Rede de formulações, rede de significações: a construção referencial de afasia e cura
1. Afasia: definição e identificação de pré-construídos
1.3 Afasia e preconceito
1.3.4 Afasia e doença mental
A afasia é também definida em relação à doença mental: a afasia como entidade nosológica é pouco conhecida, ao passo que a des-razão, a loucura, a doença mental – mesmo para aqueles que com elas não convivem – são mais facilmente reconhecidas como categoria patológica. Em nosso sistema de referências, para qualquer comportamento desviante ou alterado, loucura pode ser uma escolha lexical possível. No caso da afasia, a denominação de loucura funcionaria como um hiperônimo, deslocando o ponto de vista e recategorizando a afasia como desvio.
Uma prática bastante comum aos sujeitos afásicos e não afásicos do CCA é referir a afasia com um gesto da mão tocando ou apontando a cabeça, gesto que está metonimicamente vinculado ao cérebro, à cognição, ao pensamento, à mente, ao psíquico e também à lesão cerebral. No fragmento seguinte (CCA27), Imc constrói referencialmente os objetos afásico e afasia de forma verbal e gestual, enunciando “problema” e apontando para sua cabeça.
Imc: Ô MG! Vamos ver aqui como você... com a NS e com a dona CL. Então... o afásico pode continuar a trabalhar?
CL: O quê?
Imc: O afásico... né... as pessoas que têm um problema //Aponta a cabeça//.
Em nosso sistema de referências, para significar a condição de louco ou de alguém de alguma forma desprovido de capacidades mentais íntegras, o gesto de “tocar ou apontar a cabeça com a mão” vem acompanhado de determinada expressão facial que ganha diferentes significações a depender do contexto em que ocorre e também da forma como esse toque do dedo na cabeça se dá. Isso é diferente de quando apontamos o cérebro ou a boca para nos referirmos à causalidade do problema afásico. É o que ocorre no fragmento anterior: aponta-se a cabeça para explicar que a afasia tem a ver com lesão cerebral, não que é uma doença ou deficiência mental. Do mesmo modo, aponta-se também a boca para assinalar o tipo de dificuldade que caracteriza a afasia, que nesse caso não é prioritariamente referida a partir do gesto indicial que faz o sujeito levar a mão à cabeça.
No próximo exemplo (CCA09), os sujeitos conversam sobre o desconhecimento das pessoas em geral sobre o que é afasia. Iem comenta que a ignorância é um fator grave, que pode produzir preconceitos. Ijt admite que, mesmo ele, antes de iniciar o trabalho de teatro com os afásicos do CCA, não tinha nenhum conhecimento ou informação sobre afasia. MS assume a mesma posição enunciativa de Ijt: nada sabia sobre afasia ou sobre o papel do cérebro na linguagem antes de tornar-se afásico. O gesto de “tocar a cabeça” vai ser utilizado por vários sujeitos na construção referencial da afasia em relação à loucura (seja girando o dedo indicador ao redor da têmpora, seja procedendo nessa região a sucessivos toques com o dedo indicador).
MS: Eu eu não sabia co como que era... essas coisas
JB: [Mas a a //Levando a mão próxima à boca// fala bem vai a //Dirigindo-se a MS com gesto da mão sendo lançada em direção a MS//.
Iem: Tá falando que o senhor fala bem aí. MS: //Ri um pouco desconcertado//.
EF: [Ô:: //Concordando com JB//.
JB: Tá louco... meu! Aí ó vai...ô! //“Tá louco” é uma expressão interjectiva muito usada por JB, sem nenhum sentido associado à loucura//.
MS: Mas é é eu a gente nunca nunca //Toca a região da têmpora esquerda com a mão// pensou que... que... a a a pessoa //Toca a cabeça// vivia nessa //Toca a cabeça// nessa é... agonia... porque eu nunca pensei que com... porque eu num... num... eu num... num... eu nunca pensei que uma pessoa... é que... louco eu eu sabia! Só! Só!
Iem: O senhor sabia o que que era “louco”?
MS: [Louco. Só. Porque eu vi... eu vi
Iem: [Às vezes não é fácil saber quem é louco e quem não é louco.
EF, SP, Imc e SI: //Risadas//.
MS: [Não... não... porque... louco eu sabia porque a mente //Batendo duas vezes com a ponta do dedo na testa// né? Agora... não sabia que a pessoas ficava nesse estado.
EF: [Louco //Fala olhando para MS//. //Ri//. MS: Nesse estado... né?
EF: //Ri alto//. SP: //Ri//.
MS: Agora... quando quando quando veio comigo... Ah... agora eu pensei //Toca a têmpora com a ponta do dedo// que o cérebro num num faz... tem tem a várias repartição //Toca a cabeça// que é a vida //Toca a cabeça// da gente. Eu num sabia nada eu num pensei pra pensar //Leva a mão perto da boca//. Eu num pensei nada. A vida... //Faz gesto com as duas mãos como se estivesse tocando uma coisa para frente//... vai com a barriga... não é?
Imc: [Hum hum. EF: [//Ri
alto//.
SP: //Acena discretamente com a cabeça//.
(Iem ressalta a responsabilidade do grupo na elaboração do livro do CCA, ao fornecer informação e combater o preconceito):
Iem: Devem ter pessoas afásicas mas nem procuram ajuda... enterradas debaixo de preconceitos. Porque desconhecem e vivem na desinformação. EF: //Escreve “louco” em uma folha de papel e mostra para Imc//.
Imc: É... ele sabia... ele falou que louco né //Dirigindo-se a EF//... seu EF escreveu //Falando para o grupo// “louco”... que louco o senhor sabia que não era né //Olhando para MS//.
MS: [É. É. EF: [//Ri//.
MS: [//Acena
vigorosamente com a cabeça e movimenta o corpo para frente, concordando com Imc//. Isso.
Imc: Estava tudo aqui //Tocando com os dedos três vezes o alto da cabeça//. MS: [Isso isso isso.
Imc: Aqui é que estava difícil //Enquanto fala repete por cinco vezes movimento da mão com as pontas dos dedos juntas, da boca para frente em um gesto referente a falar//.
MS: Isso! ISSO mesmo. EF: //Ri alto//.
SP: //Ri//.
Imc: //Toca o alto da cabeça duas vezes com a ponta do dedo indicador e logo em seguida faz sinal de “positivo” com o polegar erguido, mantendo a mão próxima à cabeça//.
MS: //Toca sua cabeça com a mão e abre a mão no ar, concordando com Imc//.
SP: //Toca sua testa com a palma da mão espalmada por quatro vezes, sorrindo//.
Observamos que os sujeitos atuam procurando situar suas orientações em um determinado contexto enunciativo, o que vai requerer ajustes enunciativos constantes. Quando MS enuncia – Louco eu eu sabia! Só! Só! – duas direções enunciativas diferentes são tomadas no grupo. Iem interpreta o enunciado de MS como se ele soubesse o significado de louco – O senhor sabia o que que era “louco”? – mas não o de afasia. Imc, ao reformular tanto o
enunciado de MS quanto a produção escrita de EF – louco – recobre os enunciados de uma nova significação: louco o senhor sabia que não era né, ou seja, MS sabia, a partir de seu sistema de referências e de seu conhecimento sobre loucura, que aquela agonia que ele não sabia referir – a afasia – não era loucura. Os gestos empreendidos por MS e a entonação de seu enunciado – ISSO mesmo – são movimentos que indicam que os sujeitos estão agora em posições enunciativas convergentes. Imc retoma o enunciado de MS através de expressões gestuais que referem a afasia como um problema de linguagem – Aqui é que estava difícil //Apontando a boca// – no qual a cognição, a mente, o pensamento e o psíquico estão preservados – Estava tudo aqui //Apontando a cabeça//.
No próximo fragmento (CCA24), os sujeitos fazem a leitura da transcrição do depoimento de JB em um trecho onde ele produz a expressão interjectiva “tá louco”, bastante freqüente em sua fala. Nesse contexto, EF enuncia louco e o grupo, mobilizado, discute a relação entre afasia e loucura.
LM faz uso de um gesto que envolve a cabeça, a expressão facial e o dedo indicador, que ele gira ao redor da têmpora. Na gestualidade de LM o grupo reconhece o sentido de louco.
CI: Porque a hemiplegia... ninguém sabe o que quer dizer isso. É... Acham que é loucura das pessoas.
Iat: A hemiplegia ou a afasia?
CI: A afasia... as pessoas //Gesto com a mão de “afastar”// ela se afasta... e as pessoa... não fala mais... acha que está louca. Não não não //Com gesto de “afastar”// escuta o que a pessoa tem... pra dizer.
Iat: LM isso aconteceu com você... o que eles estão falando? Das pessoas acharem assim que você estava louco... que você estava... deficiente... que não sabia mais de nada... e se isolaram... se afastaram de você? LM: É. //5’// Até hoje.
Iat: Até hoje?
LM: ... Ainda... tem gente que... Ainda tem gente que... não dá... bola. Iat: Não dá bola?
LM: Ainda tem gente... Porque eles acham que... que eu //Faz gesto de “louco”, girando o dedo indicador ao redor da têmpora//... falo assim ... Iat: //4’// //Repete o mesmo gesto de LM//. Você...
LM: Não bato.... bem... da cabeça. Iat: Vocês ouviram o que o LM falou? EF: //Acena com a cabeça, afirmando//.
Iat: Diz que até hoje né... as pessoas acham que ele não bate bem. Isto a gente tem que //Falando para LM//
CI: [A gente... eu acho que é importante isso daí porque... eu dou risada porque as pessoas acham que eu não bato bem da cabeça. LM: //Ri//.