4.1 ROTINA DE AFAZERES DOMÉSTICOS
4.1.1 Afazeres domésticos e divisão sexual do trabalho
Ao analisar a rotina dos (as) entrevistos (as) da pesquisa buscou-se compreender se a execução dos afazeres domésticos realizada por eles (as) seguiria a desigual divisão sexual do trabalho.
Uma das questões que chamou atenção foi como a divisão das despesas da casa é realizada pelos (as) entrevistados (as). Ela contraria a noção de que o homem seria ―o provedor‖ e qualquer dinheiro que viesse da mulher, ainda que majoritário na casa seria entendido como um ―mero suplemento a renda masculina‖ (Fonseca, 2006:517). Nos dados obtidos, não houve constrangimento por parte dos homens entrevistados em afirmarem que dividem despesas e inclusive alguns detalharam como ela é realizada. Notou-se que a divisão dos gastos é organizada de uma maneira que quem ganha mais contribui mais para as necessidades da casa. Um entrevistado (Homem 4, 29 anos) afirmou, que no caso deles, é feita através de uma média ponderada, onde o que cada um contribui de acordo com o que ganha.
Outra afirmação que remete também a mudança na organização das relações entre os casais é que o motivo alegado que leva o homem ou a mulher a realizar em algum momento mais afazeres domésticos é a maior disponibilidade de tempo e não o sexo da pessoa. A diferença no uso do tempo nos afazeres domésticos é de tamanha relevância que será analisado em um eixo próprio a seguir.
Esse discurso de que o (a) parceiro (a) deveria realizar mais afazeres domésticos por ter mais disponibilidade de tempo, reforça-se quando se observa a insatisfação de entrevistados (as) quanto ao realizar muitas atividades mesmo que o (a) parceiro (a) tivesse mais disponibilidade.Um homem explicitou, por exemplo, que sua mulher por não trabalhar fora de casa deveria fazer mais afazeres domésticos do que realizava. Assim, adiciona-se a essa lógica do maior tempo desimpedido a visão de que o trabalho executado no âmbito doméstico é entendido como um não trabalho, uma quase anulação das atividades executadas. Verifica-se também a não consideração dos cuidados promovidos a um filho pequeno, constatado na seguinte fala:
“Eu deixo ele na creche de manhã. Ela pega ele é à tarde, no início da tarde. Ela tem uma manhã livre pra ela, mas ela dificilmente usa essa manhã pra fazer alguma atividade, assim. Normalmente eu que limpo a casa. Eu que lavo o banheiro. Eu que lavo louça. Ela não faz essas coisas, normalmente eu que faço” (Homem 3, 33 anos).
O mesmo homem declarou que: ―Ela costuma fazer comida, assim, normalmente, ela faz almoço, normalmente comida ela tem feito”, bem como ―Ela fica mais na parte de cuidar do meu filho, porque eu fico trabalhando o dia inteiro (Homem 3, 33 anos).
Contrariando o discurso da disponibilidade maior do tempo, durante as entrevistas também surgiu a ideia de que ―serviços domésticos são de mulheres‖, ou seja, a percepção de quem deve executar os afazeres domésticos e manter a casa organizada são as mulheres. Isso aparece tanto nas falas diretas como ―é minha obrigação, eu acostumei assim‖ (Mulher 2, 56 anos), como quando a mulher expõe que sua casa não é devidamente organizada por ela ―não ter conseguido estabelecer um padrão de organização que fosse mantido‖ (Mulher 4, 42 anos).
Desse modo, ainda que se identifiquem mudanças, visões mais conservadoras não podem ser entendidas como totalmente superadas entre os entrevistados (as). Observou-se constantes discursos tanto de homens como mulheres entrevistados com tom progressista em relação à divisão dos afazeres domésticos, como, por exemplo, de que as tarefas são devidamente divididas e haja inclusive falas na perspectiva da família como ―uma equipe, que é todo mundo junto‖ (Mulher 1, 48 anos). Quando analisa-se a execução, percebe-se que há envolvimento dos homens com essas atividades, chegando em alguns casos inclusive ser maior do que das mulheres. Entretanto, também constata-se que a lógica desigual existente na divisão sexual do trabalho, onde a mulher desempenha mais afazeres domésticos, ainda
aparece como uma realidade das pessoas com que a pesquisa foi realizada.
Assim, no grupo estudado, havia homens que efetivamente dividiam e até realizavam mais tarefas que suas companheiras por ter mais disponibilidade de tempo, conforme pode ser observado na seguinte fala:
“Então ela é professora do Sesi. Ela é professora de um curso para crianças com dificuldade de aprendizado. Ela faz o doutorado e ela ainda tem atividades esporádicas particular. Então ela realmente tem uma carga horária mais puxada que a minha. Então eu acabo puxando mais tarefas para mim do que pra ela” (Homem 4, 29 anos).
No entanto, a lógica desigual da maior responsabilidade dos afazeres domésticos ainda recair principalmente sobre a mulher igualmente manifesta-se, conforme pode ser resumido na seguinte fala: O meu esposo, ele também divide tarefas comigo, mas querendo ou não a maior parte acaba recaindo sobre mim mesma (Mulher 5, 28 anos).
Esses dados estão em consonância com a estatística do lento, porém progressivo crescimento do engajamento dos homens nessas atividades. De acordo com o IBGE (2017), o percentual de realização de afazeres domésticos deles chega a 71,9%, mas que ainda é 17,9%
menor do que as mulheres (IBGE, 2017).
Percebe-se essa questão também quando um entrevistado declara que ao morar sozinho realizava todos os afazeres domésticos, pois não tinha quem fizesse e confessou que após o casamento relaxou um pouco: ―Não é que eu tenha visão machista, não é que realmente ela...como ela sempre trabalhou dentro de casa, sempre fez tudo, eu acho que eu relaxei nesse ponto” (Homem 1, 50 anos).
No caso das entrevistas com as mulheres comprova-se a maior participação das mesmas nos afazeres domésticos em uma situação extrema que em mesmo no caso de doença, a mulher permanecia como responsável por executar esse tipo de atividade. A justificativa dada para ter que agir dessa forma é que ela o acostumou assim, como expressa nesse depoimento:
Ninguém. Eu tenho que levantar e fazer. Eu já falei lá em casa. Eu não tenho direito, se
“coisar”, eu vou lá embaixo, compro o meu remédio, subo (Mulher 2, 56 anos).
Essa desigualdade entre homens e mulheres apareceu também de forma menos direta no depoimento a seguir: ―embora assim o forte mesmo principalmente a coisa da limpeza, da casa em si é minha mesmo e cozinha também‖ (Mulher 4, 42 anos). A entrevistada justificou que acaba fazendo a maioria das tarefas por classificar-se como ―mãe galinha, aquela que bota todo mundo embaixo da asa‖ e entender que esse perfil faz com que as pessoas dêem
uma ―relaxadinha‖. Além disso, a mesma entrevistada, relata que a satisfação do seu esforço estaria em ver a casa limpa”, em “ver o seu trabalho transformado em algo que de repente não vai te trazer um grande status, mas vai se reverter no conforto pra você mesmo” e “pra ficar melhor assim pra todo mundo”.
Diante do exposto, nota-se que as mulheres tendem a justificar a não colaboração dos outros membros através de uma auto responsabilização. Isso poderia ser resumido na fala a seguir em resposta ao questionamento sobre se haveria algo que gostaria de mudar na rotina de afazeres domésticos:
“Você teve um maior trabalhão e às vezes eu acho que ou por falta de esforço de manterem arrumado, ou por outras coisas que eu não sei (...) Talvez se eu encontrasse uma forma dessas arrumações durassem mais tempo pra me poupar um pouquinho”
(Mulher 4, 42 anos).
Além disso, os afazeres domésticos são compreendidos como atividades que não são devidamente valorizadas e ―um serviço que não rende‖ (Mulher 4, 42 anos), ou seja, que tem uma frequência bastante elevada. A preocupação de uma entrevistada com isso, especialmente em manter ―a casa limpa‖, chegou a ser tamanha que abria mão de momentos de lazer para realizar limpeza mais detalhada aos finais de semana
“Eu também deixava de sair, deixava de fazer algumas coisas, até com meu marido mesmo, para poder organizar o que já estava organizado, por que o que é o que a organização né” (Mulher 1, 48 anos).
Em um dos casos citados, o desconforto era proveniente da mãe da entrevistada que nem residia na casa, mas que exercia influência na forma de proceder em relação à limpeza de sua residência. Nessa situação, segundo a entrevistada, a mudança foi consequência de um processo de reflexões que durante anos a levou ao seguinte entendimento: ―Ninguém me manda. Ninguém me cobra. Eu faço a hora que eu quiser‖ (Mulher 1, 48 anos)
Segundo Carloto (2011:202), ―a sociedade estabelece uma distribuição de responsabilidades que são alheias as vontades das pessoas, sendo que os critérios desta distribuição são sexistas, classistas e racistas‖.
Nessa sociedade da qual se fala, que é a industrial/ ocidental, é possível ―optar pela manutenção dos ―valores estabelecidos‖ ou adotar uma política de ação, de participação contra a discriminação, com uma consciência crítica à procura de sua liberdade e libertação‖
(Porto, 2002:302).
Nota-se que esse é um processo complexo que no caso da entrevistada, por exemplo, a opção foi pela mudança do que estava estabelecido em sua vida que levou anos.
A execução dos afazeres domésticos pressupõe que alguma pessoa que resida na mesma habitação realize a gestão. Antonio Carlos Sousa e Lima (2002:16) desenvolve um debate sobre a administração pública em relação à população indígena, mas que é possível remeter suas reflexões para o âmbito doméstico, pois nessa esfera igualmente há muitas ―nuances no exercício do poder‖. De acordo com o autor, a administração tem um papel ―articulador/
normatizador/ codificador entre costumes heterogêneos, constituindo moralidades‖. Ela ocorre mediante o processo de gestar, como ―a função constitutiva e pedagógica, de
―maternagem‖, do ensinar a ―ser‖ que é exercida paralelamente ao processo de gerir, que refere-se ao ―controle cotidiano de espaços, mantenedor dos espaços em seus nichos‖. Dessa forma, a gestão doméstica tanto cumpre o papel, por exemplo, em relação aos filhos, de estímulo ao crescimento, ao ―ser‖, como também exerce controle moralizador de suas vidas.
Há que se ressaltar que a gestão não pode ser entendida como uma atividade de fácil execução, pois conforme descrito por Viegas, Pinto e Penha (2007:51), ela é composta por um
processo sistemático e permanente envolvendo o planejamento da ação, a implantação da ação, a manutenção da ação, os registros das atividades envolvidas, o registro dos resultados previstos e alcançados, a documentação das decisões e atividades decorrentes, a disseminação de informações de relevante interesse, a monitoração dos processos e atividades, a monitoração do desempenho organizacional interno e externo, o controle dos processos e dos resultados, a avaliação crítica de todos os elementos da gestão, e o aprimoramento contínuo dos mesmos.
Assim, nota-se que a gestão envolve diversas atividades não podendo ser entendida como uma ação simples. Na pesquisa, além das mulheres serem as principais executoras dessas tarefas, elas, em sua maioria, também acumulam a gestão como sendo de sua atribuição. Isso está em consonância ao pensamento de Hirata e Kergoat (2007) quando ressaltam que embora em alguns casos os afazeres domésticos ocorram de forma partilhada entre o casal, a gestão dos mesmos permanece sendo realizada pelas mulheres, conforme anteriormente debatido.
Uma das entrevistadas (Mulher 3, 56 anos), declarou que tem ―muitas coisas que podem facilitar a vida da mulher‖ na execução dos afazeres domésticos. Ela deu como exemplo a possibilidade de já poder comprar os legumes já cortados. A partir dessa fala, cabe refletir sobre outros mecanismos que podem ser destacados como facilitadores para os afazeres domésticos.
Historicamente o surgimento de eletrodomésticos vem facilitando a execução dos afazeres
domésticos poupando trabalho e tempo necessário para a realização (OIT, 2011). Na pesquisa, eles são citados pelos (as) entrevistados (as) como um mecanismo que possibilita exercer múltiplas funções ao mesmo tempo. A máquina de lavar roupa, por exemplo, é citada em alguns momentos de forma indireta como uma facilitadora no ato de lavar a roupa que é desempenhado muitas vezes simultaneamente a ação de cozinhar.
Vale ressaltar que esses equipamentos têm um recorte de camada social. Isso porque, o acesso ainda é relativamente baixo a esse tipo de bem, especialmente nos domicílios afetados pela pobreza (OIT, 2011). Segundo dados do IBGE (2016), está ocorrendo um aumento progressivo do número de famílias que possuem esses bens duráveis. A máquina de lavar, por exemplo, está presente em 61,1% dos domicílios. No entanto, permanece bastante ausente nas regiões Norte e Nordeste, onde essa presença é em apenas 39,5% e 30,7% das residências, respectivamente.
Um dos entrevistados (Homem 5, 48 anos), também destacou como facilitador da execução dos afazeres domésticos a internet. Informações sobre como fazer um pequeno reparo, atividade que antes seria necessário contratar uma pessoa que tivesse esse conhecimento, um profissional ou que recorrer a livros e revistas, está disponível nas redes sociais. Atualmente com a internet isso ocorre de modo mais rápido.
4.1.1.1 Afazeres domésticos e trabalhadoras domésticas
O cansaço é um dos itens mais citados pelas mulheres em suas reflexões sobre os afazeres domésticos, mas que também aparece ao longo das entrevistas com os homens. A contratação de uma ―empregada doméstica‖, surgiu com frequência como uma das soluções possíveis para esse quadro.
Diferente do que ressaltam alguns estudos, como o realizado pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) (Pinheiro et al, 2016:14), que afirma que os integrantes de camadas médias delegam a realização de todas as tarefas domésticas de seus lares à empregadas domésticas, na pesquisa realizada para essa dissertação apenas uma entrevistada afirmou ter uma empregada doméstica com a devida formalização do trabalho.
Uma primeira observação a ser feita sobre o trabalho desempenhado pelas (os) empregadas domésticas é que mesmo que a execução dos afazeres domésticos seja então delegada para um (a) profissional, ela ainda assim permanece sendo realizada por uma
mulher. Afirma-se isso, pois de acordo com a mesmo estudo realizado pelo MTPS e IPEA (2016), no Brasil a maioria dessas (es) trabalhadoras (es) são mulheres, especialmente mulheres negras, que totaliza 5,9 milhões de brasileiras.
Como repercussão da luta das empregadas domésticas, há cada vez mais uma valorização dessa função, que com a PEC das Domésticas (Brasil, 2015) o contrato do trabalho doméstico passou a ser devidamente regularizado.
Duas mulheres entrevistadas mencionaram essa regularização como algo positivo e relevante para essas trabalhadoras. No entanto, apontaram que essa mudança veio a dificultar a contratação de uma empregada doméstica em função dos custos que passaram a onerar muito o orçamento familiar. Prova disso é que apenas uma entrevistada mantinha uma trabalhadora doméstica com os direitos devidamente garantidos, conforme mencionado.
Desse modo, nota-se que a alternativa utilizada pelos (as) participantes da pesquisa que não contratam essa forma de serviço é ou efetivamente executar os afazeres domésticos, ou contratar diaristas, para, por exemplo, a realização da faxina da casa e passar a roupa.
A contratação desse tipo de trabalhadora por um curto período tem como alegação principal a economia para poder investir esse valor em viagens, bens, passeios. Ela segue a tendência de precarização do trabalho das empregadas domésticas sinalizada no estudo do MTPS e IPEA (2016) de gradativa redução da formalização do trabalho doméstico remunerado.
Sobre a reclamação do custo elevado, a duração do trabalho doméstico está regulamentada em oito horas diárias e 44 (quarenta e quatro) semanais (Brasil, 2015). Observa-se que na realidade brasileira o piso salarial nacional para essa categoria profissional é o mesmo do salário mínimo R$937,00, onde não há piso regional. Assim, essas (es) trabalhadoras ganham em média R$4,26 por hora havendo diferença nos Estados do Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo onde o valor é definido por legislação própria (Moretti, 2017), mas que essa diferença não chega a ser tão elevada. No Rio de Janeiro, por exemplo, esse valor é de R$ 1.136, 53 (Rio de Janeiro, 2017). Desse modo, nota-se que essa é uma profissão com ―uma jornada de trabalho extensivo, intensivo e intermitente gerada na esfera do trabalho reprodutivo‖ (Ávila, 2009:321) que ainda é desvalorizada economicamente no Brasil.