HISTÓRICO
8.2. Linha do Desenvolvimento do Pensamento e da Formação de Conceitos
8.2.4. Afetos e Emoções – Sentimentos Históricos
No processo de desenvolvimento ontogenético (transformações sofridas pelo indivíduo em todas as fases de sua evolução), sob a influência do meio, Vigotski afirma que nossos sentimentos mantêm certa relação com a forma de pensar, junto ao sistema de conceitos. “Não sentimos simplesmente: o sentimento é percebido por nós sob a forma de ciúme, cólera, ultraje, ofensa. Se dizemos que desprezamos alguém, o fato de nomear os sentimentos faz com que estes variem, já que mantêm certa relação com os nossos pensamentos” (VIGOTSKI, 1930/2004a, p. 126).
No nível afetivo, o desdobramento das emoções é outra dimensão importante, porque se desdobram novas funções entre as conexões dos processos de desenvolvimento das formas superiores de conduta do adolescente. Para Vigotski, nunca experimentamos os ciúmes de maneira pura, pois, quando sentimos, estamos conscientes, também, de outras conexões conceituais, porque “o desenvolvimento histórico dos afetos ou das emoções consiste, fundamentalmente, em que se alteram as conexões iniciais em que se produziram e surgem uma nova ordem e novas conexões” (VIGOTSKI, 1930/2004a, p. 127).
Os afetos e emoções configuram as novas conexões no desenvolvimento consciente dos adolescentes, atuando num complicado sistema com os conceitos. Quando o adolescente pensa coisas, que estão fora dele, não altera nada nelas, ao passo que o fato de pensar nos afetos, situando-os em outras relações com seu intelecto e outras instâncias, altera muito sua vida psíquica. Estes sentimentos mantêm um papel de organizador interno do comportamento. Para Vigotski,
toda emoção é um chamamento à ação ou uma renúncia a ela. Nenhum sentimento pode permanecer indiferente e infrutífero no comportamento. As emoções são este organizador interno das nossas reações, que retesam, excitam, estimulam ou inibem estas ou aquelas reações (VIGOTSKI, 1930/2004b, p. 139).
Ele demonstra em suas experiências que cada objeto exerce uma influência sobre a criança e o adolescente, emanando um afeto de atração ou repulsão deles. Por exemplo: o objeto atrai a criança a tocá-lo, a tomá-lo em suas mãos, a manejá-lo, bem como o contrário disto, pode impulsioná-la a evitar qualquer contato.
O objeto adquire aquilo que Lewin denomina como Aufforderungscharakter – certo caráter imperativo. A todo objeto lhe é próprio algum afeto, que é tão estimulador, que adquire para a criança o caráter de afeto “coercitivo”; devido à criança se encontrar no mundo dos objetos e das coisas como em um campo de forças onde sobre ela, a todo instante, atuam objetos que lhe atraem e repelem. [...] cada objeto em uma situação dada tem para a criança uma força afetiva atraente ou repelente, tem um valor afetivo, e, em concordância com isto, a incita à ação, ou seja, a orienta (VYGOTSKI, 1932-1934/1996b, p. 342).
Na perspectiva vigotskiana, os sentimentos, que são históricos, se alteram em meios ideológicos e psicológicos distintos, com certo radical biológico, em virtude do surgimento
das emoções complexas. Estas emoções “aparecem somente historicamente e são a combinação de relações que surgem em conseqüência da vida histórica, combinação que se dá no transcurso do processo evolutivo das emoções” (VIGOTSKI, 1930/2004a, p. 127).
As emoções complexas é a combinação de relações que se dá no transcurso do processo evolutivo das emoções. Esta ideia serve de base, segundo Vigotski, para os postulados a respeito do que ocorre na desintegração da consciência de quem sofre de uma doença. Por exemplo, no esquizofrênico, verifica-se que esses sistemas desintegram, em decorrência da sua inabilidade afetiva. Nela, quando a vida emocional se empobrece, todo o pensamento dele começa a ser regido apenas por seus afetos. Você pode ofendê-lo, mas seu comportamento permanecerá completamente frio, para ele isso não representa ofensa, porque seu pensamento está separado deste contexto, em desordem, pois o seu comportamento age a serviço de interesses e necessidades emocionais próprias, desvinculado da interação social.
Esse comportamento difere da vida interior do adolescente. Neste período, abre-se um vasto mundo de vivências internas, de impulsos, de anseios. Suas relações com o meio são mais complexas; as impressões do mundo externo são submetidas pelo adolescente a um tratamento mais profundo, porque a sua emotividade é aguçada, de elevadas excitações do sentimento.
Para Vygotski, “o estudo dos sistemas e de suas funções é muito instrutivo não apenas no caso do desenvolvimento e da construção dos processos psíquicos, mas também no caso de sua desintegração”17 (VIGOTSKI, 1930/2004a, p. 128). Segundo esse autor, existem, do ponto de vista da genética e da patologia, traços característicos na idade de transição que se observam na esquizofrenia. A esquizofrenia e a idade de transição estão em relação inversa. Naquela, “observamos a desintegração das funções que se cria na idade de transição e ainda que elas se cruzem na mesma estação, vão a direções contrárias” (VIGOTSKI, 1930/2004a, p. 124). Nesta, como visto anteriormente, ocorre à mudança da estrutura psicológica da personalidade e o amadurecimento das funções psicológicas superiores.
Todos esses sistemas são sistemas de origem social – “fundam-se na atitude social para consigo mesmo, como dissemos antes, e se caracterizam pelo traslado das relações coletivas para o interior da personalidade” (VYGOTSKI, 1930/2004a, p. 129).
Dessa forma, a função da formação de conceitos, das vivências, das emoções e dos sentimentos constitui o elo principal de todas as mudanças que se produzem na psicologia do
17 A desintegração, para Vigotski, se refere às atitudes do esquizofrênico de perder a conexão com o pensamento,
adolescente. Segundo Vigotski, “os elos restantes desta cadeia, todas as demais funções parciais se intelectualizam, se transformam e reestruturam pela influência dos êxitos decisivos que alcança o pensamento do adolescente” (VYGOTSKI, 1928-1931/1996, p. 113).