AS PRISÕES NO SÉCULO XIX: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS
1. O ADVENTO DA PENA DE PRISÃO NA EUROPA E NOS EUA
Em toda a História do Direito Penal e da Execução Penal, desde tempos remotos, a prática do encarceramento fez-se presente. Contudo, ao menos até o medievo, a detenção dos criminosos era feita com a intenção não de punir, mas de custodiar o criminoso que estava aguardando julgamento ou a aplicação de sua sentença. Foi apenas no século XVI que o atual sistema prisional ocidental começou a se delinear com as primeiras Casas de Correção ou Casas de Trabalho (Workhouses ou Bridewells) surgidas na Inglaterra e nos Países Baixos. No século XIX, a prisão já era a principal forma de punição na Europa, Estados Unidos e América Latina, tendo como função, além da retirada das ruas de criminosos e vadios, sua correção e reinserção na sociedade.
Pode-se afirmar que a partir do século XVI, assiste-se, na Europa, à emergência de políticas austeras para evitar que os pobres recusassem a oferecer sua mão-de-obra no mercado, preferindo mendigar a ter baixos salários e uma rotina no mundo do trabalho a partir de seu envio para as casas de correção. Assim, a tendência geral foi a substituição da punição corporal por trabalhos forçados e de se aplicar somente aqueles métodos que infligissem a um homem o máximo sofrimento possível sem que se lhe fizesse o mais leve ferimento ao corpo, tendo as casas de correção surgido nesse contexto.
1 TRINDADE, Cláudia Moraes. Ser preso na Bahia no século XIX. Tese de doutorado. Salvador: UFBA, 2012, p. 36.
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Apesar de ter surgido na Inglaterra, a experiência mais bem sucedida dessas casas de trabalho se deu na Holanda, nas chamadas Rasp-huis. Esse nome é devido à principal atividade dos homens ali detidos que era a de raspar madeira, o pau-brasil saído da América Portuguesa (eis nossa indireta contribuição para o advento do moderno sistema prisional), para a obtenção de tinta que seria empregada na manufatura têxtil que, nessas prisões era a principal atribuição feminina.
A partir do século XVIII, e principalmente no XIX, a principal pena do arcabouço jurídico-penal europeu já era o cárcere, que se tornou a principal forma de punição no mundo ocidental no exato momento em que o fundamento econômico da casa de correção foi destruído pelas mudanças industriais, segundo teses marxistas. Independente desta abordagem, neste período, assiste- se, no continente europeu, o surgimento de um pensamento acerca da função corretiva e pedagógica da pena, em oposição à tradição do Antigo Regime, das grandes punições públicas e meramente vingativas, como o caso de Damiens, que Foucault tornou clássico nas primeiras páginas de Vigiar e Punir.2
Pensadores como Bentham, Beccaria e Howard vão se insurgir contra esses eventos, defendendo que a prática punitiva deve ter uma finalidade para a sociedade, e essa utilidade residia em transformar o criminoso num indivíduo morigerado e disciplinado com a rotina do trabalho, tendo em vista crer-se que o trabalho seria o oposto do ócio, e este poderia levar os homens e mulheres ao mundo do crime. Bentham desenvolveu, no seu projeto panoptico o utilitarismo como técnica disciplinadora e de controle social. No entanto, ele não inventa o cárcere, mas sim, desenha um modelo eficiente de possibilidade de disciplinamento mediante o confinamento, que vinha sendo aplicado séculos antes, como foi visto.
Porém, apesar da grande importância das instituições carcerárias europeias, a consolidação do sistema prisional moderno se deu com a difusão
dos dois grandes modelos penitenciários dos Estados Unidos: o modelo de Filadélfia e o de Alburn. 3
O sistema filadelfiano, de grande inspiração religiosa, se baseia na correção do indivíduo a partir de sua autorreflexão sobre seus erros. Assim, pregava regime celular com isolamento e silêncio absolutos e o trabalho solitário dentro da própria cela. O componente religioso não foi de menor importância para a elaboração deste sistema. O nome “penitenciária” deriva da função penitencial que se pretendia efetuar no isolamento dos novos sistemas organizados pelos quakers. Recordemos, ainda, que a Igreja Católica igualmente enaltece o confinamento, desde o século XVI e os ensinamentos do Padre Inácio de Loyola.4
Já no sistema de Alburn, mais atrelado aos interesses da economia capitalista em ascensão nos EUA, foi empregado o regime do trabalho diurno em conjunto, em oficinas, respeitando-se a regra do silêncio e o isolamento apenas noturno, visando-se, desta forma, que o trabalho penal fosse mais produtivo e tivesse uma rotina mais próxima à da fábrica. Esses dois modelos permearam os debates no tocante à formação dos sistemas prisionais em vários países ocidentais, tendo o modelo da Pensilvânia sido mais aceito na Europa e o alburniano no continente americano.
Desde a sua criação, esses dois modelos penitenciários concentraram boa parte dos debates produzidos sobre prisões no século XIX. Segundo Gabriel Ignácio Anitua, o surgimento desses sistemas acompanhou o processo revolucionário burguês europeu, o que justifica a forte influencia do humanismo iluminista e do utilitarismo liberal nessas concepções. Nesse sentido,
as diferentes fases do movimento penitenciário coincidiram com as fases revolucionárias. Assim, após o movimento revolucionário de 1789, o penitenciarismo seria, antes de tudo “filantrópico”,
3 A literatura sobre esses dois sistemas é significativa, não necessitando, desta forma, ser esmiuçados, aqui os detalhes desses dois regimes. A esse respeito, veja-se: Pensamento Criminológico. Rio de Janeiro: Revan, 2004 e MELOSSI, Dario e PAVARINI, Massimo. Cárcere e
fábrica. As origens do sistema penitenciário (séculos XVI – XIX). Rio de Janeiro: Revan, 2006;
FOUCAULT, op. cit; BITENCOURT, Cezar Roberto. Falência da pena de prisão. Causas e
alternativas. 3ª edição. São Paulo: Saraiva, 2004.
4 ANITUA, Gabriel Ignácio. História dos pensamentos criminológicos. Rio de Janeiro: Revan, 2008
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estaria centrado nas condições de vida das prisões existentes e reivindicaria sua melhora. O momento das revoluções de 1830 foi aquele em que teve preeminência o trabalho dos reformadores (...) que expressaram seu repúdio à pena de morte e outras penas corporais. Em seguida, depois do esmagamento das revoluções de 1848, essa ilusão reformadora chegaria ao fim e os reformadores seriam substituídos por burocratas e especialistas em atividade penitenciária que, além disso, endureceriam o cumprimento desses sistemas. 5
Visitantes de vários países foram enviados aos Estados Unidos com o intuito de conhecer tais lugares e incentivar as discussões em seus países de origem. Tocqueville e Gustave de Beaumont visitaram essas prisões logo no ano de 1831. Publicaram um livro (Du système pénitentiaire aux États-Unis et de son
application em France) onde defenderam o sistema pensilvânico e fomentaram
um debate na França sobre como organizar os espaços prisionais. Segundo Marilene Antunes, do Brasil, o governo imperial enviou o primeiro diretor da Casa de Correção do Rio de Janeiro, Antonino José Miranda Falcão durante o ano de 1854, que também defendeu o sistema de isolamento total, acompanhando a grande maioria das opiniões, mas não viu sua escolha ser adotada no país, em vista principalmente do argumento dos altos custos necessários para manutenção de tais estabelecimentos. 6
É correto afirmarmos que, apesar de Filadélfia ser o modelo preferido pelos médicos e alguns juristas e burocratas da prisão, a proposta da criação de oficinas de trabalho, concretizada através das casas de prisão com atividade laboral, foi a preferida pelo governo imperial. Marilene Antunes sintetiza:
Em ambos os modelos, o pressuposto era acreditar que instituições fechadas, cercadas de muros altos e vigilância permanente, constituíam a melhor forma de resposta da sociedade aos avanços dos delitos praticados por uma massa de homens e mulheres excluídos da vida social. Além disso, as penitenciárias foram vistas como um avanço importante em relação às práticas punitivas predominantes até então, que envolviam principalmente a pena de morte e os suplícios públicos. Tornaram-se espaços centrais para discutir o grau de progresso e
5 Idem, ibidem, p. 218.
6 SANT’ANNA, Marilene Antunes. A imaginação do castigo: discursos e práticas sobre a Casa de Correção do Rio de Janeiro. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: IFCHS/UFRJ, 2010.
de civilização existentes nos países, que, no caso da América Latina, viam-se às voltas com o processo de constituição e organização de seus Estados nacionais. 7
Com relação à América Latina, vemos que as os estudos sobre as prisões, como foi observado, giram em torno de outro foco, que não apenas o econômico ou o disciplinar, partindo-se do pressuposto de que, na América Latina, as prisões surgem enquanto principal punição por uma necessidade de um efetivo controle social sobre as camadas mais pobres da população, necessidade ligada à formação dos estados nacionais recém independentes de suas metrópoles europeias. 8 Assim, os países nascentes criaram aparatos repressivos que auxiliavam na manutenção da ordem social nesse momento em que as bases de sustentação desses Estados ainda eram muito fracas.