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2 A HISTÓRIA DA CAPOEIRA

2.4 O ADVENTO DA REPÚBLICA OU "TEM TRAÍRA NA RODA!"

Sampaio Ferraz é o último personagem policial daquele período. Logo após o Golpe Militar Republicano, o novo chefe de polícia da República prendeu, através de denúncias de capoeiras liberais ou desafetos destes, os cabeças das maltas em suas casas, onde não pudessem oferecer resistência e logo a seguir foram enviados para a Ilha de Fernando de Noronha. Bretas (1991, p. 239-256), aponta que os capoeiras procuravam ser identificados como vagabundos e desocupados desqualificados, porém 80% dos presos registrava ocupação formal nas fichas policiais, possuindo o perfil promovido pela vida urbana que misturou escravos, homens livres e pobres. Independentemente da veracidade do que consta nas fichas policiais, Santos (2014, p. 57) aponta para a “melhor sorte na integração à sociedade do trabalho livre” no Rio de

Janeiro do que em São Paulo em relação aos negros, porém, como vemos, são diferenças entre

centros populacionais ainda em expansão num país continental racista e sem uma devida inserção econômica e social daquele expressivo contingente populacional.

Iniciou-se uma grande caçada aos capoeiras, inclusive com passagens notáveis como a de José Elísio dos Reis, filho do falecido Conde de Matosinhos e exímio capoeirista. O “Juca” Reis, como era conhecido, estava de passagem pelo Rio de Janeiro, passeando pela Rua do Ouvidor, quando foi preso. Tal prisão causou um problema institucional, porque o Ministro Quintino Bocaiúva, à época Ministro das Relações Exteriores, colocou o cargo à disposição em reação à arbitrariedade. Sampaio foi bastante pressionado para realizar a soltura do “Juca” Reis, porém manteve-se firme e fez desta prisão um exemplo, revelando um novo sistema que não

20 Expressão chula usada na capoeira para alertar sobre a possibilidade de atos traiçoeiros, incluindo delação

desejava mais favores que beneficiassem a soltura de capoeiras. Outros membros da classe de “Juca” Reis (capoeiras brancos, jovens, educados e de família abastada) foram presos e também os policiais capoeiras, algum tempo depois todos foram enviados para Fernando de Noronha (BRETAS, 1991, p. 239-256).

2.4.1 Dos Vadios e Capoeiras21

A repressão foi intensa, pois somente depois de executadas as prisões é que foi elaborado o Código Penal (BRASIL, 1890) que tornava a capoeira crime, o que em si constituiria uma grande arbitrariedade. Ocorre-nos uma importante interrogação de caráter jurídico ainda mais contundente: o porquê de o governo brasileiro, com ideais republicanos e democráticos, ter criado um Código Penal antes da sua Constituição?

Serafim e Azeredo (2011, p. 7) nos auxiliam a entender esta questão sob a ótica da importação mais recente da época: a ideologia racista do trabalho. Esta ideologia teria como suposição que a “...eliminação do elemento africano “incivilizado” passa pela exclusão da herança cultural negra no Brasil, que tinha como principais aspectos a Capoeira e os rituais religiosos, colocados em prática em instituto repressivo positivado no ordenamento jurídico pelo estado, apresentado especificamente no Código Penal de 1890”. A ideologia racista do trabalho, apresentava vários elementos de modernidade, mostrando que “O interesse capitalista das oligarquias rurais mudou, viam-se os ex-escravos não mais como meros objetos de trabalho, mas consumidores fazendo com que a escravidão física fosse eliminada. Todavia, criou-se outro tipo de trabalhador, o trabalhador quase (grifo nosso) escravo” (SERAFIM; AZEREDO, 2011, p. 4).

Santos (2002, p. 146) aponta que com a repressão, nos anos iniciais da República, a capoeira passa a ser discreta e construir/reconstruir seu sentido na clandestinidade: “...essa atividade passou a ser desenvolvida de forma camuflada, principalmente nos terreiros e morros das cidades”. Esta afirmação do autor, “das cidades”, parece indicar uma verdadeira “diáspora” da capoeira, ganhando também cidades de outros estados do Brasil. A capoeira entre 1920 e 1930 já não apresenta alto número de prisões, nem é mais um problema que cause medo nas ruas. Os negros haviam sido retirados do centro para a periferia e seus cortiços, demolidos. Mesmo assim foi registrada a presença de capoeiragem na revolta da vacina, já citada. Alguns mestres de capoeira foram oferecer seus conhecimentos à Marinha, que possuía autonomia para

recepcioná-los sem criminalização. Mesmo com a adoção do método francês, a marinha cultivava a prática da capoeira informalmente. Não esqueçamos que, a contragosto dos oficiais, o chamado rebotalho social estava presente no corpo de marinheiros desde a sua instalação no Brasil.

Santos (2002) segue explicando que a capoeira passa a ser uma maneira de viver de muitos negros, que passam a ganhar alguns trocados para ensiná-la ou até mesmo exibi-la popularmente de maneira clandestina. A capoeira começa a se reinventar como cultura popular. Alguns intelectuais começam a ver a capoeira de uma maneira romântica como Coelho Neto, por exemplo. Há um desejo de se reconhecer na capoeira, na mestiçagem, uma identidade brasileira. Bretas (1989, p. 61) coloca que as bases para a interpretação da moderna capoeira deitam raízes em um artigo publicado em 1901, denominado “capoeiragem e capoeiras

célebres”. O “guia do capoeira ou ginástica brasileira”, de 1907, de autoria de O.D.C., ganha

publicação de forma não muito clara, mas segundo muitos, o Manual foi escrito por um capoeira que possuía conhecimento da luta. Tanto que, o nome do seu autor, cujas iniciais seriam O.D.C., na verdade significariam Ofereço, Dedico e Consagro, ou seja, é anônimo por questões de segurança pessoal, e a oferenda, dedicação e consagração estariam ligadas a um propósito não bem definido, como se percebe, carrega uma aura mística e o exemplar arquivado na Biblioteca Nacional desapareceu misteriosamente.

Com a invasão do “método inglês”, muitas modalidades de “esportes civilizados” eram oferecidas e ganhavam popularidade como o futebol, some-se a isso a onda higienista e a eugenia e podemos supor uma nova diretriz implícita pela classe dominante, que poderia ser enunciada como: “A capoeira precisa se comportar para sobreviver” (suposição nossa).

Em 1928, de fato, é publicada a primeira sistematização da capoeira, aceitável aos moldes burgueses, através de Annibal Burlamaqui, que propõe um manual de capoeiragem ou ginástica nacional (Figura 5).

Figura 5 – Capa da Gymnastica Nacional (capoeiragem) Methodisada e Regrada

Fonte: Disponível em: http://www.capoeirainfos.org/resources/textes/t_zuma_methode.html. Acesso em: 6 out. 2017.

Naquela época, a capoeira carioca dá sinais de fadiga ante a opressão imposta pelos detentores do poder na Primeira República. Reformas educacionais, reformas na saúde, enfim a consecução da organização da vida civil e a consecução do projeto de nação que, concebido pelos militares e liberais, deixava de lado a população pobre, tanto urbana quanto rural.

Contudo, nesse período, a capoeira ressurge com vigor na Bahia e para lá mudamos o nosso foco. Devemos ter em mente que o grande número de pesquisas enfoca o Rio de Janeiro, por que pioneiramente nesse Estado, foram consultados os dados prisionais que pelo menos informam sobre a sua prática por um contingente expressivo da população marginalizada, bem como sofre a repressão exercida pela classe dominante sob a falácia da manutenção da ordem pública. Houve repressão policial e alianças políticas também na Bahia, porém consideradas de forma mais difusa, ou por carência de fontes, ou por aspectos tradicionais da própria capoeira.