AFETOS E CIBERCARTOGRAFIAS EM FLUXO

No documento Cartografia de afetos e cibercartografia em fluxos (páginas 78-82)

4 CIBERCARTOGRAFIAS EM FLUXO: UMA POÉTICA NO ESPAÇO

4.2 AFETOS E CIBERCARTOGRAFIAS EM FLUXO

O afeto ocorre quando existe o encontro com a percepção do outro; na formação de outro espaço particular é que surgem os afetos, e a partir dos quais são possíveis ações. Se em um dado espaço geográfico, a percepção que um corpo forma de um lugar é a

referência a partir da qual se estabelecem padrões espaciais e temporais determinantes das ações futuras neste espaço, na cibercartografia não aconteceria de maneira diferente. Afinal, entende-se nesse projeto que a cibercartografia em fluxo é o próprio agenciamento no qual não há distinção entre o corpo e a tecnologia. A cidade, assim, seria constituída de uma sobreposição múltipla, que articula a forma do espaço construído ou imaginado, e a realidade; mistura a experiência individualizada e a memória coletiva, a sensação encarnada e a mediação digital. Os afetos (affectios) são um efeito da circulação dessa mistura entre os corpos, tanto do ciberespaço quanto do espaço geográfico que criam ideias, valores e outras intensidades, capazes de provocar ações. Estas são reconhecidas também nos comentários dos usuários, “tagueamentos”, upload e download de dados geográficos. Essas múltiplas realidades fazem parte do mesmo plano e através da tecnologia são legíveis no espaço geográfico.

A cibercartografia em fluxo, por meio da tecnologia, gera dados sobre as pessoas e, como um agenciamento, estes dados deixam de pertencer às pessoas que os geraram. Muitas vezes as relações ou agenciamentos e as respostas aos dados são vistas como imprecisas, amorfas, porque não pertencem mais a um grupo apenas, de modo que os afetos circulam nos agenciamentos cibercartográficos manipulando objetos imateriais como códigos, arquivos de computador e representações simbólicas do espaço. Portanto, os afetos são também uma forma de perceber os vestígios dessas interações. O afeto, para Espinosa, supera as respostas emocionais, e na verdade está presente na força de um corpo e no impacto relacionado a esta força. Baseado nisso, a pesquisa compreende que as concepções de afeto não se restringem ao corpo humano, mas também podem estar presentes nos agenciamentos cibercartográficos em fluxo, pois estes são capazes de modificar as capacidades corporais ao expressarem novas configurações entre o corpo, tecnologia e espaço. Através dos sentidos pode-se experimentar o espaço e se mover em torno dele, avaliando-o, ou seja, afetando e sendo afetado por ele de várias maneiras, transformando o cotidiano em uma qualidade de movimento contínuo de relações.

De acordo com o conceito de agenciamento concebido por Deleuze, o afeto pressupõe o impacto no cotidiano, em pequena escala, que é identificada nesse projeto como as ações dos usuários amadores que compartilham coletivamente suas percepções do espaço e fazem os agenciamentos cibercartográficos ficarem abertos a outros afetos e intervenções. Afetos (affectios), nessa concepção, provocam mudanças, são potências que permitem que a ações dos usuários sejam ilimitadas através de práticas artísticas. As práticas artísticas que envolvem a produção do espaço por meio da cibercartografia

produziriam aquilo que Espinosa denominou por afetos, ou seja, seriam um fato que muda a percepção do espaço, quebrando as formas habituais de percepção do espaço geográfico.

Para Espinosa, afetos alegres são aqueles que aumentam a potência de um corpo agir, enquanto os afetos tristes são aqueles que paralisam a ação e que diminuem a potência do corpo agir. Assim, o afeto que provoca um encontro alegre em uma cibercartografia seria aquele que dirige o corpo para a consciência individual dentro do agenciamento espacial. Este se aproxima dos propósitos da arte nas propostas dadaístas e situacionistas, porque tais movimentos procuraram não moldar a ação do corpo no espaço, mas utilizar as informações e dados para uma análise individual do espaço. No caso desse projeto, pode ser entender as mídias locativas além do registro dos dados quantitativos do corpo no espaço. Nesse tipo de mídia, pode-se adaptar a tecnologia para que possam ser incluídas as percepções pessoais que surgem na experiência com o espaço. Relatos sobre a memória, processos psicológicos são armazenados como dados quantitativos e acabam por aumentam a flexibilidade de resposta de um sistema de dados, inserindo neles uma parcela de imprevisibilidade, mas não uma emergência no cotidiano. As ações do corpo no espaço híbrido são espalhadas rapidamente na rede, uma vez que o afetar e ser afetado podem ser compreendidos como presentes nas tecnologias de comunicação e mídia atuais. Desse modo, a percepção que se tem do espaço é, diretamente, influenciada pela manipulação e apresentação de dados gerados pelos usuários.

Os afetos tristes mediados por uma cibercartografia seriam aqueles que, a partir dos dados sobre o espaço, viriam a reforçar as affordances25 já previstas pelos aplicativos na produção de agenciamentos nos espaços híbridos. Nestas, a cibercartografia acabaria por modelizar a ação do corpo no espaço, a partir de uma análise dos dados sobre as percepções espaciais desses corpos, com vistas a reforçar o controle do corpo no espaço. O dispositivo móvel, por meio de diversos aplicativos sempre vai provocar ações; contudo nos encontros tristes, este modelizaria as ações, tornando-as padronizadas, previsíveis, não superando os limites previstos por aqueles que deteriam as informações de dados gerados pelos usuários na produção do espaço. Os affordances tecnológicas ao criarem encontros tristes seriam limitadas ativando sempre as interações que estão disponíveis, as affordances mais fortes, visíveis e evidentes. Numa caminhada pelo espaço, neste caso, o dispositivo

25 Affordance foi um termo cunhado pelo psicólogo JJ Gibson (1977) e se refere as propriedades ativadas entre um ator e o mundo, ou seja as affordances são um agenciamento. No campo da tecnologia as affordances se referem a qualidade um objeto ou software ser utilizado da maneira que foi projetado.

móvel associado à tecnologia GPS vai reforçar as maneiras de atuação do corpo no espaço diante das opções que lhe são apresentadas, ou mesmo poderia neutralizar os afetos ( conatus) e, portanto, os modos de uso do espaço. E neste sentido, os agenciamentos mostram as possibilidades de ação das pessoas no espaço, mas não as incentivam a modificá-lo por meio do uso da cibercartografia. As interfaces criadas para a produção do espaço atendem as demandas da nova sociedade em que o material, o textual e o visual se unem, pegando emprestado das práticas artísticas a estética da relacionalidade, a fim de que bens e serviços sejam consumidos sem serem percebidos como uma produção capitalista. As práticas cotidianas são registradas pela deambulação no ciberespaço, e podem ser percebidas através de rastros deixadas pelos usuários na sua interação com o espaço geográfico, com uso de tecnologia de geocodificação. As tecnologias digitais permitem que o movimento do corpo seja capturado, armazenado de modo que este seja transformado em informação numérica, na qual todas as informações adquirem o mesmo valor, pois são transformadas em dados. Com os avanços tecnológicos, todo o movimento do corpo no espaço, e também vários aspectos de sua fisicalidade, são traduzidos em código numérico por sistemas, o que pode levar a pensar que a precisão na representação deve ser tomada como uma verdade, pois substituiria a realidade, sendo seu correlato fiel. Nesses aplicativos, os agenciamentos produzidos estão focados em uma correspondência entre o espaço e os dados gerados, e a comunicação entre eles. Refroçando as affordances dos softwares através dos dados, as informações geoespaciais são trabalhadas dentro de um processo de comunicação, na qual a cartografia se refere a um processo de tradução entre emissores e receptores. Desta maneira a produção do espaço muitas vezes reforça a mercantilização da representação do espaço. Isso não significa que se deixe de mostrar as redes de relações de que o corpo participa, o que se produz é uma mercantilização de toda a atividade humana. Neste caso a interação entre o produtor do espaço e a tecnologia muitas vezes parece ser uma novidade, mas já aparece de maneira a não permitir um afeto (affectio) que aumente a capacidade de ação dos corpos sobre o espaço.

Essas práticas se afastariam de uma produção do espaço relacional, e são aqui interpretadas como um reforço da utilização da cibercartografia como espetacularização26.

Como exemplo deste tipo de prática podem ser citadas atividades nas quais os dados

26 A espetacularização urbana aqui é discutida no ciberespaço, na medida em que traduz um modo de agenciamento. A espetacularização trata de um agenciamento primário, tendo como seu correlato o espectador do espaço, aquele que está inserido no espaço. Em direção contrária a esta posição, Debord (2004) propõe uma forma situacionista de experimentar as cidades, agenciamento relacional, no qual os espectadores passariam a ser os construtores dos seus próprios espaços.

pessoais geográficos são apropriados por uma organização privada que incluem modos mais tradicionais de utilização da tecnologia cibercartográfico, e que reduziriam a potência de agir do corpo no espaço. Para Taylor (2007) as mídias locativas auxiliam na solução de desafios relacionados ao aumento da participação do usuário na construção das cibercartografias, ao adicionarem “um componente interativo e dinâmico” às práticas de mapeamento Pulsifer, Caquard & Taylor (2007, p. 196). Também são relevantes ao estudo dos agenciamentos que utilizam a tecnologia de forma objetiva para a produção das cibercartografias, pois aumentam a inserção de perspectivas pessoais sobre o espaço na criação de mapas temáticos, úteis para acrescentar informações qualitativas sobre o espaço geográfico. Entretanto verifica-se que o âmbito de discussão da cibercartografia científica se destina à prática de mapeamento multimodal, o qual compreende que as práticas artísticas somem versões de mapeamento à cartografia tradicional. Entretanto, dentro desse campo de conhecimento não se exploram as potências afetivas (affectios) da cibercartografia. O uso afetivo permite novas nuances quando se criam apropriações específicas sobre o mapeamento cibercartográfico, abre espaço para a construção de um espaço próprio, abrindo esses agenciamentos para aumentar a capacidade do corpo de agir.

Neste ponto de vista, os mesmos agenciamentos formados pelo corpo e os dispositivos móveis compondo cibercartografias científicas parecem reagir de forma diferente quando são utilizados a partir de práticas artísticas. Por isso, apesar de úteis, as abordagens científicas que se utilizam de mídias locativas para a produção de cibercartografias não são suficientes para se analisar a prática artística em si. E nem como ela se serve dos dados qualitativos e possiblidades tecnológicas para construir os agenciamentos, próximo ao que Bourriaud (2008) chama de objeto relacional. Na concepção dessa pesquisa as práticas artísticas, ao se utilizarem da tecnologia, seriam capazes de provocar encontros alegres. Isso pode ser afirmado uma vez que a produção artística não é necessariamente orientada para a produção de ideologias autoritárias; são criações do desejo e não reforçam a modelização do corpo no espaço. As cibercartografias nas quais as práticas artísticas participam do agenciamento podem fazer com que o usuário se conscientize que a ação do corpo no espaço significa, e o que pode ser criado com ela.

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