisa, 85% (14) afirmaram possuir algum tipo de vinculação ao PGC, enquanto 6% (1) afirmaram integrar o Primeiro Comando da Capital. Outros 9% (9) dos adolescentes optaram por não responder ao questionamento.
GRÁFICO 4 – Adolescentes do CASE e sua vinculação com facções do tráfico de drogas
Fonte: Banco de dados da pesquisa (2019). Elaboração própria.
O Primeiro Comando da Capital (PCC), segundo Christino e Tognoli (2017), foi fundado no dia 31 de agosto de 1993 numa ala anexa à Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté (SP), onde, à época, estavam os principais nomes do crime da sociedade brasileira.
85% 6%
9%
Deles, oito detentos unificaram forças e interesses, com vistas ao domínio do sistema penitenciário, buscando o combate da opressão a que eram submetidos e justiça pelas inúmeras mortes do episódio conhecido mundialmente como Massacre do Carandiru.
Considerada uma das maiores organizações criminosas do país, o PCC atua principalmente no estado de São Paulo e tem representações em 22 estados brasileiros, entre eles, Santa Catarina. Representado pela sigla PCC, o Comando também demarca seus territórios pelos números 1533, que representam a posição de cada uma das letras que compõem o nome da facção no alfabeto da língua portuguesa, sendo 15 o número correspondente à letra P (antes da reforma ortográfica de 2009) e a sequência 33, à letra C repetida. Assim, 1533 é igual a PCC. Já a facção do tráfico de drogas denominada Primeiro Grupo da Capital (PGC), segundo consta, teria sido organizada. por detentos da Ala de Segurança Máxima da Penitenciária Masculina de Florianópolis (SC) no ano de 2003 como resposta à transferência de detentos para a nova penitenciária de São Pedro de Alcântara, também no estado de Santa Catarina, local onde de fato se consolidou.
Entre os objetivos da facção, estariam a organização e expansão das atividades relacionadas ao tráfico de drogas nas ruas. O grupo alcançou maior notoriedade quando se associou ao Comando Vermelho (RJ), a primeira facção criada no Brasil e que possui um longo histórico de disputas de territórios com o PCC, o que automaticamente torna os integrantes do PGC seus rivais. Na cidade de Florianópolis, o principal cenário dessa disputa entre as facções ocorre no bairro Monte Cristo, área continental, onde a comunidade Novo Horizonte é integrada pelo PCC, e a comunidade vizinha, Chico Mendes, é aliada ao PGC.
Assim como o Primeiro Comando da Capital, o Grupo Catarinense também demarca seus territórios por meio de representações numéricas que, nesse caso, são os números 1673, que também significariam a posição de suas siglas no alfabeto da língua portuguesa, sendo o número 16 representação numérica da letra P; o número 7; da letra G, e o número 3, da letra C. É no território que os adolescentes têm sua primeira aproximação com as facções do tráfico de drogas, sendo sua vinculação, entre outros fatores, influência do local onde vivem. Dos adolescentes entrevistados, quatro deles afirmaram que sua inserção em uma facção se deu a partir da influência do local onde residiam:
A1 – “Sim, porque lá fora tem predominância, tem uma hierarquia e a gente tem que
seguir as leis deles.”
A2 – “Teve. Lá no Maranhão tinha três grupos aliados [...] em um deles pra conseguir
o que eu queria ia ter que entrar e, entrei no PCC.”
A5 – “Foi, porque no meu bairro PGC que predomina.”
A6 – “Verdade, lá minha região o tráfico é intenso, a facção também. Os caras
As falas dos adolescentes acima reforçam o dado de que, do total dos adolescentes que afirmaram estar vinculados a alguma facção do tráfico de drogas, 88% deles afirmaram que a facção da qual fazem parte é predominante na cidade/bairro onde residem (Gráfico 5).
GRÁFICO 5 — Vínculo do adolescente com a fação predominante no bairro onde vive
Fonte: Banco de dados da pesquisa (2019). Elaboração própria.
Ainda que a vinculação a uma facção do tráfico de drogas, em alguns dos casos, não seja um desejo pessoal do adolescente, a dinâmica que envolve o tráfico e as consequências provenientes dessa envoltura levam o adolescente a integrar-se a esse domínio, quase político, que exercem as facções sobre as comunidades e, dessa forma, segundo nos relata A1, “[...] mesmo sem querer se envolver uma hora tu acaba tendo que fazer uma escolha”.
O ato de vinculação a determinado grupo ou comando é precedido por diferentes etapas que seguem um percurso de análise do perfil do sujeito, de sua trajetória infracional, pessoal e de sua representação no meio social em que vive. Desse modo, não são todos que podem vincular-se a uma facção. A partir das falas dos adolescentes entrevistados, foi possível tracejar de que forma acontece esse vínculo, suas etapas e condicionalidades.
De acordo com os adolescentes entrevistados, para integrar uma facção do tráfico de drogas, primeiro você deve comunicar o desejo de fazer parte aos integrantes “intermediários” da facção, que são aqueles que possuem contato direto com os “mandantes” ou “cabeças” que, em sua maioria, encontram-se presos, conforme nos relata A2: “[...] daí nos presídios mesmo, ou em São Paulo ou em Foz do Iguaçu, os cabeças da facção verificam as coisas e depois vem a resposta”. O relato do adolescente reforça o que nos apresenta Dowdney (2003), quando afirma que os membros das facções “perceberam que sua organização no interior da prisão poderia ser utilizada para organizar o crime do lado de fora, para obter lucros com menores custos” (DOWDNEY, 2003, p. 29).
88% 6% 6%
Para os “cabeças” são repassadas informações a respeito do adolescente, como, por exemplo, nome, idade, local onde reside, apelido, atos infracionais que costuma realizar, habilidades e, o mais importante, se possui algum tipo de dívida, com quem quer que seja. Uma entrevista realizada no ano de 2016 pelo jornal A Notícia revela detalhes do processo de entrada para uma facção do tráfico de drogas. De acordo com o entrevistado, que repassou as informações em caráter de anonimato, “para entrar na facção, tem que ter bom histórico: não ser dedo-duro, estuprador, não roubar outro ladrão ou mexer com a mulher dele. [...] É um recrutamento. A idade varia, alguns entram mais cedo, outros mais tarde” (NUNES, 2016, s/p). No PCC esse processo se realiza por meio daqueles intitulados “padrinhos”, que são pessoas próximas (familiares ou amigos) do adolescente e que já integram o comando. Depois de averiguado cada um dos quesitos acima citados, os adolescentes recebem a resposta pelos “intermediários” ou “padrinhos”.
Em caso de devolutiva positiva, o adolescente que agora se vinculará ao Primeiro Grupo da Capital deverá ler o Estatuto e a Cartilha da Facção, que são documentos desenvolvidos pelos “cabeças”, detentos do presídio de São Pedro de Alcântara. O Estatuto apresenta os mandamentos da facção, ou seja, as regras que devem ser seguidas e respeitas por seus membros, enquanto a Cartilha faz referência a cada uma das funções existentes dentro da facção. Segundo o adolescente A4, “Tem o auxiliar de disciplina, geral do caixa, geral do rigor, geral da droga e o auxiliar do rigor, que é o soldado. O soldado cobra as pessoas que não obedecem os mandamentos”. Essa organização muito se assemelha à apresentada por Dowdney (2003), à qual já fizemos referência no capítulo 4.
Em relação a essa cobrança, o adolescente (A4) explica:
Funciona assim: o soldado avisa da dívida e dá o prazo de 30 dias, se a pessoa não quita, ela ainda tem quinze dias de carência. Nesses quinze dias eles te decretam. Pra conseguir o decreto, o auxiliar do rigor comunica os presos de São Pedro de Alcântara, que dão o aval pra matar ou não a pessoa. Às vezes, ao invés de matar, eles dão uma missão ou te tiram da facção. Agora, se for estuprador, cagueta ou rato de mocó (rouba droga do traficante), não precisa de aval. Pode matar direto. (A4)
Os níveis de envolvimento dos adolescentes nas facções do tráfico de drogas variam de acordo com os preceitos de cada uma. Por exemplo, no PCC existe a cerimônia do batismo nas águas, que marca a passagem do período da adolescência para a fase adulta e que torna o adolescente “irmão” da facção. Antes disso o adolescente integra a facção somente como companheiro, dependendo do padrinho para fornecer-lhe armas e instrumentos para a realização de atos infracionais, conforme relato do adolescente A2: “[...] só pode virar irmão da facção com dezoito anos só, eu com dezoito já estava preso, por isso não virei um”.
Ainda de acordo com os adolescentes, o PGC não estabelece uma idade mínima para que se tornem, no caso específico da facção, “irmão de sangue”, mas, em contrapartida, exigem do adolescente um alto nível de envolvimento pessoal e de pertencimento ao que consideram a “família do crime”, conforme relata A1: “pra ser irmão de sangue tem que fazer muita coisa, se envolver muito”.
É interessante perceber como muitas das nomenclaturas utilizadas para identificar os membros das facções que envolvem esse processo de recrutamento se relacionam aos mesmos utilizados dentro de uma estrutura familiar, são nomes, como “padrinho” e “irmão de sangue”, simbologia que corrobora a concepção da facção como família. Família que acolhe, protege e ensina.
Por vezes a noção de família, para muitos desses adolescentes, começa somente no âmbito de uma facção, local onde o adolescente encontra representatividade. Desse modo, todas as suas ações passam a ser realizadas por sua família, com sua família e para sua família e, diferente de nossas idealizações, o universo do adolescente autor de ato infracional não carrega consigo somente o peso do ato mas também todas as possibilidades obtidas por meio dele, seja a obtenção de dinheiro, de alimento, de roupas ou até mesmo de uma família.
Pensar sobre isso nos leva a reflexões importantes: será mesmo que, se vivêssemos essa realidade, nós também não mataríamos por nossa família? Não roubaríamos por ela? Pode ser que sim, pode ser que não, é difícil saber quando estamos do lado de fora.
Para garantir o bom funcionamento de ambas as facções, os adolescentes e demais integrantes devem pagar dízimos em valores que variam de R$100,00 a R$500,00 por mês, que são utilizados pela facção para a compra de produtos, como armas, coletes, munições, etc., conforme fala do adolescente A3: “[...] quem é da facção tem que pagar os dízimos, R$100,00 de cada um por mês”.
Com relação ao que os adolescentes compreendem por vantagens e desvantagens de fazer parte de uma facção do tráfico de drogas, dos seis adolescentes entrevistados, três deles associam esse pertencimento a uma forma de vantagem, enquanto outros dois mencionam as desvantagens desse envolvimento a partir de seus pontos de vista. Um único adolescente afirma que a vida no âmbito de uma facção não traz nem vantagens, nem mesmo desvantagens.
Na visão dos adolescentes, as desvantagens do envolvimento em uma facção do tráfico de drogas muito se relacionam aos riscos contra a vida, uma vez que, como diz A4, “sendo faccionado tu coloca a vida da família e a própria vida em risco”. Há ainda as guerras de
facções que obrigam os integrantes de facções a terem, segundo A5, de: “[...] se cuidar o tempo inteiro por causa das rixas”. De acordo com Dowdney (2003),
[...] a doutrinação de crianças e jovens na comunidade no sentido de odiar e temer as facções rivais é uma medida defensiva para garantir o apoio da comunidade e também para motivar os jovens soldados a matar se necessário. É uma tática motivacional que garante apoio afim de promover o lucro econômico, não representando nenhuma diferença religiosa, étnica, social ou ideológica entre comunidades ou facções (DOWDNEY, 2003, p. 196).
Isso causa nos adolescentes um sentimento de perseguição e desconfiança:
Ninguém mais é encarado como amigo ou aliado inconteste, pois além das ameaças externas, há as internas. [...] muitos veem os companheiros morrerem ao seu lado, ao passo que outros são incumbidos pelos superiores de punirem, com tortura ou morte, alguém que deu um “derrame” ou alguma pessoa da comunidade que está sob suspeita (NETO CRUZ; MOREIRA, SUCENA, 2001, p. 168).
O apontamento dos adolescentes ganha significado quando analisamos dados como os apresentados por Oliveira, B. C. S. (2018), que revelam que a principal causa externa que leva os adolescentes à morte é o homicídio. O ano de 2015 alcançou a marca de 3.749 adolescentes assassinados, o que representa 46% da totalidade das causas-mortes ocorridas nesse segmento da sociedade. Dessa totalidade, 48,2% são mortes de adolescentes com dezessete anos de idade, faixa etária da maioria dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação no CASE no ano de 2018.
Sobre as vantagens de integrar uma facção, os adolescentes mencionam o respeito e identidade adquiridos, a notoriedade frente aos demais e a facilidade na obtenção de armas e drogas, aspectos que contemplam as motivações que levaram muitos deles a optar pelo tráfico de drogas, conforme o adolescente A5: “A única vantagem é ter um nome, ter respeito, que as pessoas passam e sabem que aquele ali é tal cara”.
Fazer parte de uma facção do tráfico de drogas implica no cumprimento de regras, entre elas a de não se expor. Difícil discutir ou tentar estabelecer um diálogo com adolescentes sobre esse tema, pois quase sempre temos uma reposta recorrente deles, conforme expressa o adolescente A6: “[...] não posso falar das regras”. Contudo, algumas outras foram mencionadas, dentre as quais: não poder roubar na comunidade em que reside e em que atua a facção à qual faz parte, não poder roubar da própria facção e também não poder ser o que eles chamam de “cagueta”, em outras palavras “dedo-duro”, delator, conforme indicado pelos adolescentes A2, A3 e A5).
No caso de descumprimento das regras impostas pelas facções, os adolescentes podem sofrer penalidades definidas de maneira hierárquica e que variam de acordo com o erro cometido. Dentre as principais, estão o “gancho e o decreto”. O “gancho” seria uma espécie de retificação, por exemplo, se algum adolescente ou integrante da facção roubar drogas, lhe é concedida a oportunidade de trabalhar para devolver o valor do montante de mercadoria roubada.
Com a exacerbação do consumo, muitos jovens passam a retirar da “carga” destinada à venda uma quantidade de drogas superior à que equivaleria sua remuneração. Como a contabilidade do tráfico é diária, a defasagem logo é constatada, originando uma dívida que deve obrigatoriamente ser paga. A repetição do desfalque faz que o indivíduo seja malvisto por seus superiores hierárquicos, que podem determinar espancamentos e torturas como forma de evitar o avolumar do “derrame”, ou ainda, decidir que este deve ser pago com a própria vida de quem o causou. Quem deve, não pode sair do tráfico (NETO CRUZ; MOREIRA; SUCENA, 2001, p. 161).
Já os decretos, eles cobram os “vacilos” com a vida. Por exemplo, se um integrante da facção matar uma pessoa inocente, pagará com sua vida, uma vez que, conforme dito pelo adolescente A5: “[...] vida se paga com vida”. Em meio às penalidades, existe ainda a possibilidade de a pessoa que errou receber o que eles denominam “missão” como uma forma de compensação que, nos dizeres do adolescente A4, significa “matar um policial, atirar numa base da polícia, assaltar, matar alguém”.
Essa compensação a que fazem referência os adolescentes é decidida em conjunto por todos os integrantes do comando ou grupo daquela região, conforme descreve o adolescente A6: “[...] a gente faz uma reunião, discute sobre o cara e a gente decide o que vai ser. Na reunião vai todo mundo que é PGC na quebrada”.
E quando é necessário resolver conflitos, devido à transgressão de alguma regra do “coletivo”, “arma-se o coletivo” (convoca-se) da facção para se discutir a questão. Nessas assembleias, ocorrem a acusação pública, a defesa e o julgamento dos “desviantes” e, segundo os relatos dos adolescentes, todos os presentes têm direito de “mandar o seu papo” – inclusive os acusados (NERI, 2011, p. 276).
As decisões tomadas em conjunto pelos integrantes das facções fortalecem o ideário de respeito entre os seus membros que, na mesma medida em que se sentem relevantes para o bom funcionamento da organização, percebem quais podem ser os caminhos de um possível erro. Esse respeito pela facção e o cumprimento irredutível de suas normas também são estabelecidos dentro do ambiente institucional, quando os adolescentes carregam consigo as vivências e determinações das facções e as reproduzem dentro do CASE.
5.6 O CASE E A RIVALIDADE ENTRE FACÇÕES, NA PERCEPÇÃO DOS