A Escola de Frankfurt, sob a representação de Theodor Adorno e Max Horkheimer, foi a grande responsável pelas primeiras críticas à sociedade capitalista moderna. Com a obra “Dialética do Esclarecimento” (original datado em 1947), os autores apresentam suas idéias e justificativas como principais representantes da chamada “teoria crítica” da sociedade. O
ponto-chave das discussões desses dois autores refere-se exatamente a forma como a razão instrumental apropria-se da cultura nessa nova fase capitalista de produção, utilizando-a como bem de consumo. A esse processo de apropriação da cultura, como fonte de capital, Adorno e Horkheimer denominam “indústria cultural”, que, segundo Rüdiger (2002, p. 18), representa, entre várias interpretações, “um movimento histórico-universal: a transformação da mercadoria em matriz da cultura e, assim, da cultura em mercadoria, ocorrida na baixa modernidade”.
Em síntese, o processo denominado indústria cultural pode ser definido como a apropriação da cultura pelos interesses econômicos e políticos, com o objetivo de uma ampla divulgação de suas mercadorias e produtos, que, segundo Kellner (2001, p. 44) acaba por constituir uma espécie de cultura massificada.
Os produtos das indústrias culturais tinham a função específica, porém, de legitimar ideologicamente as sociedades capitalistas existentes e de integrar os indivíduos nos quadros da cultura de massa e da sociedade.
Essa “padronização” dos produtos culturais, para Adorno e Horkheimer, acabaria resultando em uma cultura de massas, totalmente dominada pelos interesses e pela racionalidade capitalista, perdendo seu sentido de representação das produções burguesas, tornando-se escrava do processo de massificação. Dessa forma, a indústria cultural atua no sentido de conseguir manter suas proposições ideológicas e criar um sentimento de coesão e igualdade. Rüdiger (2002, p. 207) nos situa em relação às formas como a indústria cultural se apropria para a devida manipulação dos sujeitos:
Os produtos e serviços culturais que o público consome contêm uma mistura de preceitos ideológicos com fantasias conscientes e inconscientes, de satisfação de desejos com ameaça de punição, de estímulos produtivos e dissuasivos, de expressões conformistas e projeções utópicas, cujo sentido, todavia, é regressivo, devido à dependência do valor de troca, à necessidade de o conjunto atender às expectativas, mesmo as inconscientes, dos consumidores.
A indústria cultural, além de atuar na reconstrução de nossas noções e necessidades de consumo, age ainda como uma espécie de alienadora das formas críticas de pensamento. Como exemplo disso, Adorno e Horkheimer (1985, p.119) citam a função dos filmes como inibidores do processo de intelectualismo humano:
São feitos de tal forma que sua apreensão adequada exige, é verdade, presteza, dom de observação, conhecimentos específicos, mas também de tal sorte que proíbem a atividade intelectual do espectador, se ele não quiser perder os fatos que desfilam velozmente diante de seus olhos. O esforço, contudo, está tão profundamente
inculcado que não precisa ser atualizado em cada caso para recalcar a imaginação. Quem está tão absorvido pelo universo do filme – pelos gestos, imagens e palavras -, que não precisa lhe acrescentar aquilo que fez dele um universo, não precisa estar inteiramente dominado no momento da exibição pelos efeitos particulares dessa maquinaria.
Ao questionarem a função dos filmes, por exemplo, como forma de inibição de um pensamento mais crítico e elaborado, Adorno e Horkheimer (1985) adentram em outra questão de extrema importância para nossas reflexões: a utilização em massa dos veículos de comunicação, que contribuirão para a ampla divulgação dos interesses da indústria cultural, seja através do telefone, do rádio, revistas, do cinema ou da televisão. Serão esses meios que terão a responsabilidade pela unificação e padronização dos padrões de consumo e de estética da sociedade.
A cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. O cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto. Até mesmo as manifestações estéticas de tendências políticas opostas entoam o mesmo louvor no ritmo de aço (...) sob o poder do monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p. 113 – 114) Essa nova forma de manipulação ideológica dos sujeitos, agora apoiada pelos veículos de comunicação em massa atuaria em todos os sentidos das nossas vidas, desde o momento em que saímos do trabalho (os autores utilizam a imagem do operário empregado de fábricas) até o momento em que retornamos para o mesmo, instaurando-se principalmente nos espaços destinados ao nosso lazer, ou seja, os momentos destinados a nossa diversão servem também como manipulação e acabam nos conduzindo ao consumo.
A verdade em tudo isso é que o poder da indústria cultural provém de sua identificação com a necessidade produzida, não da simples oposição a ela, mesmo que se tratasse de uma oposição entre a onipotência e impotência. – A diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada para quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condições de enfrentá-lo. Mas ao mesmo tempo, a mecanização atingiu um tal poderio sobre a pessoa em seu lazer e sobre a sua felicidade, ela determina tão profundamente a fabricação das mercadorias destinadas à diversão, que esta pessoa não pode mais perceber outra coisa senão as cópias que reproduzem o próprio processo de trabalho. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p. 128)
Sob outra perspectiva, Adorno e Horkheimer exploram a utilização de mecanismos de diversão para outro objetivo, além do consumo: o de desgaste de qualquer forma de resistência individual. Rindo da sua própria situação, os sujeitos acabam esquecendo e
apagando suas indignações, que tornam-se, então, material para propagandas, desenhos, filmes, programas televisivos, revistas e cartoons: “Divertir-se significa estar de acordo (...) Divertir-se significa sempre: não ter que pensar nisso, esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado” (Adorno e Horkheimer, 1985, p. 135).
É desta forma, agindo e coagindo nas necessidades, no imaginário, trabalhando subjetivamente na construção e desconstrução de padrões de comportamento, de consumo, de estética, que a nova sociedade de massas se instaura na sociedade moderna, destruindo, segundo Adorno e Horkheimer, as grandes expressões da uma cultura erudita, transformando a verdadeira e única cultura (erudita) em refém do poder da indústria cultural: “O denominador comum ´cultura´ já contém virtualmente o levantamento estatístico, a catalogação, a classificação que introduz a cultura no domínio da administração” (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p. 123)
Pode-se constatar, contudo, a defesa da “teoria crítica” pelos frankfurtianos Adorno e Horkheimer, de uma cultura elitista, e a conseqüente crítica à cultura de massas, com a total perda da autonomia da cultura para os interesses do mercado. Entretanto, os frankfurtianos receberam sérias críticas em suas proposições teóricas. Algumas dessas críticas são apontadas por Kellner (2001, p. 44-45) da seguinte maneira:
A superação de suas limitações compreenderia: análise mais concreta da economia política e dos processos de produção da cultura; investigação mais empírica e histórica da construção da indústria da mídia e de sua interação com outras instituições sociais; mais estudos de recepção por parte do público e dos efeitos da mídia; e incorporação de novas teorias e métodos culturais numa teoria crítica reconstruída da cultura e da mídia (...) Além disso, a dicotomia da Escola de Frankfurt entre cultura superior e inferior é problemática e deve ser substituída por um modelo que tome a cultura como um espectro e aplique semelhantes métodos críticos a todas as produções culturais, que vão desde a ópera até a música popular, desde a literatura modernista até as novelas. (KELLNER, 2001, p. 44 – 45). A crítica feita à Escola de Frankfurt, em relação à sua defesa de uma única forma de cultura, relembra proposta metodológica baseada nos Estudos Culturais, que caminha exatamente no sentido contrário à Teoria Crítica, ou seja, defende todas as expressões como representações culturais, não classificando a cultura entre alta e baixa. No entanto, não se pode desmerecer a importância da teoria crítica, pois foi a primeira teoria que alertou sobre a importância de aprofundar o olhar para a transformação da sociedade, sob o panorama da indústria cultural. Entende-se que não se pode negar sua existência e representação na sociedade contemporânea, já que vive-se exatamente sob a alta representatividade de indústrias cinematográficas, televisivas, propagandísticas. A proporção com que esses meios
tomaram sentido em nossa sociedade, justificam os estudos em relação à influência da televisão no cotidiano da infância.