Capítulo 1 Um percurso pelo século XIX: o mito e a história
1.3 Adolphe Pictet (1799-1875) – o mito e a origem da linguagem
Adolphe Pictet foi um filólogo e etnólogo suíço, adepto do movimento romântico alemão que, em 1859-1863, publicou em dois volumes a obra Les origines indoeuropéennes,
ou les Aryas primitifs: essai de paléontologie linguistique, composta por dois volumes. Como
aponta Joseph (2012), no primeiro volume, Pictet prioriza a etnografia, a geografia e a história natural com o objetivo de estabelecer a terra natal dos povos arianos. O segundo volume, por sua vez, concerne a aspectos relacionados à cultura desses povos, como pecuária, agricultura, marcenaria, navegação etc., além de aspectos referentes à religião e à vida intelectual.
Les origines indoeuropéennes foi considerado, nesse sentido, uma das grandes obras
do comparatismo, pois, além de ser o resultado da grande erudição de seu autor, também se utilizava daquilo que era produzido e defendido no século XIX, como os trabalhos de Franz Bopp e Jacob Grimm, evidenciados em várias passagens da obra e utilizados como pressupostos teóricos para as análises empreendidas por Pictet.
Outro aspecto importante referente às elaborações desse filólogo concerne ao fato de que ele teve grande influência na formação intelectual de Ferdinand de Saussure. Isso é atestado pelo próprio linguista em seu manuscrito Souvenirs, no qual faz uma retrospectiva de sua vida acadêmica:
O venerável Adolphe Pictet, autor do Origens Indoeuropeias, era vizinho de campo de minha família, durante uma parte do ano, quando eu tinha doze ou treze anos. Eu o encontrava frequentemente em sua propriedade de Malagnyn perto de Versoix e, embora não ousasse interrogar muito o excelente ancião, nutria sem o seu conhecimento uma admiração tão profunda quanto infantil por seu livro, do qual eu seriamente estudei alguns capítulos. A ideia de que se podia, por meio de uma ou duas sílabas sânscritas – pois essa era a ideia de todo o livro e de toda a linguística daquela época –, encontrar a vida dos povos desaparecidos, me enchia de um entusiasmo sem igual em sua inocência e não tenho lembranças mais requintadas ou reais de prazer linguístico do que aquelas que ainda hoje me vêm desta leitura infantil (SAUSSURE, 1960 [1903], p. 16)a.
A citação acima, além de evidenciar a importância de Pictet para a filologia comparatista do século XIX, também nos mostra o apreço que Saussure nutria por esse estudioso. Esses dois fatores nos são caros, pois, tomados em conjunto, justificam o tratamento de alguns pontos da teoria de Adolphe Pictet nesta tese. Assim, explicitaremos algumas passagens do Les origines indoeuropéennes em que há considerações acerca dos aspectos culturais e mitológicos dos povos indo-europeus. Isso nos ajudará a apreender de que maneira o método comparatista era utilizado na análise mitológica.
Na introdução do primeiro volume, o filólogo explicita quais são os objetivos e o método de análise utilizado. De acordo com ele, durante muitos anos se tentou estabelecer a posição geográfica dos povos indo-europeus, entretanto essa empreitada era realizada tomando como base os dados da tradição. Isso não seria suficiente e, somente com base na gramática comparada, ou seja, pela análise das diferentes línguas e pelo estabelecimento de seu parentesco é que se tornaria possível encontrar de maneira satisfatória a origem comum dos povos (cf. PICTET, 1859, p. 4). Para esse autor, a utilização do método comparativo permitiria que a paleontologia linguística se equiparasse à paleontologia propriamente dita.
Esse método é, dessa forma, aplicado a uma grande quantidade de palavras que podem ser encontradas em todas as línguas. Assim, Pictet se dedica à comparação de nomes de plantas, de animais e de insetos nos diversos dialetos germânicos, com o intuito de encontrar evidências que apontem para a localização geográfica, a cultura e as instituições do povo ariano primitivo. A hipótese que norteia sua análise é a seguinte:
A afinidade radical de todas as línguas arianas conduz necessariamente a considerá-las como originadas de uma só língua-mãe primitiva, pois nenhuma outra hipótese daria conta das relações íntimas entre elas. Ora, como uma língua supõe sempre um povo que a fala, daí resulta também que todas as nações arianas provêm de um tronco único, considerando, no entanto, os elementos estrangeiros que, algumas vezes, podem ter assimilado (PICTET, 1859, p. 5)b.
Essa hipótese já é perceptível nas teorizações de autores anteriores a Pictet, como Franz Bopp e August Schleicher. O que é importante ressaltar é a maneira como os conhecimentos linguísticos eram utilizados para retomar aspectos históricos. É Saussure quem nos explica, em um compte rendu da obra de Pictet17 publicado em 1878, de que maneira os resultados da gramática comparada auxiliavam as análises desse estudioso:
Se a mesma palavra se encontra em diferentes línguas de uma família, ela vem necessariamente de um povo primitivo, e se esse povo tinha a palavra, ele teria também a coisa. Recolhendo pacientemente todos esses índices, pode-se muito bem traçar o retrato dessa época distante e ter uma ideia do desenvolvimento material e intelectual da raça antes de sua dispersão. (SAUSSURE, 1922 [1878], p. 396)c.
Nesse sentido, se as línguas arianas advêm de uma mesma língua, os diferentes povos arianos teriam se originado de uma mesma sociedade primitiva. Isso permitiria dizer que os mitos desses povos compartilhariam uma mesma origem e seriam, dessa forma, uma fonte importante de pesquisa. Parece-nos evidente, assim, a defesa de uma concepção monogenética das línguas: os dialetos germânicos teriam somente uma origem.
No Capítulo II, dedicado às hipóteses geográficas sobre a origem do povo ariano, o autor explicita que o berço dessa civilização teria sido o planalto do Irã. Entretanto, em virtude da extensão desse planalto e do fato de ele abarcar regiões com características distintas, fazia-se necessária a utilização de dados geográficos e linguísticos para estabelecer, de maneira aproximada, a localização geográfica dessa sociedade originária. Como dado linguístico, Pictet se utiliza do Zend-Avesta18 que, apesar de tratar das origens dos povos indo- iranianos e ario-persas, poderia contribuir para dar indicações sobre o povo ariano primitivo.
Deve-se enfatizar que, em um determinado momento de sua análise sobre o Zend-
Avesta, Pictet fala da necessidade de se diferenciar o mito e a história19. Como vimos anteriormente, a narrativa mitológica seria aquela que narra eventos anteriores aos eventos históricos e contém uma natureza divina. Ao que parece, Pictet considera a possibilidade de recuperar, por meio do mito, os dados históricos, porém essa recuperação deveria ser feita com cuidado, tendo em vista que as características religiosas e fantásticas poderiam desvirtuar sua conclusão. Nesse sentido, podemos pensar que o filólogo suíço tem uma primeira tomada
17
Publicado no Journal de Génève, 17, 19 e 25 de abril de 1878 (cf. SAUSSURE, 1922, p. 391).
18
O Zend-Avesta é um livro composto por 21 partes, as quais são compostas, em sua maioria, por orações e hinos religiosos. Além disso, há também diretivas sobre como os persas deveriam se comportar: quais animais comer, tipos de sacrifícios, características geográficas etc. (cf. VAPEREAU, 1876, p. 1572). É considerado como um dos monumentos literários mais importantes e antigos da literatura persa.
19 “Eu acredito, portanto, que se deva separar, nessa tradição, o elemento mítico do dado histórico”d. (PICTET,
de consciência sobre uma separação que será realizada de maneira veemente no início do século XX pelos historiadores, qual seja, a separação entre os estudos históricos e os literários (cf. DOSSE, 2010, p. 21).
No capítulo III, Pictet se detém no estudo dos dados linguísticos. Para ele, a hipótese de que todas as línguas arianas descenderiam de uma mesma língua que, consequentemente, servira a um mesmo povo, é irresistível e inevitável. Tal hipótese seria atestada pela quantidade de dados obtidos por meio das pesquisas realizadas. Nesse ponto, ele realiza uma crítica à noção naturalista, bastante presente no século XIX:
Um escritor de grande talento e sólida erudição recentemente procurou estabelecer que, em linguística, é necessário compreender os dialetos da mesma forma que se entende, na história natural, as espécies constituídas, ou seja, como um fato atual e desde então permanente, sem investigar se as diversidades presentes existiam ou não na origem. Não é preciso, segundo ele, colocar a unidade no começo. O idioma das primeiras eras teria sido uma linguagem ilimitada, caprichosa, indefinida, produto de uma liberdade sem controle e, em vez de fazer preceder aos dialetos uma língua única e compacta, seria necessário dizer, ao contrário, que essa unidade é somente o resultado da extinção sucessiva das variedades dialetais (PICTET, 1859, p. 43-44)e.
Para Pictet (1859), não é possível adotar essa postura teórica no que concerne à análise das línguas arianas. E isso porque ele parte do pressuposto de que a língua é uma criação humana e, desse modo, a relação estabelecida entre os sons e as ideias é arbitrária:
Mas as línguas são inquestionavelmente um produto da mente humana, um produto instintivo, é verdade, mas de modo algum puramente cego. A relação entre os sons articulados e as ideias que eles expressam é de uma natureza completamente diferente daquela das formas vegetais ou animais com os seres invisíveis que eles revelam porque, como um sinal do pensamento, o som tem essencialmente apenas um valor arbitrário todas as vezes em que não é imitativo (PICTET, 1859, p. 44)f.
Afastando-se do naturalismo, Pictet se aproxima, então, da concepção de J. Grimm segundo a qual todas as línguas arianas teriam se originado de uma só língua, o que ficaria perceptível a partir de uma análise retrospectiva. Por meio dessa análise, seria possível perceber uma diminuição na quantidade de dialetos e o apagamento de suas diferenças até chegar a uma língua germânica comum que seria, ao lado do lituano, do eslavo, do grego e do latim, um dos dialetos derivados de uma língua primitiva (cf. PICTET, 1859, p. 45). No que concerne à formação dessa língua primitiva, Pictet afirma que, apesar de ser uma questão digna de análise, não seria abordada por ele em sua obra. Isso pode nos indicar um presságio
do que viria a acontecer anos mais tarde, especificamente em 1866, por ordem da Société de
Linguistique de Paris: a proibição de qualquer pesquisa relacionada à origem da linguagem20. Os temas tratados na obra de Pictet indicam não somente o interesse dos estudiosos do século XIX sobre a linguagem originária, mas também a relação que o estudo das civilizações antigas tem com o mito, a linguagem e a história dos povos. Nesse sentido, pensamos ser o momento de trabalharmos com outra figura bastante influente nesse meio: o linguista Michel Bréal.
1.4 Michel Bréal (1832-1915) – o mito como invenção da linguagem
A importância de Bréal nas ciências da linguagem é inegável. Além de ser cofundador da École des Hautes Études, como já mencionamos, desenvolveu pesquisas no âmbito da gramática comparada e da mitologia comparada, é considerado o fundador da Semântica, com sua obra Essai de Sémantique (1897). No início de sua carreira, quando desenvolvia seus estudos em Berlim, Bréal teve como professor Adalbert Kuhn, o qual também foi um dos mestres de M. Müller. Entretanto, ao contrário de Müller, Bréal não foi adiante nos estudos mitográficos, partindo estritamente para a comparação entre as línguas e, no final do século XIX, publicando suas elaborações sobre semântica. Segundo Meillet (1916),
No início de sua carreira, Bréal foi fortemente influenciado por seus professores em Berlim. Suas primeiras publicações eram relacionadas às ideias de Adalbert Kuhn, também avalizadas por Max Müller; juntamente com a gramática comparativa, fundada por Bopp e construída em princípios sólidos, que progredia constantemente desde sua criação, Adalbert Kuhn queria criar uma mitologia comparativa. Mas o senso comum do jovem autor [Bréal] era forte demais para deixá-lo debruçar-se sobre essas vãs hipóteses. Logo abandonou esse tipo de trabalho e nunca voltou a ele; e, enquanto Max Müller permaneceu fiel às miragens da mitologia comparativa, onde desperdiçou seu belo talento, M. Bréal começou a lidar com as sólidas realidades da linguística e produziu um trabalho duradouro na linguística. (MEILLET, 1916 apud NERLICH, 1990, p. 7, destaques do autor)a.
A obra com a qual trabalharemos é sua tese de doutorado, intitulada Hercule et Cacus:
Étude de Mythologie Comparée (1863), que foi produzida durante o período em que Bréal
ainda se dedicava aos estudos mitográficos. Já no início dessa obra, é explicitado que:
A interpretação do mito de Hércules e Caco não é o único objeto deste trabalho. Nosso objetivo é, além do mais, o de expor segundo quais leis essa fábula se desenvolveu e percorrer a série de transformações que sofreu, remontando até seu nascimento. Depois de termos buscado sua origem,
20 Segundo Auroux (2008, p. 20), essa proibição está relacionada justamente à “rejeição do naturalismo e à
propomo-nos seguir a história do mito nos diferentes povos que o receberam seja por herança, seja por empréstimo (BRÉAL, 1863, p. 1)b.
De fato, durante todo o livro, Bréal procura explicitar as leis de formação e mudança das lendas, mitos e fábulas21 por meio de um trabalho filológico. Ele pretende, nesse sentido, mostrar como a filologia contribui para os estudos mitográficos. Da mesma forma que Müller, percebemos em Bréal que a relação entre a filologia e a mitologia é intrínseca: se a primeira serve para analisar a linguagem mitológica, os mitos e lendas, por sua vez, são um dos
corpora das análises comparativas.
No que concerne à origem histórica dos mitos e lendas, Bréal parte do pressuposto de que ela é inexistente. Disso decorre que o linguista francês possui uma perspectiva contrária àquela de F. Schlegel e J. Grimm que, como vimos, dedicaram-se ao estudo das narrativas populares com interesses históricos. Para ele, a origem dessas narrativas não se encontra na história, mas sim na própria linguagem:
De onde será que vêm essas imagens que se encontram na poesia primitiva de todos os povos de raça ariana? Da linguagem, que as cria espontaneamente, sem que o homem perceba. A influência da linguagem sobre o pensamento, geralmente pouco observada, desapercebida na antiguidade, não é menos considerável: pode-se comparar a linguagem a um vidro atravessado por nossas concepções, mas que as colore com suas nuances. Habituados a esse intermediário, fazemos tão pouco caso dele que, mesmo antes de exprimir um pensamento, este se tinge, em nossa mente, das cores da linguagem (BRÉAL, 1863, p. 8)c.
Para Bréal, então, é a linguagem que cria espontaneamente as imagens que compõem as narrativas dos povos primitivos. Os mitos de que se tem conhecimento são, dessa forma, não criações do homem ou narrativas de acontecimentos históricos, mas algo proporcionado pela linguagem em seu uso. Assim,
Vemos claramente nos Vedas que os poetas conheciam a significação das fábulas que repetiam. Mas isso não ocorreu na época seguinte. À medida que certos termos antigos envelheciam e que o sentido etimológico das palavras se perdia, a língua ia perdendo sua transparência: os nomes das forças da natureza se tornavam nomes próprios e, então, os personagens míticos começaram a aparecer (BRÉAL, 1863, p. 9-10)d.
Em consonância com M. Müller, Bréal afirma que as línguas primitivas nomeavam um objeto de várias maneiras, sendo que cada uma delas dizia respeito a uma qualidade do objeto. Assim, o Sol, por exemplo, tinha nomes diferentes de acordo com as características que ele
21 Aqui é interessante ressaltar que não parece haver, para esse autor, uma distinção entre esses três tipos de
possuía em um determinado momento: ao amanhecer, ao entardecer, quando estava muito brilhante etc.22 A geração posterior a essa já não entendia os significados desse tipo de nomeação, ou seja, “a língua perdia sua transparência”. Desse modo, aqueles nomes, que antes se referiam a fenômenos da natureza, tornaram-se nomes próprios e a civilização que os recebeu criou histórias para justificá-los. Nesse sentido, Bréal afirma que
A etimologia foi, por sua vez, a fonte de grande número de mitos. O povo é um filólogo que quer perceber os nomes que escuta, e que, graças à sua imaginação, encontra facilmente uma história para explicar um nome próprio. Quanto mais o conto que inventa é esquisito, mais a ele se apega e não demora muito até ele citar o nome como prova da narrativa (BRÉAL, 1863, p. 16)e.
Para Bréal, foi por meio da transmissão desses nomes que os mitos e lendas foram criados. Ele possui, então, várias semelhanças com as elaborações de M. Müller no que concerne aos estudos mitográficos. Ademais, percebe-se na citação acima não só a questão da oralidade, mas também a da “invenção”. O linguista francês parece pensar que, quanto à transmissão dos nomes divinos, há a interferência da imaginação popular, além da ação do próprio funcionamento da linguagem. Ele se refere, desse modo, ao fenômeno de “etimologia popular”, que será tratado de maneira mais detalhada no próximo capítulo.
Como vimos, a mitografia está intrinsecamente relacionada com a história, seja pela negação desse liame ou pela busca das origens de um povo. De acordo com Dosse (2010), a conjunção entre esses dois domínios e a gramática comparada tem um papel importante na própria configuração da história enquanto área do conhecimento:
A historiografia da primeira metade do século XIX se inscreve numa relação complexa entre três polos a que podemos chamar de recursos: a erudição, a filosofia, a literatura. Cada obra oferece delas uma trama particular. Essa configuração é fonte de riqueza, mas também de fraqueza, posto que conduz os historiadores a se posicionarem em debates teóricos nos quais sua prática documental não pode, sozinha, garantir sua legitimidade. Todavia ela se revela fundadora de um conceito que outorga aos historiadores um papel de destaque: o de narrar a nação, de pôr ordem em seu passado para antecipar seu futuro. Através das diferentes figuras que elencamos, o historiador aparece tal qual um profeta (DOSSE, 2010, p. 20-21).
A função atribuída ao historiador oitocentista de recuperar o passado para profetizar o futuro já nos indica de maneira latente um dos objetivos de alguns mitógrafos: recuperar o que há de registros históricos nos mitos e, a partir disso, recuperar a cultura e a história de um
22 Segundo Bréal, nos Vedas, o Sol é nomeado de vinte maneiras diferentes, as quais não são totalmente
povo primitivo. É claro que essa busca não se deu de maneira uniforme durante todo o século XIX. Entretanto, esse período não é chamado por Le Goff (1990) de “século da história” por acaso: muitos estudiosos se dedicaram à história pelo viés da mitografia e da gramática comparada. Não é absurdo, dessa forma, entrever os motivos pelos quais, na Primeira Conferência à Universidade de Genebra, Saussure tenha feito duras críticas aos seus contemporâneos: o valor dos estudos linguísticos não deve se pautar em sua utilidade para outras ciências, mas no estabelecimento de um objeto próprio.
Neste capítulo, vimos de que maneira a gramática comparada se consolidou em consonância com o desenvolvimento da mitografia comparada e com a abordagem histórica. Agora, devemos considerar que Saussure nasce nesse contexto intelectual, tendo contato desde os seus primeiros anos de vida com Adolphe Pictet, sendo aluno de M. Bréal e tendo uma parte de sua formação acadêmica em Leipzig, centro dos estudos comparatistas. Assim, passaremos às elaborações do linguista suíço desenvolvidas no século XIX, com o intuito de apreender seu posicionamento acerca do liame entre a história dos povos, a gramática e a mitografia comparada.
Capítulo 2 Ferdinand de Saussure no final do século XIX e início do século
XX: elaborações sobre a diacronia, a mitologia e a fala
No capítulo anterior, realizamos um percurso teórico pelos estudos desenvolvidos no âmbito da linguagem durante o século XIX. Vimos que, para além da comparação entre as línguas, estava ainda em jogo a história, a cultura e a religião de um povo. Nesse sentido, várias pesquisas foram desenvolvidas na Europa, dentre as quais destacamos a de M. Müller, A. Pictet e M. Bréal.
Neste capítulo, passamos à análise das elaborações saussurianas do final do século