3. A contratransferência em sua dimensão clínica
3.5 Afetos contratransferenciais no caso Dora
Dora iniciou seu tratamento psicanalítico com Freud em outubro de 1900, abandonando o trabalho cerca de 11 semanas depois. Em 1902 Dora retorna ao consultório pedindo para reiniciar o tratamento e recebe a negativa de Freud (Gay, 2015). Em uma passagem no posfácio do caso Dora, Freud (2018/1905) confidencia, “Numa data não inteiramente irrelevante, o 1º de abril (...), apresentou-se em meu consultório, a fim de concluir sua história e novamente me pedir auxílio; mas bastou-me uma olhada em seu rosto para notar que esse pedido não era sério” (p. 318) e continua “Não sei que tipo de ajuda ela queria de mim, mas prometi perdoá-la por ter me privado da satisfação de livrá-la muito mais profundamente dos seus males” (Freud, 2018/1905, p. 319). Por essas duas passagens é possível concluir que Freud encontrava-se mais envolvido afetivamente com sua paciente do que ele nos deu a entender. Sabemos que é impossível tirar conclusões como as retiradas por Freud (de que Dora não levava a sério o pedido de ajuda) apenas a partir de uma expressão facial da paciente.
O próprio Freud admite isso na segunda sentença, afirmando que não sabia o tipo de auxílio que a jovem desejava. Destarte, podemos inferir que a negativa de Freud à Dora tem uma ancoragem inconsciente, que não estava clara ao analista e que, portanto, reage vingativamente, recusando-se a admitir novamente a paciente em tratamento. Nos parece uma posição bastante semelhante à do Sr. K. que, ao receber a negativa da jovem sobre sua proposta amorosa, acusa a própria jovem de ter imaginado a cena pelas leituras que fazia.
O abandono de Dora ao tratamento provocou em Freud alguns afetos que guardam íntima relação com a trama psíquica da qual derivam. Nesse sentido, elencamos três eixos para sustentar nossa tese de que a contratransferência é, na verdade, uma resposta à transferência, ou como propomos, uma relação transferencial-contratransferencial, ou seja, transferência e contratransferência são processos imbricados e indissociáveis.
Os afetos do analista que sobressaíram a nossa releitura de Dora foram:
Impotência, Insatisfação e Decepção/raiva. Tais afetos, em nossa leitura, somente se sustentam a partir do eixo central da relação transferencial-contratransferencial, o qual compreendemos pertencer à corrente erótica do
amor (contra)transferencial, a partir da demanda de amor da jovem analisanda ao seu analista.
Os efeitos dessa afetação proporcionada pela experiência com Dora foram decisivos. Na opinião de Gay (2015), é ingênuo acreditar que Freud se apaixonou por Dora, segundo o autor, os principais sentimentos de Freud em relação à jovem eram hostis. “Além do puro interesse em Dora como uma histérica fascinante, ele demonstrou certa impaciência, irritação e, no final, uma indisfarçada decepção” (Gay, 2015, p. 264).
O lugar transferencial ocupado pelo analista nesse caso clínico, como aponta Freud (2018/1905), estava fortemente vinculado a corrente afetiva masculina, na qual o analista passou a ocupar na fantasia inconsciente da jovem o mesmo lugar que outrora fora do pai e que posteriormente deslocou-se para o Sr. K. Conforme defendemos no subcapítulo 3.3 e 3.4, temos elementos para inferir que Freud estava (contra)transferencialmente identificado ao pai de Dora e ao Sr. K., ou seja, Dora lhe designou o lugar paterno em transferência e Freud, inconscientemente, o ocupou e atuou o engano transferencial, o que contribuiu para o desfecho final de uma interrupção prematura do tratamento.
Assim, os afetos freudianos que elencamos como representativos da relação transferencial-contratransferencial, quais sejam, impotência;
insatisfação e decepção/raiva, são compatíveis com a transferência erótica e seus desdobramentos.
Comecemos pela decepção/raiva. Certamente esses são afetos contratransferenciais. Em uma relação estritamente profissional, na qual não haja nenhum tipo de envolvimento afetivo entre as partes, tais afetos não se justificam. Para sentir-se decepcionado é necessário ter uma expectativa sobre algo, para que então, em um segundo momento, tais expectativas sejam frustradas, causando a sensação de decepção. As expectativas de Freud para Dora ele evidencia ao longo da descrição do caso, seu desejo era finalizar a análise de Dora e comprovar sua teoria das neuroses, este último ponto será evidenciado no próximo subitem, em que trataremos o interesse prévio de Freud na publicação do caso. Já o primeiro ponto, podemos encontrar na seguinte passagem:
Eu sabia que ela não retornaria. Foi um inconfundível ato de vingança que ela, de forma tão inesperada, quando minhas expectativas de um término feliz estavam no auge, interrompesse o tratamento e destruísse essas esperanças (Freud, 2018/1905, p. 304, grifos nossos).
O que justifica o sentimento de decepção nesse caso específico, em nossa opinião, é o enredamento de Freud a partir da relação transferencial-contratransferencial, na qual a corrente afetiva é predominantemente erótica.
Dora seduz seu analista, como fizera com seu pai e posteriormente com o Sr.
K., para na sequência, abandoná-lo. Tal movimentação de Dora gerou em Freud um afeto compatível, a decepção. A decepção e seus derivativos, como a raiva, embora tenham sido afetos que promoveram resistência ao avanço da análise, pois envolvido em seus próprios afetos, Freud negou posteriormente a continuidade do tratamento de Dora, ao mesmo tempo, revelava a natureza da relação transferencial amorosa/erótica, bem como da posição subjetiva da paciente e o lugar que essa designa aos seus objetos amorosos.
Os afetos de insatisfação e impotência são provenientes da natureza erótica do vínculo transferencial-contratransferencial que se estabeleceu nesse tratamento específico. Os próprios termos indicam sua origem sexual:
(in)satisfação e (im)potência. No caso da impotência encontramos a seguinte passagem no texto freudiano: “Como poderia a paciente se vingar melhor do que demonstrando em sua própria pessoa a impotência e incapacidade do médico?”
(Freud, 2018/1905, p. 317). A impotência tem um sentido sobredeterminado no caso Dora, deixar um homem impotente tinha uma significação que podemos incluir na trama edípica da paciente. O pai de Dora era, supostamente, impotente sexualmente. Transferencialmente, Dora designou a Freud o lugar paterno em sua fantasia, como já defendido no subitem 3.4. O afeto contratransferencial de sentir-se impotente, portanto, é compatível com o papel transferencial que Dora destinou a seu analista e coincide com uma característica (real ou fantasiada) de um dos objetos de amor da jovem.
A insatisfação pode ser considerada um afeto originado a partir da sensação de impotência. Ora, se um homem é sexualmente impotente, sua satisfação se não é nula, é no mínimo, diminuída. Portanto, a insatisfação deriva da impotência, sendo outro afeto contratransferencial compatível com a trama psíquica da qual se origina. A insatisfação, tal qual a impotência, reforça a
natureza erótica da relação transferencial-contratransferencial que se estabeleceu no caso em questão.
A insatisfação é, igualmente, uma característica notável na própria paciente. O desfecho da primeira ligação afetiva heterossexual de Dora (com o pai) culmina na não realização das metas sexuais da pulsão, ou seja, o desfecho dessa primeira relação é a insatisfação da libido. Tal desfecho deixa uma marca que se repetirá nas demais relações afetivas e é característica da neurose.
Assim, o afeto da insatisfação que toma Freud no atendimento de Dora, tem origem dupla: é representativo tanto da dinâmica psíquica da própria paciente, como da resposta afetiva dos objetos de amor de Dora, advinda a partir das demandas afetivas que esta lhes endereça.
Se considerarmos os afetos contratransferenciais levantados no presente subcapítulo, quais sejam, impotência, insatisfação e decepção/raiva, verificamos que a resposta final de Freud à Dora, mantem intacta a trama subjetiva sintomática da paciente. Freud permanece impotente frente à Dora, uma vez que não dá continuidade ao tratamento e assim, mantém os sintomas atuantes. Por não concluir a análise, Freud e Dora permanecem insatisfeitos, como Freud mesmo aponta, a cura da histeria de Dora seria motivo de satisfação, logo, se ela não é curada, Freud fica insatisfeito e mantém Dora igualmente insatisfeita.
E por fim, Freud escoa sua decepção e raiva ao se negar readmitir a jovem em tratamento, vingando-se de Dora, da mesma forma que se vingou o Sr. K., ao negar a realidade da denúncia de assédio na cena do lago, imputando à imaginação de Dora tal fantasia, deixando a jovem desacreditada. Ao agir desse modo, Freud confirma a máxima de Dora que os homens não são confiáveis.