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Enquadramento teórico e fundamentação das opções metodológicas

2. Do conceito de «raça» ao multiculturalisme) invertido

2.3 Afinal do que falamos quando falamos de racismos?

Neste estudo, considera-se o racismo como uma configuração mulltidimensional, com potencialidades latentes, tendencialmente articulada, de crenças, afectos, emoções, valores, saberes, culturas, conhecimentos, vontades e poderes.

Assim, fala-se de racismos quando:

• se consideram as características próprias (biológicas, culturais, sociais) como padrão exclusivo para a avaliação do Outro,

• se procede a uma categorização das diferenças individuais, • se estabelecem taxinomia das categorias,

• se veicula explícita ou implicitamente uma hierarquização das «raças», sobretudo justificada por discursos científicos,

• se defende uma identidade segura, assimilando o Outro como ameaçador, a partir de diferenças raciais observáveis,

• se gere a desigualdade, de modo a justificar a integração social baseada na exploração,

• se sente necessidade de justificar a igualdade de oportunidades, entre grupos detentores de diferentes poderes, tendo por base critérios meritocráticos.

Considera-se que, no momento em que as taxinomias comportamentais instituídas foram constituídas como instrumentos de dominação social, ideológica, económica e política pelos Estados/Nação, ao justificarem as mais diversas formas diferenciação e de exploração humana, o racialismo— consciencialização de uma relativa coincidência entre corpos e modos de existir— deu lugar ao racismo.

Recorre-se ao contributo de vários autores, (tendo sido efectuada a tradução da obra de Balibar e Wallerstein, 1997) na procura de construir um quadro teórico de referência que permita perceber melhor, através dos diferentes contributos, quer ao nível das causas, quer ao das manifestações, a questão dos racismos.

Articulam-se então, várias perspectivas do racismo na procura de uma compreensão abrangente do mesmo.

Considera-se que, no plano causal, o racismo pode ser tido como:

• "uma filosofia da história (...) que faz da história a consequência de um «segredo» escondido e revelado aos homens sobre a sua própria natureza, o seu próprio nascimento, (...) que torna visível a causa invisível das sociedades e dos povos" (Balibar, 1997a:78) • e como "a representação de um povo como inferior por razões naturais, independentes da sua acção e da sua vontade" (Touraine, 1995:25).

No campo das manifestações o racismo pode ser considerado como:

• o resultado da combinação de duas lógicas fundamentais - de interiorização e de diferenciação (Wieviorka, 1995);

• e/ou "a fórmula mágica" (Wallerstein, 1997a:47), que favorece a maximização da acumulação do capital e, simultaneamente, a minimização dos custos; • ou ainda tido, como dispositivo de hierarquização que combina os

processos de desenvolvimento da desigualdade e da exclusão (Santos, 1995).

As diferentes perspectivas a abordar têm como pano de fundo a modernidade

"isto é, quando começa a ser elaborado o projecto duma ciência moderna e se abre uma reflexão crítica sobre a espécie humana" (Wieviorka, 1995:9). partindo todas do pressuposto de que o racismo não existe per si, antes, faz parte de uma trama

de causas e efeitos que se correlacionam, se influenciam e sustentam. Cada uma delas equaciona correlações existentes, com diferentes causas e efeitos na moderna sociedade .

Falando de racismos

Balibar (1997a), considera que o racismo se desenvolve no campo do nacionalismo, omnipresente na época moderna. Relativiza a pertinência das explicações psicológicas e económicas, uma vez que elas emanam pressupostos ou efeitos em torno do nacionalismo. Considera mesmo, que o racismo não tem nada a ver com a existência de «raças» biológicas, sendo antes "um produto histórico ou cultura!' (p:55).

Refere o nacionalismo como uma categoria intrinsecamente equívoca, porque nunca funciona sozinha, aparecendo sempre numa cadeia, quer como elo central, quer como fraco, não sendo apenas um efeito ideológico do processo objectivo de constituição das nações. O nacionalismo, acrescenta, é uniformizante, racionalizador e cultiva os fetiches de uma identidade nacional, que deve ser conservada contra qualquer disseminação.

A história das nações é apresentada como um relato que atribui continuidade ao sujeito (Balibar, 1997b). É uma representação que constitui uma ilusão retrospectiva, traduzindo realidades institucionais contrastantes. Sugere às várias gerações que, por um lado, há uma essência invariante, e por outro, faz crer que a evolução possível de determinados aspectos seleccionados retrospectivamente, é a única provável - representa um destino. Assim o "projecto e o destino são figuras simétricas da ilusão da identidade nacionar (p: 115). Wallerstein (1997b), questiona: "mas porque é necessário ter um passado, uma «identidade», porquê essa necessidade?" (p: 105).

O sentido do passado é um instrumento que se utiliza contra os inimigos. É elemento essencial à socialização dos indivíduos, dado que os mantém solidários ao grupo, ao estabelecido ou à contestação social. O passado real é imutável e irreversível, mas o passado social (a maneira de compreender o passado real), muda inevitável e, constantemente.

"O mito das origens e da continuidade nacional é assim, uma forma ideológica efectiva, sobre

construído a partir do passado" (Balibar, 1997b: 115).

Segundo o referido autor, o nacionalismo tem uma articulação histórica com o racismo, baseada num processo dialéctico.

Existe uma relação de reciprocidade entre nacionalismo e racismo: o racismo, considerado como uma categoria geral, polimórfica, tem uma função globalizante e produz uma etnicidade fictícia à volta da qual o nacionalismo constitui-se e, desenvolve-se.

Por exemplo, a necessidade de num Estado pluriétnico, ter lugar o domínio de uma cultura e de uma nacionalidade, ficticiamente unificada, sobre uma diversidade hierarquizada de etnicidades e culturas minoritárias, deve ou pode ser justificada pela perseguição racizante a minorias, tidas como inimigos interiores, servindo os objectivos políticos do nacionalismo, complementando- o.

Através do racismo - que induz a nação a um excesso de pureza racial ou cultural, para que seja ela própria — o nacionalismo passa por uma metamorfose das suas contradições materiais, em condições ideais (Ibidem). Balibar (1997a), reconhece a existência de três processos intelectuais que operam no racismo teórico e, permitem perceber o racismo quotidiano. São eles:

• a classificação—reflexão sobre a diferença que constitui a espécie humana, "a pesquisa dos critérios que fazem dos homens «homens»" (lbidem:80);

• a hierarquização - construção mais ou menos coerente de uma tabela dos grupos que constituem a espécie humana, formando uma representação - privilegiada da sua unidade na e pela desigualdade;

• a naturalização - projecção das diferenças históricas e sociais no horizonte de uma natureza imaginária.

No seu contributo a nível teórico, propõe a construção de tipos ideais de racismo, cuja pertinência é evidentemente relativa, uma vez que não existem em estados puros nem isolados. Coexistem e existem em diferentes nuances: "estas distinções não são para classificar tipos de comportamentos ou estruturas idealmente puras mas sim, para descortinar trajectórias históricas" (lbidem:58).

Mas, a sua pertinência relativa ajuda a constatar que não se pode equacionar apenas um racismo invariante, mas sim racismos, os quais formam um espectro aberto de situações. Considera então, a existência de:

• Racismo Teórico ou Doutrinal versus Racismo Espontâneo (considerado, quer como fenómeno da psicologia colectiva, quer como uma estrutura da personalidade individual mais ou menos consciente);

• Racismo Interior (dirigido contra uma população minoritária no espaço nacional) versus Racismo Exterior (considerado como uma forma extrema de xenofobia); • Postura Racista Auto-referencial (pré-juízo, exercendo violência física ou simbólica

pelos que se julgam representantes de uma «raça» superior) versus Postura Racista Hetero-referencial (dirigida às vítimas do processo de racialização, consideradas como pertencentes a uma «raça» inferior);

• Racismo Institucional ou Racismo de Estado versus Racismo Sociológico ou Racismo no Estado (dinâmico, conjuntural);

• Racismo de Exterminação (exclusivo; visa purificar o corpo social da ameaça das «raças» inferiores) versus Racismo de Opressão (inclusivo; visa hierarquizar a sociedade);

Segundo o referido autor, uma configuração racista insere-se num determinado momento histórico, que não tem fronteiras fixas, mas potencialidades latentes. É uma formação activa com elementos conscientes e inconscientes, que contribui para estruturar comportamentos, não sendo um simples delírio dos sujeitos racistas, mas sim um produto social.

Na actualidade, vislumbram-se ainda os traços de um racismo colonial, que não são suficientes para caracterizar as situações actuais — são mediados pela reflexão, no espaço nacional, de acontecimentos e tendências históricas mais gerais; revelam tensões entre os estereótipos culturais, construídos e interiorizados, e os estereótipos pessoais sobre os diferentes grupos humanos, e tensões entre os mitos criados, naturalizadores das diferenças e

legitimadores da acção discriminatória, e ainda crenças pessoais sobre os direitos à escolha e à diferença.

" o fardo do homem branco", considerado como o dever histórico e moral de civilizar as «raças» inferiores que estivessem sob o seu domínio (Balibar, 1997a:62), tipifica a tensão existente entre estereótipos culturais interiorizados e estereótipos pessoais sobre os diferentes grupos humanos, contribuindo para naturalizar as diferenças e legitimar a acção discriminatória, tendo permanecido no inconsciente do homem branco europeu.

Estas tensões parecem atenuar-se com o surgimento dos novos racismos, de aparência difusa e indirecta, cujo enfoque deixou de ser a categorização e a hierarquização racial, para passar a ser cultural (Vala, 1999).

A desvalorização da noção de «raça», baseada na semelhança biológica, e constituinte de um património hereditário, nomeadamente a partir dos anos 50, fez surgir o conceito de etnia que coloca a questão de se saber porque os

indivíduos desejam viver em conjunto e "que remete para a noção de cultura, de «habitus»' (Cuche, 1999:15).

Hoje, na moderna sociedade, num discurso política e socialmente correcto, são as questões culturais que emergem da análise política e social das relações de integração, segregação, competição, conflito, exclusão, assimilação dos indivíduos ou grupos de indivíduos culturalmente diferentes.

O racismo na moderna sociedade capitalista

Para Wallerstein (1997a), o racismo não se refere apenas a uma atitude de desprezo ou de medo em relação aos que pertencem a grupos definidos por critérios genéticos ou sociais. Vai mais longe do que isso.

O desprezo e o medo, são apenas auxiliares secundários do que representa a prática do racismo na economia do mundo capitalista. Quando se expulsa fisicamente o Outro do ambiente que se pretende aperfeiçoar, consegue-se pureza, mas inevitavelmente perde-se qualquer coisa — perde-se a força de trabalho da pessoa expulsa e, por conseguinte, a contribuição dessa pessoa para a criação de um excedente que se poderia usufruir. Essa perca é particularmente grave, quando a lógica interna do sistema se baseia na incessante acumulação de capital. Um sistema capitalista em expansão, requer toda a força de trabalho disponível, uma vez que esse trabalho produz os bens para serem acumulados. Se se quer maximizar a acumulação do capital, é preciso minimizar os custos, recrutando mão de obra barata e minimizando os problemas políticos. Assim, como atrás se referiu, "o racismo éa

fórmula mágica que favorece a realização de tais objectivos" (lbidem:47).

O autor citado refere, especialmente, o caso de um religioso espanhol, para que se possa perceber melhor o que isto significa. Quando os europeus chegaram ao Novo Mundo, muitos dos povos aí encontrados foram dizimados, quer pela doença, quer pelo uso da espada. Bartolomeu de La Casas, religioso espanhol, foi em defesa desses povos, argumentando serem possuidores de alma, a qual era necessário salvar. Uma vez que tinham alma, poderiam ser considerados humanos e, sendo assim, as regras da lei natural poderiam ser aplicadas. Era moralmente interdito serem massacrados indiscriminadamente e, tomava-se imperioso convertê-los aos valores universais do cristianismo. Estando vivos e em vias de conversão, podiam ser integrados como força de trabalho, mas, naturalmente, ao nível das suas competências - o que significava serem posicionados no estrato inferior da hierarquia profissional e salarial.

"O racismo de um ponto de vista operacional, tomou forma do que se poderá chamar «etnicização» da força do trabalho" (lbidem:49).

Segundo Wallerstein, sempre existiu uma hierarquia de profissões e de remunerações proporcional a critérios sociais. Porém, desde que o modelo de etnicização se tornou constante, os seus detalhes variaram em função do local, do tempo, da localização dos povos e das «raças» que se encontravam num espaço-tempo particular, e consoante as necessidades hierarquizadas da economia, nesse mesmo espaço-tempo.

O racismo combinou sempre as pretensões fundadas sobre a continuidade de um vínculo com o passado (genética ou socialmente definido), e uma extrema flexibilidade na presente definição das fronteiras entre essas entidades reificadas, chamadas «raças» ou grupos étnicos.

Os indivíduos, sempre existiram e, sempre foram classificados hierarquicamente, mas não foram sempre os mesmos. Têm vindo a ser, em número que, curiosamente, corresponde ao necessário para que o sistema de produção capitalista funcione: se não existirem negros em número suficiente, inventam-se os negros brancos.

O racismo fornece, então, uma base não meritocrática para justificar a desigualdade, uma vez que legitima a remuneração inferior de um segmento importante da força de trabalho, que nenhum critério meritocrático poderia justificar. O capitalismo cria o racismo, na medida em que "o racismo procura manter as pessoas dentro do sistema de trabalho e não, expulsá-las" (lbidem:50).

0 racismo pode ser considerado como "a representação de um povo como inferior por razões naturais, independentes da sua acção e da sua vontade" (Touraine, 1995:25). Esta inferioridade é sentida, pelo indivíduo ou grupo maioritário, como uma ameaça à sua identidade, à coesão social (hierarquicamente estabelecida), e à unidade nacional, despoletando medidas de exclusão, que procuram defender o corpo social da ameaça das «raças» inferiores (Balibar, 1997a).

O racismo pode ser analiticamente "entendido como a combinação de duas lógicas principais" (Wieviorka, 1995:12), que se associam, em maior ou menor grau (Tourraine, 1995), tomando-se complementares. São elas, a lógica de inferiorização ou desigualitária, baseada na argumentação biológica (Touraine, 1995), e a lógica de diferenciação ou diferencialista (Wieviorka, 1995), de cariz cultural (Touraine, 1995).

O racismo, baseado numa lógica de inferiorização, concede um espaço socialmente desvalorizado ao grupo racizado, justificando a desigualdade em argumentos biológicos e atributos naturais, e legitima a manutenção de uma ordem social baseada na dominação, discriminação e na exploração.

"A lógica de inferiorização explicita-se através da constituição da série desigualdade/inferioridade/dominação/exploração" (Marques, 1995:48).

O racismo, baseado numa lógica diferencialista, procura segregar, excluir ou destruir o grupo racizado, pois este é considerado como uma ameaça à homogeneidade social e aos valores identitários do Nós. "Esta lógica diferencialista pode ser explicitada pela série: díferença/puríficação-depuração/expulsão-exterminação"

(Ibidem).

Michel Wieviorka (1991), propõe um modelo de análise do racismo operando a desconstrução do racismo como um todo. Considera que as formas elementares e observáveis do racismo - o preconceito, a discriminação, a segregação, a violência e a ideologia - permitem desconstruir o fenómeno. Procura então, reconstruir a imagem de um "racismo tridimensional", constituindo dimensões, sendo que a primeira, é preenchida pelas atitudes (opiniões e preconceitos), a segunda, preenchida por comportamentos (discriminação, segregação e violência), e a terceira, por elaborações intelectuais (ideologia política, doutrina cientificizante).

preconceito (racial; confere legitimidade à exploração e permite aos actores racionalizarem ideologicamente a sua dominação" (Marques, 1995:50). Segundo o autor citado, os preconceitos raciais são contextualizados nas experiências individuais, na cultura e nas relações sociais. Têm um carácter instrumental de adaptação do indivíduo a sistemas sociais em mudança, e uma função de manutenção e reprodução de uma relação de dominação.

O preconceito tem, também, uma função adaptativa e de reconstituição do sentido para os actores, num sistema social de rápida mudança (Wieviorka, 1991), em contextos onde impera uma lógica diferencialista, uma vez que os grupos racizados são considerados responsáveis pela decadência, infelicidade, frustrações, ou até causadores dos problemas sociais dos grupos racizantes. "Uma das características mais importantes (...) da produção e reprodução dos preconceitos, é o facto de o grupo racizante não ser capaz de analisar e processar a totalidade dos factores da sua decadência, da crise que vive, ou do sentido da mudança a que assiste. Estes dependem de uma causalidade complexa que os transcende e, é ao Outro diferente que é imputada a culpa" (Marques, 1995:51 ) .

Segundo este autor, as outras formas elementares do racismo ( discriminação, segregação e violência), deverão ser analisadas consoante o seu "grau de infiltração nos domínios do sistema político e do Estado" (p:51), tomando-se diferenciados em função da sua origem: Estado, instituições, sistema político ou sociedade civil. Dependendo da actuação das diferentes fontes nas formas de segregação, discriminação e violência, maior é a penetração do racismo no sistema social.

Tal como Santos (1995), Marques (1995), afirma que a discriminação baseia- se, essencialmente, numa lógica desigualitária e num tratamento diferenciado, que inferioriza o grupo racizado. "Nos domínios sociais (...) pode atingir proporções de institucionalização, criando círculos viciosos de exclusão não associados a uma racização explícita e assumida"(p:52). Torna-se numa cadeia sistémica de exclusão, que contribui para o reforço dos preconceitos e da estereotipização, que fomenta a segregação.

A segregação aponta para uma espacilização do racismo, em que os grupos são percebidos como «raças» e separados espacialmente, dentro da mesma sociedade.

As duas lógicas (inferiorização e diferenciação) "são distintas em teoria, mas na prática histórica nunca são inteiramente separadas uma da outra" (Wieviorka, 1995:13). Santos (1995), contribui para um melhor entendimento da questão do racismo, apresentando reflexões sobre a desigualdade e a exclusão — que coexistem e se influenciam reciprocamente - na moderna sociedade capitalista.

O autor refere que na modernidade, os princípios emancipatórios da vida social são traduzidos pela igualdade, liberdade e cidadania. A desigualdade e a exclusão são excepções que devem ser minimizadas. À medida que o paradigma sócio-cultural da modernidade se tornou convergente com o desenvolvimento capitalista, as sociedades modernas passaram a viver da contradição entre os princípios da emancipação, que apontam para a

igualdade e a integração social, e os princípios da regulação, que gerem os processos de desigualdade e de exclusão, como consequência desse mesmo desenvolvimento.

Refere ainda, que a regulação social da moderna sociedade capitalista é constituída por processos que geram desigualdade e exclusão, mas onde a sociedade e o Estado são coagidos a fazer a gestão controlada destes fenómenos, de forma a impedir a desigualdade e exclusão extremas.

A desigualdade e a exclusão são sistemas de pertença hierarquizada, "justificados como excepções ou incidentes dum processo societal que não lhes reconhece legitimidade, em princípio" (Santos, 1995:1).

Sendo que a desigualdade é, sobretudo, um fenómeno sócio-económico que envolve um "sistema hierárquico de integração sociaf (lbidem:2), a exclusão é, essencialmente, um fenómeno cultural e social de pertença "que se afirma pela não pertença, um modo específico de dominar a dissidência. (A exclusão é) um processo histórico através do qual uma cultura, por via de um discurso de verdade, cria o interdito e o rejeita" (Ibidem).

Considerado como sendo "uma doença social da modernidade" (Touraine, 1995:29), o racismo é um dispositivo de hierarquização que combina a desigualdade e exclusão, visando a integração, subordinada pelo trabalho, e a exclusão, consubstanciada pela hierarquização racial (Santos, 1995).

Concomitantemente a este aspecto funcional do racismo, existe um aspecto ideológico que, dependendo dos contextos espaço-temporais, se tem desenvolvido segundo estratégias que contemplam uma linha de pensamento uniforme, mas que admite alguma plasticidade pragmática na aplicação dos critérios de diferenciação, em relação às situações sociais concretas (Lucas,2000), de que, consequentemente, resultam diferentes posturas perante o Outro.

Um contributo importante para a análise dos racismos é a clarificação da noção de etnocentrismo, que aqui, se considera como " inerente a todo o grupo

sócio-cultural, étnico ou nacional. É correlativo do mecanismo de distinção que separa o teu do meu, o próximo dos estrangeiros, as pessoas daqui das pessoas de fora (...) Assim o etnocentrismo é ao mesmo tempo um traço cultural universalmente expandido e um fenómeno psicológico de natureza projectiva e discriminativa que faz com que toda a percepção se faça através de uma grelha de leitura elaborada inconscientemente a partir do que nos é familiar e dos nosso próprios valores" (Ladmiral, 1989:137).

É pois, importante reconhecer este traço nas leituras que se fazem uma vez que dele depende a maneira como vamos olhar o Outro, através das nossas lentes.

Considera-se inevitável, assumir a natureza etnocêntrica dos nossos olhares, mas, torna-se importante frisar a importância do reconhecimento do carácter provisório das certezas, dos saberes e a não universalidade dos valores — o que deverá levar cada um a pensar, criticamente, como é etnocêntrico.

e o agir. É pois, neste espaço, que se julga poder existir a capacidade de reflexão. Mesmo que se caia na tentação de avaliar negativamente o Outro, face às diferenças que possui, e pensar que, obrigatoriamente, deve ser como o Nós, existe um tempo que poderá permitir tomar consciência de que o Outro pode não querer ser assimilado, integrado ou dever ser excluído — tendo o direito a ser diferente e, não ser inferiorizado. A dignidade do Outro como pessoa e a sua liberdade de escolha, poderão ser o limite para o etnocentrismo. Caso contrário, serão adoptadas posturas etnocêntricas no olhar o Outro diferente.

Posturas, que podem levar a uma defesa clara de ideias e práticas tradicionais racistas, de opressão, repressão, segregação ou exclusão, contra grupos ou