PARTE II: Ideias econômicas na Alemanha
5.2. Adolph Wagner: Finanzwissenschaft, economia nacional e moeda
Adolph Wagner foi um dos economistas mais influentes na Alemanha do Segundo Reich: dos anos 1870 até sua morte, durante a Primeira Guerra Mundial (1917), Wagner foi um autor bastante produtivo, tendo escrito textos acadêmicos e políticos. Nascido na cidade de Erlangen, no sul da Alemanha, Wagner obteve seu doutorado na Universidade de Göttingen em 1857. Após breves períodos de atividade como professor nas Escolas de Comércio de Viena e de Hamburgo, avançou na carreira universitária ao assumir um posto na Universidade de Dorpat, cidade báltica sob influência alemã, hoje chamada Tartu (Estônia). Nos anos 1860, com a perspectiva da unificação alemã, Wagner retornou ao
34 Sobre esse nacionalismo protecionista catalão-espanhol, ver: VILAR, Pierre. “Spain and Catalonia”, in: Review
(Fernand Braudel Center), vol. 3, n. 4, 1980, pp. 546-567.
160 que hoje corresponde ao território alemão: após curta estadia em Baden, na Universidade de Freiburg (Breisgau), como titular da cadeira de ciências cameralísticas, estabeleceu-se definitivamente na Universidade de Berlim, em 1870, assumindo uma vaga de professor de ciências do Estado (Staatswissenschaften). Na capital do recém-fundado Reich, Wagner juntou-se ao Partido Social-Cristão, de tendência social-conservadora, e ao
Verein für Sozialpolitik.
O Verein era, nesse momento a principal agremiação profissional de economistas alemães. Se, no início de sua existência, a Associação buscou um compromisso entre liberalismo econômico e tendências mais protecionistas, o Encontro de 1879, sob a presidência de Erwin Nasse e influência intelectual de Gustav Schmoller, marcou uma guinada. Após controvérsia acalorada, acabou prevalecendo o apoio ao protecionismo tarifário de Bismarck e iniciou-se uma longa fase de predominância de uma tendência política social-conservadora no âmbito da agremiação.36 De 1890 a 1917, o Verein foi presidido pelo próprio Schmoller, com quem Wagner tinha um alinhamento político e institucional, mas também discordâncias, sobretudo a respeito do método da economia. Em sua resenha dos Principles de Alfred Marshall, Wagner censurou seus colegas historicistas da nova geração por serem muito negligentes a respeito dos avanços teóricos trazidos pela economia política produzida na Grã-Bretanha; ademais, a principal fonte de inspiração para seus escritos sobre teoria monetária foi o pensamento inglês.37 Esse cosmopolitismo teórico distinguia Wagner da chamada jovem escola histórica alemã que, sob a liderança de Schmoller, ficaria associada a uma postura mais fortemente historicista, em decorrência das discussões travadas no âmbito da controvérsia dos métodos, ou
Methodenstreit.
Essa abordagem “pluralista” do ponto de vista das correntes de pensamento econômico não significava, contudo, que Wagner fosse defensor do liberalismo: suas inclinações não liberais foram expressas em suas contribuições à ciência das finanças públicas e em sua militância política. De fato, Wagner foi o principal pensador pertencente à linhagem do socialismo de Estado, já discutida. Influenciado por Karl Rodbertus, de cujo legado foi defensor convicto, Wagner defendia um Estado centralizado e monárquico, que deveria moldar a economia, de modo a promover o bem- estar da população. A “lei de Wagner” ou lei do gasto estatal crescente é um traço típico desse tipo de pensamento alemão sobre as finanças públicas. O Partido Social-Cristão, ao qual Wagner associou-se, foi fundado pelo capelão da corte prussiana, Adolf Stöcker, em
36 Ver HAGEMANN, 2001, e o capítulo 4 desta tese. 37 WAGNER, 1891.
161 1878 e combinava, em seu programa, ideias progressistas de reforma social, tais como seguridade social e tributação progressiva da renda, com a defesa da monarquia e o antissemtistimo.38 Embora pluralista do ponto de vista intelectual, Wagner tinha claras
inclinações nacionalistas, dirigidas, em especial, contra a Inglaterra, no contexto das disputas imperialistas e navalistas dos anos que antecederam a Primeira Guerra. 39
Como é de se esperar a partir desse legado polêmico, em que os elementos políticos envolvidos na produção intelectual são muito marcantes, a fortuna crítica de Wagner tem sido bastante diversa. Devido a suas opiniões controvertidas e por vezes ambíguas, Adolph Wagner é um personagem com o qual os projetos ideológicos predominantes na história da Alemanha desde o Kaiserreich tiveram de lidar, produzindo resultados distintos. Nesse sentido, Martin Heilmann apresenta um uma descrição bem informada das representações historiográficas de Wagner ao longo dos anos, começando com seus críticos e admiradores, na Alemanha guilhermina e na República de Weimar.40 Nas primeiras décadas do século XX, Wagner foi acerbamente criticado por liberais, como seu colega na Universidade de Berlim (e rival) Theodor Reinhold (1849-1901), que o acusou de acreditar na ilusão de que a economia é “maleável” pela política. Por outro lado, entre os admiradores de Wagner nesse momento estava o filósofo e sociólogo Ferdinand Tönnies (1855-1936), o qual reconhecia a importância do socialismo de Estado, na forma proposta por Wagner, para o desenvolvimento do povo alemão no longo prazo.
A recepção nacional-socialista de Wagner foi ambígua. É verdade que sua proximidade com relação ao Partido Cristão-Social, conservador e antijudaico, tem sido vista como prova de suas tendências antissemitas e politicamente reacionárias. De fato, tanto Werner Sombart quanto Erich Egner consideravam Wagner, em 1937, como um importante predecessor do “socialismo alemão”, que estaria, supostamente, atingindo seu “apogeu” com o nacional-socialismo. A ambiguidade, todavia, vem à tona se se leva em conta que intelectuais nazistas mais engajados viam o socialismo de Estado de Wagner como incapaz de vencer a tensão entre uma visão de mundo burguesa e os verdadeiros sentimentos dos proletários. De acordo com essa perspectiva, Wagner e seus contemporâneos oitocentistas haviam fracassado na busca do novo “estado de consciência”, no qual tudo aquilo que separa os homens uns dos outros é superado. Esse
38 Sobre essa ala do movimento politico conservador no período bismarckiano, ver WEHLER, 2008 (v. 3), pp. 921-923. 39 O panfleto de Wagner intitulado “Contra a Inglaterra!” pode ser considerado a expressão máxima desse nacionalissmo.
Ver WAGNER, Adolph. Gegen England! Warum England den russisch-französischen Krieg gegen das deutsche Reich
geschürt hat und ihm beigetreten ist. Berlin: Boll u. Pickhardt, 1914.
162 “novo estado de consciência” seria, dentro dessa ideologia, um produto exclusivo do nazismo.41
Bertram Schefold observa, com acuidade, que a associação entre Wagner e o nazismo tende a ser anacrônica: a ascensão meteórica e depois o esfacelamento do Terceiro Reich, sob uma ideologia autodenominada nacional e “socialista”, fizeram a tradição estatal- socialista alemã de final do século XIX e início do XX parecer de alguma maneira comprometida com uma ideologia ultranacionalista e fascista.42 Porém, o contexto
intelectual de Wagner, bem como seu mundo político, era distinto. Se, de uma perspectiva antifascista, as tendências políticas antissemitas e xenófobas de Wagner podem e devem ser condenadas, a associação entre suas inclinações estatal-socialistas e o nazismo dos anos 1930 é bastante questionável. Seja como for, a ligação a posteriori de Wagner com a ideologia nacional-socialista foi fortalecida no mundo anglo-saxônico por uma biografia intelectual bastante dura, publicada em plena Segunda Guerra pela historiadora americana Evalyn Clark, para quem Wagner teria guinado de “economista nacional” para “nacional- socialista”. 43
Na segunda metade do século XX, intelectuais de ambos os Estados alemães ocuparam-se com o legado de Wagner. No Leste, a imagem construída tendia a ser negativa, retratando Wagner como personagem politicamente comprometido com o imperialismo alemão e, do ponto de vista teórico, como um defensor do capitalismo sem proletários – ilusão que já fora, segundo essa visão, desmascarada por Marx. Na República Federal, por outro lado, Heilmann destaca a tendência de ver um Wagner democrático, que teria supostamente antecipado o Estado de bem-estar social. Essa convicção levou a interpretações anacrônicas e até mesmo excêntricas. Bernd Bäurle, por exemplo, derivou da lei de Wagner um “limite ótimo” às despesas públicas, a ser atingido quando o tipo e magnitude do gasto permitisse maximizar as “utilidades dos cidadãos individuais”.44 Embora esquemática, essa recapitulação das imagens de Wagner
produzidas na Alemanha revela uma diversidade de representações historiográficas que serve como introdução às apropriações brasileiras de seu pensamento.
Os escritos de Adolph Wagner abarcaram desde livros-texto sobre teoria da moeda e dos bancos, ciência das finanças públicas e teoria econômica geral, até panfletos nacionalistas e transcrições de discursos políticos entusiasmados. Do ponto de vista
41 HEILMANN, 1980, p. 97.
42 Ver SCHEFOLD, Bertram.“Adolph Wagners ‘Grundlegung’”, in: SCHEFOLD, 2004.
43 CLARK, Evalyn. “Adolf Wagner: from national economist to national socialist”, in: Political Science Quarterly, vol.
55, n. 3, 1940.
163 cronológico, é possível identificar uma crescente diversificação intelectual da produção de Wagner: se, no início de sua vida acadêmica, o foco era quase exclusivamente em questões teóricas e práticas relacionadas à moeda e aos bancos, com o passar dos anos Wagner tornou-se cada vez mais envolvido com temas políticos, como a “questão social”, política comercial e os desafios relacionados ao desenvolvimento econômico do Império Alemão, recentemente unificado. Por isso, é impossível apreender a totalidade desse legado multidimensional neste capítulo. A recapitulação esquemática apresentada aqui refere-se a três temas que foram centrais para Wagner, mas que não representam seu pensamento econômico como um todo. Trata-se de um apanhado das ideias de Wagner sobre finanças públicas, sobre a conceitualização da “economia nacional” e sobre moeda. O guia para a seleção desses temas foram as assimilações brasileiras de Wagner.
A Finanzwissenschaft: articulando Estado e economia
Um dos aspectos mais famosos do pensamento econômico wagneriano, ao menos na historiografia alemã, é a chamada “ lei dos dispêndios estatais crescentes” ou, de maneira simples, “lei de Wagner”. “No caso de povos que progridem, as necessidades do Estado são entendidas como estando em constante expansão” – assim Wagner formulou essa ideia em 1863, muito provavelmente a primeira vez em que a tornou pública, em seu livro sobre questões orçamentárias austríacas.45 O princípio estabelecia que, à medida que uma sociedade se desenvolve, o gasto público tem da acompanhar esse processo, de preferência financiado por uma tributação progressiva da renda, por impostos sobre o patrimônio, a herança, bens de luxo e ganhos de capital. Dessa forma, a lei pode ser interpretada tanto como proposição normativa, quanto como afirmação empírica, cuja validade já se buscou verificar.46 Para os propósitos deste trabalho, a lei de Wagner é examinada como construto histórico, parte de sua produção intelectual no campo das finanças públicas, ou Finanzwissenschaft.
Na virada do século XX, Max von Heckel introduziu a ideia de um “trio de estrelas” (Dreigestirn) das finanças públicas na Alemanha, isto é, pensadores cujas contribuições foram particularmente substantivas, tornando-se “clássicas”: Lorenz von Stein (1815- 1890), Albert Schäffle (1831-1903) e Adolph Wagner.47 Dos três membros desse
45 Essa é a primeira formulação da lei de Wagner, encontrada em seu livro sobre as finanças públicas austríacas.Ver:
WAGNER, Adolph. Die Ordnung des österreichischen Staatshaushaltes, mit besonderer Rücksicht auf den Ausgabe-
Etat und die Staatsschuld. Wien: Gerold, 1863, p. 4.
46 Ver, por exemplo: TIMM, Herbert. “Das Gesetz der wachsenden Staatsausgaben”, in: Finanzarchiv. Neue Folge, 21.
Heft 2, 1961.
47 Essa ideia de Heckel, de um “trio clássico” na Finanzwissenschaft foi longeva, como atesta sua presença numa história
164 triunvirato, Wagner foi talvez o mais renomado internacionalmente, exercendo influência importante sobre os estudiosos de finanças públicas dentro e fora da Alemanha: alguns estudos, mencionados no capítulo 2, documentam essa disseminação internacional do pensamento de Wagner, inclusive no campo específico das finanças públicas. Exemplos nesse sentido foi o economista norte-americano, especializado em setor público, Edwin Seligman (1861-1939), que estudou em Berlim e Heidelberg e era bastante familiarizado com os trabalhos de Wagner. Professor na Universidade de Columbia, foi defensor do imposto de renda progressivo nos Estados Unidos.48
De fato, os vários volumes que compõem a Finanzwissenschaft de Wagner, cobrindo a teoria das finanças públicas e um amplo apanhado histórico sobre os sistemas tributários, perfaziam um projeto intelectual ambicioso, claramente enraizado na tradição pedagógica alemã de se produzir livros-texto descritivos e abrangentes, que eram reimpressos, aperfeiçoados e suplementados com material adicional ao longo dos anos. Na verdade, a Finanzwissenschaft de Wagner era uma reelaboração de um dos blocos componentes do Lehrbuch de Karl H. Rau que, conforme visto no capítulo 3, foi bastante influente ao estabelecer a divisão do campo amplo da economia em três subáreas:
Volkswirtschaftslehre (teoria econômica), Volkswirtschaftspflege ou -politik (manutenção
ou política econômica) e Finanzwissenschaft. De 1871-72 em diante, esse último volume foi continuamente reeditado e atualizado por Wagner, que fez o mesmo com o primeiro volume, relativo à teoria econômica geral, a partir de 1875-76. Nesse sentido, pode-se dizer que Wagner apropriou-se da obra principal de Rau, nos campos da teoria econômica geral e da economia do setor público, e foi fazendo do texto original um trabalho próprio.
O projeto como um todo recebeu o nome de Lehr- und Handbuch der politischen
Ökonomie. A parte referente à Volkswirtschaft recebeu uma segunda edição, pouco
modificada, em 1879, e uma reedição definitiva em 1893 e 1894, já bem modificada e atualizada com relação ao manual de Rau, com o nome de Grundlegung der politischen
Ökonomie (Fundamento da economia política). Esse livro-texto era dividido em dois
volumes: I. Grundlagen der Volkswirtschaft (Bases da economia) e Volkswirtschaft und
Recht (Economia e direito). Esta reedição definitiva do compêndio mais “teórico” pode
ser considerada o principal livro-texto de Wagner. Traduzido para o francês e o italiano,
finanzwissenschaftlichen Schriften Adolf Wagners”, in: Jahrbücher für Nationalökonomie und Statistik. Dritte Folge. v. 19 (74). No. 6. 1900; BECKERATH, Erwin v. “Die neuere Geschichte der deutschen Finanzwissenschaft (seit 1800)”, in: GERLOFF, W. and NEUMARK, F. (orgs.) Handbuch der Finanzwissenschaft. 2. Aufl. 1. Bd. Tübingen: Mohr- Siebeck, 1952. Para uma avaliação do lugar de Wagner na historiografia sobre a ciência das finanças, ver HEILMANN, 1980, pp. 190-139.
165 o tratado incluía discussões situadas não somente no campo estrito da teoria econômica (como preço, moeda, salário, etc), mas também acerca do Estado e do direito. Nesse sentido, o campo da “política econômica” não estava completamente ausente do projeto pedagógico-intelectual de Wagner, por mais que os manuais efetivamente continuados tenham sido os de Volkswirtschaft e de Finanzwisenschaft. Este último recebeu uma ampla revisão, publicada em dois volumes: “Organização da economia das finanças públicas. Necessidades financeiras. ” (1877) e “Taxas e teoria geral dos impostos” (1880). A partir daí a obra teve mais uma edição (1883) e recebeu suplementos, sendo os últimos publicados em 1910 e 1912, ambos sobre história tributária.
Rau foi um modelo não só para Wagner, mas para a produção de uma série de manuais e de livros de divulgação, os quais refletiam essa tradição descritiva e pedagógica que remontava ao cameralismo. Muito embora o indivíduo e a esfera autônoma da sociedade civil desempenhassem um papel inconteste no campo da Nationalökonomie, esses livros-texto refletiam que o ensino de economia na Alemanha ainda dava especial ênfase àquilo que se chamaria, mais tarde “economia do setor público”. Basta ver que os campos da política econômica e da ciência das finanças públicas, nos vários manuais publicados, lidavam diretamente com temas relativos à teoria do Estado. E mesmo o tratado de economia teórica – o “volume I” – de Wagner continha partes dedicadas ao direito e ao setor público, onde o autor pôde desenvolver seu argumento relativo à lei da expansão dos gastos.
Buscando caracterizar a especificidade dessa linhagem alemã de pensamento sobre a economia do setor público, da qual Wagner foi um dos principais representantes, Robert Musgrave argumenta que a Finanzwissenschaft diferiu da public finance britância de forma estrutural, pois tinha fundamentação filosófica distinta. O romantismo alemão – de Fichte, List e Schelling até Hegel – rejeitava o racionalismo do século XVIII e ofereceu uma visão de sociedade mais baseada no “todo” do que em suas partes. Mais ainda, o desenvolvimento histórico da nacionalidade alemã foi também particular. Na Inglaterra, o Estado podia ser tomado como dado e o tema das finanças públicas evoluiu no âmbito da economia clássica, geralmente discutido nos capítulos finais dos tratados mais gerais, tendo como o pano de fundo a teorização sobre preços de produtos e custo de fatores. Na Alemanha, a multiplicidade de jurisdições levou à busca consciente por uma forma de organização do setor público, sobretudo a partir do momento em que o Estado se organiza de fato nos anos 1870. Parece não ser coincidência que a “era de ouro” das finanças públicas na Alemanha corresponda precisamente às três décadas posteriores à fundação do Reich. No argumento de Musgrave, o traço distintivo da abordagem alemã era o fato
166 de estar baseada numa teoria do Estado e de derivar sua Wissenschaft dessa fundamentação.49
Conforme Wagner expôs na parte do seu Grundlegung dedicada ao “Estado” e suas atividades econômicas, a ciência econômica deveria ser baseada “na ideia do Estado como a forma mais elevada de economia controlada comum (Zwangsgemeinwirthschaften), organizado como uma verdadeira economia do povo organizado”.50 Na revisão da
literatura a respeito das possíveis opiniões acerca das interações entre Estado e economia, Wagner invocou a autoridade do renomado jurista Rudolf von Jhering (1818-1892), representante da escola histórica de direito, para implicar que “a organização social da força é equivalente ao Estado e à lei”.51 Vale lembrar que as palavras alemãs para
“economia” e para “ciência econômica” favoreciam esse tipo de conceitualização “nacionalista” da disciplina econômica, bem como de seu objeto de estudo, a realidade econômica. Criados sem vínculo necessário com a nacionalidade, os termos
Nationalökonomie e, sobretudo, a forma germanizada Volkswirtschaft se prestaram à
associação com a ideia de que a economia de um país ou a economia do povo (=Volk) constitui algo essencialmente distinto, mais complexo e mais elevado, do que um conjunto de economias privadas. Este período em que Wagner produziu a maior parte de sua obra, entre os anos 1870 e a Primeira Guerra, foi o momento em que essas designações comportaram esse sentido mais “nacionalista”.
Tendo em vista que esse conceito específico foi apropriado no Brasil em dois contextos distintos, por Rui Barbosa e por Roberto Simonsen, vale desdobrar esse conceito wagneriano de Volkswirtschaft, também fundamental para se compreender a especificidade de seu pensamento sobre as finanças públicas.52 A ideia de economia nacional, da forma como Wagner a inseriu no livro III de seu Grundlegung, fazia parte do percurso didático e argumentativo da obra. O manual se iniciava com uma Introdução, basicamente uma revisão da história do pensamento econômico até então. O livro I examinava “a natureza econômica do homem”, detalhando o objeto, as tarefas e o método da economia política. Já o livro II se referia a “ conceitos elementares”, sendo dividido em três capítulos: “bens”, “valor” e “riqueza e capital”. O livro III, por sua vez, referia- se ao tema “Wirtschaft und Volkswirtschaft”: economia e economia nacional (ou do
49 MUSGRAVE, Richard A. “Public Finance and Finanzwissenschaft Traditions Compared”, in: Finanzarchiv. N.F., vol.
53, 1996, pp. 150-151 and 154.
50 WAGNER, Adolph. Lehr- und Handbuch der politischen Ökonomie. Erste Hauptabtheilung: Grundlegung der
politischen Ökonomie. Zweiter Halbband. Leipzig: Winter, 1893, p. 877.
51 WAGNER, 1893, p. 874.
52 Recuperam-se aqui alguns argumentos já expostos em trabalhos anteriores. Ver: BRUZZI CURI e LIMA, 2015;
167 povo).53 Conforme a definição de Wagner:
[A economia nacional é] o conjunto, considerado como um todo fechado, das economias individuais independentes unidas pela articulação do trabalho e relacionadas entre si, segundo uma regulação determinada pelo direito econômico (regulação do direito econômico e administrativo), no seio de um povo organizado em Estado (ou em confederação) ou em algum tipo de domínio econômico resultante de regras econômicas estatais (“Zollverein”): trata-se de uma combinação orgânica e não somente uma justaposição mecânica de economias individuais.54
Em seguida à definição de economia nacional, Wagner esboçou uma tipologia do desenvolvimento dessas economias articuladas, dividida em cinco momentos, não necessariamente sucessivos. Do ponto de vista humano, a formação de uma economia nacional se daria após a comunidade humana ter passado por fases sucessivas de evolução: gênero, clã patriarcal, tribo e, por fim, povo (Volk). Nessas fases anteriores, a economia nacional estava em forma embrionária: só começaria a existir de fato quando os outros momentos também se concretizassem. Seriam eles: o natural-geográfico, relacionado ao território e suas bases naturais; o técnico, relacionado à estruturação da produção e de uma rede de comunicação e transportes; e, por fim, o jurídico-político, expresso pelo Estado.55
Mais adiante, na conclusão deste seu arrazoado sobre as especificidades da