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3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.2. Adolescência, delinquência e instituições

3.2.1. Adolescentes em conflito com a lei: outsiders?

O termo “adolescente em conflito com a lei” já denota que o adolescente violou alguma regra imposta, alguma regra definida em lei. É justamente sobre a violação da

33 regra que iniciarei a discussão trazida por Howard S. Becker (2008), em sua obra Outsiders: estudos de sociologia do desvio.

A proposta de incorporar as contribuições de Becker ao meu trabalho se deve ao fato de que tal autor apresenta uma perspectiva sociológica sobre os chamados “grupos desviantes”, o que permite compreender o grupo dos adolescentes em conflito com a lei de uma maneira diferente em comparação a outras linhas de pensar, dentre as quais destaco a patológica, ainda muito presente no modo de olhar os adolescentes em contexto.

O próprio autor diferencia sua definição de desvio com relação às definições que nomeia de estatística, patológica e sociológica relativística. A primeira (concepção estatística) considera como desviante tudo aquilo que varia de modo excessivo à média, não considerando certas variações e, portanto, está longe da preocupação com a violação de regras que inspira outsiders. A concepção patológica - que, arrisco dizer, está muito presente ainda no modo como se olha os adolescentes em conflito com a lei, identifica o desvio como algo relacionado à doença e incorpora a ideia de os outsiders serem funcionais ou disfuncionais ao sistema, sendo, desse modo, refutada pelo autor. Por fim, a concepção sociológica relativística é a mais próxima da adotada pelo autor, contudo, a dele se diferencia no sentido de que a concepção apresentada não considera as ambiguidades existentes no que diz respeito às regras que devem ser tomadas como padrão. O autor ainda pontua que um mesmo indivíduo pode fazer parte de vários grupos e violar uma regra por pertencer a outro grupo.

Para Becker (2008), o desvio é criado pela sociedade e, por conseguinte, são as pessoas que rotulam o comportamento desviante. Nas palavras do autor há um

[...] fato central acerca do desvio: ele é criado pela sociedade. Não digo isso no sentido em que é comumente compreendido, de que as causas do desvio estão localizadas na situação social do desviante ou em 'fatores sociais' que incitam sua ação. Quero dizer, isto sim, que grupos sociais criam desvio ao fazer as regras cuja infração constitui desvio, e ao aplicar essas regras a pessoas particulares e rotulá-

34 las como outsiders. Desse ponto de vista, o desvio não é uma qualidade do ato que a pessoa comete, mas uma consequência da aplicação por outros de regras e sanções a um 'infrator'. O desviante é alguém a quem esse rótulo foi aplicado com sucesso; o comportamento desviante é aquele que as pessoas rotulam como tal (Becker, 2008, pp. 21-22).

Nessa passagem, ficam evidentes os conceitos que o autor adota de desvio e de comportamento desviante, podemos identificar que uma questão primordial nesses conceitos está relacionada à decisão do grupo hegemônico da sociedade, que decide que tipo de comportamento é desviante e, portanto, quem é o desviante.

Nessa lógica, Guimarães, Costa, Pessina e Sudbrack (2009) acrescentam que é o significado atribuído pelas pessoas ao ato cometido, o valor que a sociedade atribui ao ato, que define o desviante. A identidade do desviante é conferida pelo próprio sistema de controle. Ao cometer atos de transgressão, o adolescente está em busca de uma identidade, de uma referência e, logo, a punição significa tanto uma ruptura quanto uma recolocação do desviante com a sociedade.

Em se tratando do processo de imposição de regras, Becker (2008) coloca que tal imposição é uma questão de poder político e econômico. Logo, pode-se inferir que o grupo de adolescentes em conflito com a lei está longe de ser o que impõe as regras, tendo em vista que dentro da sociedade de economia capitalista está ligada às relações de poder.

Ou seja, impõem as regras os grupos que possuem mais poder político e econômico dentro da sociedade, pois

diferenças na capacidade de fazer regras e aplicá-las a outras pessoas são essencialmente diferenciais de poder (seja legal ou extra legal). Aqueles grupos

cuja posição social lhes dá armas e poder são mais capazes de impor suas regras. Distinções de idade, sexo, etnicidade e classe estão todas relacionadas a diferenças em poder, o que explica diferenças no grau em que grupos assim distinguidos podem fazer regras para outros [grifo nosso] (Becker, 2008, pp. 29-

30).

Nessa discussão sobre poder, cabe aqui salientar que estamos em uma sociedade pautada no consumo. Assim, “podemos perceber que as relações de poder se fazem mais

35 efetivas do lado de que processa, detém e produz informação, que é mais veloz e possui maior capacidade de consumir” (Castro & Guareschi, 2007, p. 3). Logo, se quem cria e aplica as regras é quem detém poder e quem detém poder é quem pode consumir aqueles que não podem consumir ou consomem de modo rebaixado, já violam uma regra básica da sociedade capitalista.

Logo, o conflito com a lei, como bem expõe Souza e Centolanza (2010), pode ser visto como uma forma de demonstrar descontentamento com a organização da sociedade. Para os autores e para este estudo, o conflito com a lei é considerado, em alguns casos, “um grito de socorro do adolescente, uma busca de satisfação das necessidades humanas, uma estratégia de sobrevivência, mais do que uma proposta política de contracultura” (p.129). Ou seja, apesar de parecer ilógico, o adolescente viola uma regra estabelecida socialmente para que possa se inserir naquilo que é aceito socialmente, que é garantido pela lei, pela ordem estabelecida, mas que ele não tem acesso, principalmente direitos sociais, como saúde, educação, assistência social, previdência social, habitação, etc.

Castro e Guareschi (2007) colocam que a pobreza e as faltas materiais podem ser abarcadas como condição prévia de vulnerabilidade que leva o adolescente a um lugar de exclusão. Nesse sentido,

essa exclusão é não somente econômica, mas acima de tudo diz respeito à ausência de um lugar no mundo, de pertencimento, de reconhecimento, „de ser alguém‟. Este alguém é relacionado pelos próprios adolescentes com os valores de adequação às regras sociais e aos discursos hegemônicos: ter um emprego, uma família, uma

casa, filhos, ajudar economicamente os pais [grifo dos autores]. O cometimento

do delito, paradoxalmente, é algo que os afasta desses objetivos e, ao mesmo tempo, uma forma de inclusão fora da ordem estabelecida (Castro & Guareschi, 2007, pp. 10-11).

Para esses adolescentes em conflito com a lei, situações de violência fazem parte de seu cotidiano, o que os torna não só vítimas, mas também causadores dessa violência. Desse modo, particularmente para aqueles jovens provenientes das camadas mais pobres,

36 “a violência pode ser pensada como uma forma de resistir às injustiças sociais e ascender ao mundo do consumo” (Castro & Guareschi, 2007, p. 4). Tornam-se outsiders não só por violarem as regras impostas, mas por também não serem inseridos nos padrões estabelecidos socialmente.